quarta-feira, 16 de setembro de 2009

"Velocità, eu quero velocità!"

Há duas formas de se compreender o filme “Meu Nome não é Johny”, no qual o ator Selton Mello interpreta o playboy de classe média alta carioca, João Guilherme Estrela, preso nos anos 90 por envolvimento com o narcotráfico.

A primeira delas é por uma ótica social. Sem dúvidas, a análise mais pobre. Achar que uma classe alta irresponsável e criminosa domina o nosso país há 500 anos, e que são poucos os representantes dela que têm um final “justo e merecido”, é sem dúvidas uma grotesca simplificação da natureza humana, e do diálogo entre o indivíduo e a coletividade que o cerca. Ainda, entender tudo sob a ótica de que o comércio de drogas não é um crime tão grave que mereça cadeia – eu, particularmente, acho que não merece mesmo - também é desviar o verdadeiro foco do filme.

“Meu nome não é Johny” fala de um sujeito que nunca se contentou em ser aquilo para o qual ele estava predestinado a ser. É a essência daquilo que a cultura ocidental, erroneamente, entende como “ser livre”. Mas, ao mesmo tempo, representa tudo aquilo que essa mesma cultura ocidental tenta reprimir por meio das leis e da atuação estatal.

As drogas matam e financiam crimes brutais? Com certeza. A escola e o trabalho edificam e dignificam o indivíduo? Não restam dúvidas. Alguém que negligencia as responsabilidades do dia-a-dia (como o trabalho e a escola) e se envolve no mundo das drogas (como traficante) é uma pessoa ruim? Depende daquilo que entendemos como “pessoa ruim”.

A sociedade tende a criar normas para se proteger dela mesma. Contudo, ainda que supostamente em nome da liberdade e da garantia de certos direitos fundamentais (a vida, a família e a felicidade entre eles), essas normas perdem a sua razão de ser, e passam a servir como mera prevalência de morais individuais (as dos burocratas estatais) sobre uma coletividade inteira.

“Meu nome não é Johny” traz um belo depoimento: “é que eu nunca soube o que era certo ou errado”. E quem sabe o que é certo ou errado? Os deputados que fazem as leis? Os juízes que as cumprem? Os jornalistas que julgam e condenam pelos meios de comunicação?

Todos têm o seu papel na sociedade, e devem continuar exercendo-o. Mas cada vez que um indivíduo for podado em nome de uma moral “coletiva”, então a sua morte precederá qualquer diagnóstico médico, sendo uma morte do espírito, da essência da vida. É o “ser não sendo” das sociedades em que tudo se impõe em nome da “harmonia social”.

João Guilherme Estrela não é um herói. Nem é um santo, nem um exemplo a se seguir. É alguém que, por desejar demasiadamente a liberdade, acabou aprisionado por ela (não no sentido de “cárcere”, mas de escravidão, manipulação). Foi burro, portanto, ao não perceber que a liberdade não tem razão de ser sem a responsabilidade e as obrigações do dia-a-dia. Tal qual “o doce não é tão doce sem o amargo”.

Escolher as nossas próprias responsabilidades, e poder viver as nossas vidas, os nossos desejos, e os nossos defeitos, em paz, sem ninguém para nos dizer o que é certo e o que é errado em nosso lugar, isso sim é sinônimo de “viver em liberdade” - mesmo que na maioria das vezes, a coletividade nos prive dessa liberdade.

Infelizmente, para “Johny”, essa lição só foi aprendida tarde demais.

No fundo, ele não é diferente de cada um de nós. No fundo, talvez ele apenas tenha sido mais corajoso ou mais imprudente (alguém já conseguiu delimitar a diferença entre um e outro adjetivo?!) do que a maioria das pessoas.

No fundo, diante das limitações e das frustrações de cada um de nós – que não nos deixamos “aprisionar” pela liberdade, mas que deixamos-nos podar pela coletividade ao redor – esteja guardado o grito solto por João Guilherme Estrela em Veneza: “velocità, eu quero velocità!”.

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