domingo, 10 de maio de 2009

Uma outra visão sobre a crise

Em tempos de crise, é natural vermos discursos inflamados em prol da manutenção dos empregos à custa dos subsídios estatais, e da necessidade de fortalecimento da rede de proteção social em cada país. Esse discurso, de forte fundamentação no Welfare State, foi desenhado por governantes de todo o mundo pós-Crise de 29, e traz consigo também uma idéia de nacionalismo, que busca no orgulho patriótico o resgate da esperança social.

Mas a idéia de que o Estado deve socorrer o mercado em épocas de crise nos remete necessariamente à questão: então, quais devem ser os beneficiados? Os empresários, os trabalhadores, os clientes, os mais necessitados? Independente da ideologia ou do ponto-de-vista, sempre chegamos a um denominador comum nesse discurso: o beneficiado deve ser um nacional.

É difícil vermos alguém falar em intervenção estatal na economia sem falar de certos bordões nacionalistas que remetem a uma idéia ultrapassada de isolacionismo cultural e econômico. Seja de esquerda, seja de direita, o intervencionista é quase sempre um nacionalista, preocupado com o bem-estar do seu povo.

Ora, e que mal há nisso? Há o mal de se indagar o que motiva os intervencionistas.

Seria a busca por um ambiente mercadológico mais competitivo, com o fomento do Estado a certos setores, onde poucos grupos econômicos controlam a oferta dos serviços? Não, não seria. Ou por acaso a motivação estaria na necessidade de um novo equilíbrio mercadológico que incentivasse o empreendedorismo de pequenos e médios empresários, desconcentrando a renda e os meios de produção das mãos de poucos? Também não.

As razões expostas pelos intervencionistas são sempre a “soberania nacional”, o “progresso da nação”, o “avanço enquanto potência mundial”. Ou, em momentos de crise, a necessidade de se resguardar os “desempregados e suas famílias”. Na prática, estamos falando de um Estado que dá dinheiro a empresários que, nas vacas gordas, torraram tudo em jatinhos, lanchas e ilhas particulares, beneficiados que são por uma tributação que não os alcança na mesma proporção que atinge aos empreendedores de classe média.

Suas empresas quebram, não têm como atender às exigências dos sindicatos, e estes últimos mantém-se firmes em suas exigências por mais vantagens em tempos de crise, como uma rocha caindo intémpere rumo ao pé do desfiladeiro. O fim, já sabemos: mais desemprego, seguido de pacotes econômicos que só servirão para manter as empresas nas mãos dos mesmos donos que as faliram – sem necessariamente manter os empregos de seus trabalhadores.

Mas o capital continua sendo nacional, não? Logo, em nome da soberania, vamos beneficiar os mesmos empresários que faliram suas empresas por não pensarem nos tempos de crise, desde que esses empresários mantenham firme e forte a soberania econômica da nação. Certo?

Errado. Um país se fortalece na medida em que não permite que seus meios de produção sejam controlados por almofadinhas pródigos, cuja ambição de se promiscuir com o Estado, utilizando-se de sua influência econômica, os torna mais políticos do que empresários. O que é melhor? Planejar as finanças de sua empresa, para os tempos de crise, ou ter um deputado amigo a quem recorrer para pedir uma ajuda, em nome dos “pobres desempregados”?

Como brasileiro, é óbvio que minha explanação conduz a um ambiente de total ausência de livre mercado, em que a promiscuidade Estado x Mercado é a lei. Mas essa é uma situação que ocorre em todo o mundo, e os EUA são o exemplo melhor disso. A diferença é que, nos EUA, os empresários foram publicamente e moralmente condenados pelo estrago que fizeram. Na Europa, o erro foi idêntico, mas os seus empresários perdulários estavam protegidos pela legislação burocrática, nacionalista e anti-liberal da EU.

“O poder absoluto corrompe absolutamente”. E enquanto a intervenção estatal na economia conduzir a um cenário de discricionariedade governamental, e não a critérios objetivos e a diretrizes claras de “qual economia nós queremos”, teremos sempre o discurso nacionalista e desenvolvimentista a favor dos empresários “amigos dos amigos”.

Quando Adam Smith disse que quem souber produzir sapatos que produza, e quem não souber que importe e vá produzir o que melhor lhe couber, acusaram-lhe (centenas de anos depois) e a seus seguidores, de justificar com isso a Divisão Internacional de Trabalho. Hoje, com países da Ásia dando de goleada nas potências européias em termos de indústria tecnológica, e com países da América do Sul criando um novo conceito de “agrobusiness” que torna obsoleta a produção dos grotões de EUA e Europa, vê-se que, pelo menos nesse ponto, Smith estava certo.

O Estado deve sim fomentar o mercado. Nisso eu discordo de Smith e da doutrina liberal clássica. Mas deve fomentar na medida em que crie mais competitividade e mais dinamismo, e não engessando a economia com subsídios a empresários incompetentes que, de tempos em tempos, criam crises para receberem dinheiro de graça do Estado.

Essa crise prova, de uma vez por todas, que o capital especulativo e a administração irresponsável de empresas são os maiores beneficiados pela dicotomia direita x esquerda na economia política. De um lado, a direita defende os interesses dos grandes empresários, e de outro, a esquerda defende os sindicatos. No cerne do discurso, a “nação em primeiro lugar”. Enquanto isso, o mundo se retrai em um isolacionismo econômico que só as crises são capazes de gerar – “farinha pouca, meu pirão primeiro”, se diz aqui na Bahia. E se cada país, em momentos de crise, pensar em manter seus empresários fortes e seus trabalhadores alimentados, independente da responsabilidade que tenham pela ineficiência de seus respectivos setores, no fim, quem paga a conta é a meritocracia e a livre iniciativa.

E de tempos em tempos, mais uma vez, as castas de empresários e trabalhadores, incompetentes para fazerem bem os seus trabalhos, vão pedindo ao Estado que supra suas deficiências, em nome do bem nacional. Enquanto isso, a possibilidade de uma economia mais eficiente, mais dinâmica e mais livre para pequenos e médios empreendedores, se perde no mar do status quo econômico e político.

Se o keynesianismo é um mal necessário em tempos de crise, que pelo menos ele tenha um alvo certo: o empreendedorismo das classes médias. Só a capacidade criativa do ser humano pode sobrepor-se às mazelas causadas por outra característica também própria do homem: a corrupção moral. E, como constatou Karl Marx, ainda que a contragosto, a classe média (ou “pequena burguesia”) é a verdadeira classe revolucionária em uma sociedade.

Victor C. F. de Sousa, janeiro de 2009, Salvador-BA.

Nenhum comentário:

Postar um comentário