quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Outro das antigas: "Eu não me excito por tão pouco!"

Eu não me excito por tão pouco!

Para um jovem – ainda tenho 22 anos! – criado em uma cidade grande (Salvador, Bahia), de uma região pouco desenvolvida (Nordeste), de um país subdesenvolvido (Brasil), de um continente periférico (América do Sul), é muito de se espantar que eu não me empolgue com o discurso esquerdista – manifestações, protestos, luta, rebeldia, etc – sem ser, por outro lado, um burguês filhinho-de-papai metido a Henry Ford ou alienado com o último sucesso pop.

A verdade é que a minha geração foi uma triste e perdida geração. De um lado, os “politizados”, sempre com os seus livrinhos de Marx embaixo do braço, comentando o último artigo de Kapra ou Chomsky; e na contrapartida, os “bermudeiros”, com suas havaianas e suas camisas-abadá (“camiseta machão” pros homens, “topzinho piriguete” para as mulheres), a servirem de massa de manobra não de partidos políticos como os primeiros, mas dos concursos públicos, dos intercâmbios, dos vestibulares, e todo esse arcabouço “bem-suceditista” que nossa geração foi obrigada a engolir sem questionar.

Uns questionam demais, outros de menos. E as respostas “certas” (ou as “perguntas certas”, já dizia um certo filósofo) ficam enterradas pela demagogia ou pela acomodação.

Vi, por meio de documentários e livros, as gerações dos anos 40 (os beatniks), 50 (os rockers), 60 (os hippies), 70 (os pós-hippies e os dancers), 80 (punks, metaleiros, yuppies, góticos, surfistas, etc), combaterem o nazismo, o sexismo, o racismo, as guerras irracionais, os regimes ditatoriais de diferentes bandeiras e ideologias. E a minha geração? Herdou tudo isso mastigadinho, nos moldes de um discurso politicamente correto totalmente desconexo da nova realidade globalizada e multicultural em que vivemos.

Os “politizados” da minha geração cultuam Guevara, Mao Tsè-tung, Fidel Castro, Garibaldi, Lenin, Trotsky, Robespierre, Perón, Vargas, Solano López, Zapata, entre outros tantos líderes políticos que só deixaram como exemplo a luta pela luta, o gosto e a necessidade do poder, através da luta. E produziram, nas gerações futuras, pessoas que se masturbam ao ouvir falar em "manifestação", "luta", "confronto", e confundem coragem (como o do jovem chinês que se interpôs em frente a um canhão na Praça da Paz Celestial nos anos 70) com banditismo (os jovens que hoje em dia depredam lojas da McDonald´s prá combater o “imperialismo americano”).

Eu, ao contrário, cultuo homens que, independente de serem “de direita” ou “de esquerda”, construíram junto com eles uma idéia de nação, de continuidade, de ordem (jurídica inclusive) - ou seja, eles legaram às gerações futuras algo pelo que lutar: Lincoln, Jefferson, Churchill, De Gaulle, Gorbachev, Carter, Kennedy. Homens que, embora vivessem em época dominadas pela tentação autoritária, tiveram a preocupação em defender a democracia e os direitos individuais de cada cidadão.

A minha geração foi por 8 anos bombardeada com críticas ao Governo Fernando Henrique Cardoso – e endossou, nos trabalhos e redações escolares, o grito de “Fora FHC” - mas se anestesiou ante a grave crise política e moral que se abateu sobre o Governo Lula. A minha geração abre a boca para criticar o Governo Bush (EUA), mas faz vistas grossas ante tiranos como Saddam Hussein e Fidel Castro, ou ditaduras como a da China e da Coréia do Norte. Minha geração – direitistas e esquerdistas – se preocupou em escolher entre Alckmin e Lula nas eleições de 2006, mas não em pensar que tipo de país queremos deixar para as próximas gerações.

Isso, é claro, sem falar dos que estão mais ocupados dançando o novo sucesso do Pagod´art: “Só as cabeças”.

Essa é a geração na qual eu cresci, e a qual irá se responsabilizar por tocar o país pelos próximos 20, 30 anos. Dado o quadro atual, é difícil dizer que o Brasil será, no futuro, muito melhor do que é hoje. Ou que iremos, nós, subdesenvolvidos, periféricos, desiguais, poder finalmente nos libertar da mediocridade e demagogia dos “politizados” – que se excitam com manifestações e “lutas” contra o “capital” e a “elite branca e repressora” – ou o comodismo e a alienação dos bermudeiros e das piriguetes.

Victor Castro Fernandes de Sousa, novembro de 2006, Salvador-BA.

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