quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Da indissociabilidade entre os defeitos e as qualidades do indivíduo

“Torna-te aquilo que tu és” - com esta frase, Píndaro convoca-nos a refletir acerca da nossa própria natureza (não fui direto à fonte, ressalvo, mas retirei a citação de um livro de Nietzche). Não da nossa posição social, da nossa inserção em uma determinada classe ou coletividade (ilusão marxista e também pós-modernista), mas da nossa natureza individual, a essência do nosso ser.

O indivíduo é um mosaico, de combinações únicas. Ninguém é 100% comunista, ou 100% católico, ou 100% negro, ou 100% brasileiro, ou 100% liberal – ainda que seja cada uma dessas coisas em sua intensidade mais profunda. Cada um de nós é diferente do outro – uma redundância, com o perdão do leitor pela frase feita – e principalmente, essas diferenças tornam-se ainda mais visíveis quando estamos entre aqueles ditos nossos “semelhantes”.

O que o “torna-te aquilo que tu és” nos convoca a refletir é para nossa total ausência de qualquer obrigação de nos adaptarmos a um modelo pré-determinado de indivíduo. Às favas com as coletividades, com os estereótipos! Por acaso poderíamos conceber a hipótese de que 2 jovens partidários de uma determinada ideologia – com tão ferrenha fidelidade à mesma, que quase se confundem em um único indivíduo, duplicado, usando das mesmas roupas, andando com o mesmo grupo, falando as mesmas gírias - porventura tenham vivido e compartilhado dos mesmos amigos, dos mesmos familiares, das mesmas paixões e ódios, das mesmas inspirações e êxtases, sempre e tão somente?

O mosaico que compõe um ser humano, em sua individualidade mais extrema, é inexorável. Não existem coletividades, classes, culturas, nacionalidades. Cada indivíduo é um único acaso da natureza, sem pré-determinações acerca do seu comportamento social ou das suas concepções filosóficas da vida. Cabe-nos renegar qualquer intenção, interna ou externa, de adaptarmos-nos àquilo que não combina com a nossa natureza individual. Porque neste ponto, lanço o paradigma que norteia este ensaio: de que as qualidades pelas quais somos admirados – ou que admiramos em nós mesmos – se entrelaçam de forma indissociável aos nossos defeitos mais vergonhosos ou renegáveis.E o mesmo vale para todas as pessoas com as quais convivemos.

É incoerente alguém dizer: “gosto muito de fulano, mas esse seu defeito...”. Essa é, de fato, uma afirmação estúpida! Se desconstruirmos qualquer personalidade, analisando o histórico e a vida de uma determinada pessoa, veremos que a origem daquele defeito que tanto rejeitamos está numa qualidade que nos atrai nesta mesma pessoa, e vice-versa.

E tendo lançado assim a base mais sólida da tolerância ao próximo e a nós mesmos, do respeito pela individualidade indisponível de cada ser humano, convoco o leitor a refletir sobre a sua própria postura ante a vida (leia-se: ante a nossa vida SOCIAL). Em quantos momentos pensamos em mudar quem nós somos, abrirmos mãos de nossas idéias e questionamentos, para agradarmos aos outros, ou para nos inserirmos em um determinado “grupo” ou “tribo”?! Ou ainda, quando por orgulho não o fazemos, sentimo-nos excluídos, tristes, ou culpados, achando-nos a magoar as pessoas de que nós gostamos, ou nos excluindo do meio social em que vivemos.

Mas conhecer os limites e as características mais irrevogáveis do nosso ser – ou do outro – é o nosso único – note-se bem: ÚNICO! - caminho para a libertação. A libertação do ser. Não se trata de sermos alheios a tudo o que for externo a nós, mas sim de, tal qual uma esponja, ir absorvendo cada influência, cada experiência, decodificando-as de um modo bem particular nosso.

Aos meus defeitos, agradeço pelas minhas qualidades. Aos meus méritos, redimo-os pelas minhas fraquezas. E a todos os próximos a mim, usufruo de suas qualidades e tolero os seus defeitos, pois as primeiras me satisfazem egoísticamente, e os segundos me libertam altruísticamente.

Victor Castro Fernandes de Sousa, fevereiro de 2007, Salvador-BA.

Nenhum comentário:

Postar um comentário