sexta-feira, 24 de abril de 2009

A Importância de Ser do Contra

Quando nos deparamos com algum artigo científico, texto ou livro escrito por um notório intelectual, logo nos infringimos uma seqüência de indagações, que podem se resumir a: 1)será que eu entendi o que ele quis dizer?; 2)como ou porque ele chegou a essa conclusão?; e 3)será que eu seria capaz de elaborar peça de igual qualidade?

A primeira indagação, revela a relação do indivíduo com a sociedade ao seu redor: o indivíduo quer sempre fazer parte de algo, compreender e absorver as coisas ao seu redor, de tal forma a se libertar das correntes da ignorância. Significa que o ser humano busca o saber não somente por interesse individual, mas também para mostrar-se culto àqueles que lhe são de sua cotidiana convivência. Esse primeiro questionamento, é fruto da nossa Vaidade.

A segunda indagação, reflete o senso crítico inerente ao ser humano, a importância que o indivíduo dá ao fato de não parecer ingênuo – aquela desconfiança e aquele ceticismo natural que são elementos fundamentais da curiosidade humana. É pensar que, aceitar algo como verdadeiro sem uma análise profunda do que foi lido ou ouvido, significaria continuar na ignorância, mas agora como marionetes, ao invés das bonecas de porcelana de outrora. É não querermos ser feitos de bobo, e de pensarmos que algo que serviu totalmente ao outro, com certeza não servirá a nós de forma igualmente plena. Esse segundo questionamento, é fruto do nosso Egoísmo.

E a terceira pergunta, fazemos por conta de nós mesmos. Tentamos, em um autoquestionamento, elevar a nossa auto-estima, dizendo “eu posso”, seguido das hipóteses “se eu quiser”, “se eu me esforçar”, “se eu me preparar”, etc. Todo indivíduo vê em si mesmo o personagem de uma história, um romance, mesmo que nem todos tenham essa percepção. E ao fazermos esse questionamento, queremos antes de qualquer coisa, saber se podemos ser os autores da nossa própria história, os donos do nosso próprio destino. Esse terceiro questionamento, é fruto da nossa Ambição.

Note-se aqui que tanto a Vaidade, quanto o Egoísmo e a Ambição, não estão retratados como vícios do caráter humano, como se toma no senso comum, e sim como componentes essenciais do nosso individualismo, e que não podem, em hipótese alguma, deixar de serem habitualmente exercitados pelo nosso ser.

Mas aqui trataremos da segunda indagação. Aquela que desconstrói aquilo que foi escrito. Se na primeira questão, a priori, concordamos com o autor(“será que eu entendi o que ele quis dizer?”), na segunda rompemos com esse crédito inicial, para então iniciarmos um processo de desmontagem cartesiana do texto lido.

Indagar sobre a pessoa do autor, sobre seus desejos e interesses mais íntimos(e alguns não tão íntimos assim), tentar encontrar seu corte epistemológico, são atitudes efetuadas por quem, como na primeira indagação, quer acreditar no que está lendo. É portanto, antes de um exercício de ceticismo – como pode parecer numa análise superficial – um exercício de crença e fé no seu próximo, mesmo que lhe seja diferente, política, social, ou culturalmente.

Tentar desconstruir o que o outro escreveu, é como dizer “quero acreditar em você, mas sem correr o risco de parecer um bobo”. É querer dar ao outro o crédito do merecimento, a análise racional do que se está lendo. Perceba-se que as pessoas que pulam direto para a segunda etapa, sem indagar primeiro se a percepção do quanto escrito foi correta(“ah, se é desse autor, nem quero ler”), não conseguem concluir essa segunda etapa com sucesso: atrelam a percepção do texto original direto à figura do autor, ou do grupo social, político ou cultural ao qual este pertence, sem perceber o óbvio: que cada indivíduo é uno, distinto dos demais, e que mesmo um único indivíduo, está sujeito a mudanças de pensamento ao longo da experiência da vida.

Por isso, a importância de ser do contra, de questionar tudo que se vê como verdade absoluta, para depois, aí sim, após submetido ao crivo da razão, concordar ou discordar do que foi lido. E essa postura nos ajuda a responder à terceira indagação, mesmo que esta nos pareça deveras individual e particular para ser abrangida por uma resposta genérica. Todos nós podemos ser intelectuais, desde que sejamos do contra. Aliás, ser intelectual, consiste justamente nisso: questionar o óbvio, fugir dos lugares-comuns. Se mais de uma pessoa concorda com determinada premissa, questione! Talvez elas estejam concordando sem nem entenderem o que a outra realmente pensa a respeito.

Mas, como dito anteriormente, ser do contra esbarra no crivo da razão: se, ao fim desse exercício de zetética crítica, nos depararmos com a situação de concordância sobre a qual o autor escreveu ou falou, não importa se esse autor é de um grupo político, social ou cultural distinto do nosso. Importa, isso sim, que tenhamos concordado, senão no todo, ao menos em parte, com o que foi dito ou escrito.

Porque o indivíduo não é um mero retrato do grupo social, político ou cultural ao qual pertence, não é um molde padrão desses. O indivíduo é, isso sim, um imenso mosaico, inserido dentro de uma realidade física imensamente inferior à realidade intelectual, e cujas partes desse mosaico se formam não somente pelos grupos sociais do qual faz parte, e sim das crenças distintas e contraditórias entre si, que lhe afagam à sua própria razão.

Victor Castro Fernandes de Sousa, novembro de 2005, Salvador-BA.

p.s.: agora podem fazer as 3 perguntas!

Um comentário: