sexta-feira, 28 de agosto de 2009

O Conceito de Deus e a Ambivalência do Ser

O que é Deus? Essa é uma pergunta difícil de responder. Deus pode ser um sujeito de barba branca, que criou o mundo, deixou ele ao livre arbítrio do homem, e interfere só quando “a coisa fica preta”. Deus pode ser um parlamento composto de diversos espíritos, que determinam quem é bom e merece recompensa, e quem é mal e merece uma dosezinha de “karma”. Ou Deus pode ser uma força, uma energia que, tal como os computadores dos tempos presentes, possui inteligência artificial nas suas ações.

Mas com tantas religiões e tantos ateísmos (seriam os ateísmos também religiões?), tantas filosofias e diferentes formas de exercício da religiosidade, quem afinal estaria com a razão?

Para entender Deus, no entanto, é preciso antes entender o homem.

O ser humano é ambíguo pela sua própria natureza. O bem e o mal. O certo e o errado. A vida e a morte. A certeza e a dúvida. O homem e a mulher. O divino e o terreno. A razão e a paixão. Cada vez, no entanto, que ele tenta suprimir um dos lados, que tenta subjugar uma parte inerente à sua existência, em prol da supremacia da outra, sucumbe ao fanatismo e ao fracasso.

O que é o bem? O que é o mal? Como distinguir o que é certo e o que é errado? O homem nunca será perfeito o suficiente para ter a certeza de que algo é essencialmente bom ou correto. Dependerá, única e exclusivamente, de seus interesses momentâneos. Dependerá de seus valores e necessidades. Dependerá do meio que o cerca. O certo e o errado, o bem e o mal, não o são em sua própria essência, nem tão pouco possuem um caráter transcendental, inerente ao objeto de análise. Por isso, mesmo escolhendo por um ou outro veredicto sobre tal objeto, a única certeza com que o homem poderá contar, é que o outro lado, a opinião discordante, também estará parcialmente certa.

Somente a tolerância com o diferente pode salvar o homem da sua inevitável equivocabilidade. Somente a admissão de sua própria imperfeição, e logo, da sua incapacidade de fazer julgamentos absolutamente precisos, pode atenuar no homem os efeitos da sua própria ignorância. Isso não significa ser menos convicto em suas certezas, nem menos intransigente em seus valores. Significa, tão somente – como se fosse algo simples, não o é – desenvolver o hábito e o valor de respeitar a convicção e os valores alheios aos seus.

Da mesma forma, pode-se buscar esse equilíbrio entre a paixão e a razão, entre o divino e o terreno. Não deve o homem se abster de sentir, da mesma forma como não deve se deixar levar somente pelas suas emoções. A razão e a paixão não são antagonistas, mas suplementares. A intuição e a reflexão caminham juntas para a tomada de uma decisão acertada. Calar a voz de nossos corações é um erro tão grande para os racionalistas, quanto é para os passionais negligenciar a nossa capacidade hipotético-dedutiva. Para usar uma metáfora pop atual, cada pessoa tem um lado Sith e um lado Jedi, igualmente importantes para a sua existência.

Na verdade, o ser humano jamais saberá ser esse ponto de equilíbrio entre todas as ambivalências que compõem a sua existência. É da própria natureza do ser, tanto quanto a sua divisão interna entre tantas tendências, também a sua inclinação em escolher por uma, em detrimento da outra. É o caminho mais curto e simples para a felicidade. Mas, infelizmente, é também o mais fugaz. Já a outra opção - admitir a sua ambigüidade - lhe trará mais dúvidas do que certezas, e lhe cobrará uma reflexão constante sobre os seus atos e seus valores. Mas disso não advirá outra conseqüência, senão a qualidade de mais justo, mais tolerante, e mais sociável com aqueles que o circundam.

Nesse ínterim, surge Deus. Deus seria o pote de ouro druida no fim do arco-íris. A eterna busca do homem por respostas que lhe expliquem a própria existência do ser. E sendo o homem um ser tão complexo, tão diversificado entre os da sua própria espécie, não poderia haver um único Deus, uma única religião, uma única forma de exercício da espiritualidade. Deus na verdade são muitos, de diversos rostos, de ambos os sexos, de inúmeras formas de se manifestar e de ser reverenciado pelos povos que habitam a Terra. E a cada um desses povos e indivíduos, cabe a certeza da verdade acerca da sua respectiva fé.

Porque, se de tudo o quanto exposto acima não podemos concluir por uma materialização precisa do que seja Deus, uma certeza fica: a de que Deus é o caminho para o homem atingir a sua própria perfeição. De que o conceito do que seja Deus, embora variável de indivíduo para indivíduo, pode ser abstratamente definido como “aquele ou aquilo que retira o homem da influência do meio, e o conduz ao encontro de si mesmo”.

Deus é o caminho que guia o homem rumo a um enorme espelho, no qual se refletirá a sua imagem e semelhança, e no qual se escreverá, para cada indivíduo, o seu papel nesse mundo. Então, o homem terá a resposta para a sua pergunta eterna: “porque Eu estou aqui”?

Victor Castro Fernandes de Sousa, maio de 2006, Salvador-BA.

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