sexta-feira, 24 de abril de 2009

O Nazismo e o "Pum"

É moda hoje em dia vermos entrar em ação, em cada debate sobre Direito, sociedade, cultura, etc, um exército de defensores ferrenhos do politicamente correto. Pessoas que, em nome da “boa convivência”, defendem que seja podado do indivíduo certas particularidades, oriundas da sua própria natureza e origem, em nome de um modelo padrão, único, de pessoa – o tal “humanista”. Nem vou entrar no mérito de se o termo está sendo usado no real sentido do humanismo, mas o que cabe aqui é discutir os impactos dessa tendência sobre o rol de direitos do indivíduo, na sociedade contemporânea.

Tomemos como exemplo o Brasil. À revelia da própria Constituição Federal, promulgada em 88, tivemos a aprovação posterior de uma Lei de Combate ao Racismo, que estendia o conceito do crime não só à mera agressão física ou moral por motivos raciais, mas também à manifestação de idéias racistas por meio de veículos de imprensa ou mídia. A origem desse fervor criminalizante, que acabou por limitar um dos pilares da sociedade ocidental – a liberdade de imprensa – em nosso país, se deu por um clima revanchista, de deslumbre com a redemocratização, gerando a doce ilusão de que os “males” se combatem com a mera criminalização da conduta.

Mas o que cabe discutir aqui é: 1) até que ponto o racismo, a homofobia, o machismo, a discriminação religiosa, etc, uma vez manifestados de forma pacífica por meio de um livro ou jornal, por exemplo, podem ser considerados uma patologia social? 2) E até que ponto essa patologia pode ser “consertada” ou “prevenida” pela Lei criminalizante, e até que ponto não seria algo inerente a qualquer sociedade?

O que assusta na Ditadura do Politicamente Correto é o fato de seus protagonistas, paladinos do humanismo e da verdade multicultural, terem tanto preconceito contra os “preconceituosos”, quanto tudo aquilo que eles combatem. O preconceito, a discriminação, a ignorância, são inerentes ao homem. Não se combate com julgamentos, mas com diálogo. E como pode haver diálogo se esse é proibido por lei?

Penso eu – e talvez esteja sendo ingênuo, graças a Deus ainda não fui sugado pelo monstro da malícia eterna – que a melhor forma de um nazista se convencer a não ser nazista é sendo nazista por um tempo. Principalmente no Brasil. Porque? Porque vai chegar uma hora em que ele vai se achar tão ridículo defendendo aquela idéia sem pé nem cabeça, que vai deixar de defendê-la. Como no filme “A Outra História Americana”, de brilhante atuação do ator Edward Norton, no papel de um skinhead.

Na verdade, ao invés de censurarmos através de uma lei, adotando num Estado Democrático uma postura tão déspota quanto das próprias ditaduras, suprimindo a individualidade e a livre opinião do cidadão, deveríamos, isso sim, limitar essa censura ao âmbito social. Não é por liberalizarmos a expressão de opiniões discriminatórias que essas vão se propagar como o vento. E não é por criminalizar essa liberdade de expressão que o preconceito vai deixar de existir. Ambas são falsas “verdades”.

Ser nazista, racista, homofóbico, etc, na sociedade da informação e da globalização na qual vivemos hoje, é como soltar um “pum” em público. Não é crime soltar “pum”, mas o seu progenitor irá, necessariamente, sofrer uma censura social: pessoas se afastarão dele, não irão querer estar comendo na mesma mesa de um sujeito que pode “peidar” a qualquer momento, nem vão pegar o mesmo elevador que ele (um pesadelo corriqueiro, diga-se), da mesma forma como se afastarão de alguém que tem idéias racistas ou homofóbicas.

Por isso, proponho que, em nome das liberdades individuais, e dos direitos e garantias que sustentam a sociedade ocidental, e em contrário sensu à Ditadura do Politicamente Correto que tenta criminalizar o diferente e as particularidades do indivíduo, que se dê aos nazistas e afins o mesmo tratamento que deve ser dado aos soltadores de “pum”: o desprezo da Lei, e o desprezo de todo o seu círculo social.

Se mantivermos essa tendência de criminalização e padronização do diferente, pela Ditadura do Politicamente Correto, veremos, em breve, a tipificação do “pum” como crime contra a humanidade. É isso que queremos?

Victor Castro Fernandes de Sousa, fevereiro de 2006, Salvador-BA.

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