quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Nem PT nem PSDB

Pobre do país que se divide entre PT e PSDB. Entre PCdoB e PFL. Pobre do país que se divide entre o estatismo romântico de Vargas e da esquerda em geral, e o mito do desenvolvimentismo/progressismo elitistas cultivado pela direita desde JK. O Brasil está emergido em uma guerra entre correntes que, antes ideológicas, hoje limitam-se ao fisiologismo barato e à disputa eleitoral. Não é à toa que todos têm as mesmas propostas: mais empregos, mais crescimento econômico, etc etc etc. O óbvio ululante e demagógico.

De um lado, o PT e seus aliados ainda acreditam na redenção das massas, na sua subida ao poder mantendo contudo a condição de pobres – a pureza e a simplicidade da miséria dobrando a corrupção do poder e da riqueza. Acreditam em uma democracia participativa que nivele as pessoas por baixo (todos pequenos empresários, agricultores familiares, servidores públicos de baixos salários, líderes sindicais e de movimentos sociais, etc). A burguesia fede. Não há espaço pra ela na República do PT. Não há espaço para ela na democracia popular.

Na outra margem, o PSDB, o PFL, e demais partidos que, se por um lado trazem alguns nomes de notável qualidade na gestão da coisa pública, de outro abdicaram de uma linha de pensamento, de um projeto de país (mesmo que equivocado), em nome do vale-tudo do jogo eleitoral. Mas o PT não fez o mesmo com a “Carta ao Povo Brasileiro” em 2002? Sim, mas antes ele já havia firmado seu público-alvo: sindicalistas, estudantes, ativistas políticos dos movimentos sociais, e a parcela da classe média com sentimento de culpa pela pobreza do país. Já PFL, PSDB, e afins, nem um público-alvo se dignaram a ter.

Na Inglaterra, o Partido Conservador ainda resiste à mudança dos tempos. Se o Partido Liberal sucumbiu à 2ª Guerra Mundial, perdendo suas fileiras de militantes para o então pequeno Partido Trabalhista, o Partido Conservador ainda manteve viva a chama de uma Inglaterra grande, como na Era Vitoriana. Os conservadores e os trabalhistas se dividem quando a questão é economia (não há em cada partido uma linha uniforme de pensamento, pró ou contra União Européia), mas ainda carregam muito da história recente de um ex-Império que teve de se acostumar em ser pequeno. Além disso, o voto distrital acirra as disputas entre essas 2 potências políticas.

Na Alemanha, o Partido Verde se impõe como o grande defensor da bandeira liberal de uma Europa responsável ambientalmente, integrada monetariamente, culturalmente plúrima. O Partido Democrata Cristão e o Partido Social-Democrata, por sua vez, abrigam a resistência nacionalista. Essa tendência se expande por toda a Europa, em que mudam apenas os nomes dos partidos. Os liberais de um lado – com a bandeira do fim dos subsídios agrícolas e pró-integração econômica mundial - e os nacionalistas de outro – com a bandeira de maior nacionalização e planejamento estatal para a produção econômica nacional.

Nos EUA, os democratas se destacam por uma visão de país mais concernente com o ideal dos Pais Fundadores: uma diplomacia voltada apenas para o estabelecimento de laços estreitos com os demais países, impostos mais baixos para os pequenos empresários e agricultores, maior integração econômica mundial, garantia dos direitos e liberdades fundamentais. Já os republicanos, funcionam como um contraponto, que relembra os EUA pós-Guerra de Cuba (1896): belicismo, expansionismo, diplomacia voltada para o estabelecimento de um poderio mundial.

E no Brasil? Aqui não se discute o papel do Brasil no mundo – citam-se apenas algumas teorias terceiro-mundistas totalmente desconexas com a realidade. Não se discute direitos e garantias individuais – apenas se copia o quanto já produzido lá fora. Federalismo está fora de cogitação: a briga é imediatista, pelo custeio da máquina estatal, e não pelo planejamento de um país futuro. Os partidos se preocupam em ganhar eleições na base das estatísticas e dos números baratos – ninguém se preocupa com o desenvolvimento institucional do país, na discussão de um projeto a longo prazo de nação.

Pensam os partidos que sim, que discutem. De um lado, argumentam os tucanos e pefelistas que o Governo FHC reformou o Estado e redistribuiu competências aos prefeitos e governadores. Mas não deu a contrapartida em arrecadação para esses entes federativos. Do outro, petistas dizem que o Governo Lula inaugurou uma fase de diplomacia Sul-Sul, mas essa teoria de diplomacia terceiro-mundista requentada mostra-se completamente alheia aos novos desafios que surgirão no mundo daqui para frente.

E a união estável entre pessoas do mesmo sexo? E a descriminalização das drogas? E o aborto do anencéfalo? E as questões da Bioética (reprodução humana, transgênicos, etc)? Discutir direitos e garantias individuais também é discutir Estado, mas os partidos pouco se importam com o que não pode ser auferido em números e estatísticas para os horários eleitorais.

Triste do país que limita o seu debate ao agora. Esse é o verdadeiro problema do Brasil.

Victor Castro Fernandes de Sousa, outubro de 2006, Salvador-BA.


BONUS: O PT segundo os Petistas...

- Luiz Carlos Barreto:

“A política é um terreno pantanoso, a ética é de conveniência. Se o fim é nobre, os fins justificam os meios. O que eu acho inaceitável é roubar. Mentir é do jogo político. Não é roubo”. (RJ, 08/2006)


- Paulo Betti:

“Não vamos ser hipócritas: política se faz com mãos sujas”. (RJ, 08/2006)


- Wagner Tiso:

“Não estou preocupado com a ética do PT. Acho que o PT fez um jogo que tem que fazer para governar o país”. (RJ, 08/2006)

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