segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Liberdade e Criação

Certa feita, acusado pelo ditador cubano Fidel Castro de servir de porta-voz do imperialismo norte-americano, o artista baiano Caetano Veloso disse que só submetia seu discurso a duas coisas: a liberdade e a criação. Sem saber (ou sabendo muito bem), Caetano traduziu de forma perfeita a alma de um verdadeiro artista: que se fundamenta pela fé na capacidade humana de criar sem se submeter a nada senão à sua própria consciência.

Não são poucos os artistas que, em sua crítica às arbitrariedades sociais resultantes das desigualdades econômicas existentes – personificadas pelo ente fictício do “Mercado” – aceitam abdicar da sua própria capacidade criativa e do ideal de pensamento livre, em nome de uma sociedade mais justa.

Mas o verdadeiro socialismo, aquele que objetiva o humanismo libertador e a igualdade de oportunidades para todos, não pode crer que a abdicação de certos valores – como a liberdade de criação do indivíduo e o seu direito de buscar a sua felicidade – vá resultar em algo diferente senão a mesma deturpação sistemática da sociedade vindoura.

Qualquer sistema que prive o homem da sua ambição inata e da sua liberdade de criação, não se sustenta no longo prazo – cedendo sempre às arbitrariedades dos grupos e indivíduos que manipulam o poder de modo a torná-lo beneficente apenas aos seus interesses privados.

É claro que essa mesma lógica se aplica a uma ditadura do Mercado – ainda que esse não se trate de um ente uno.

Por isso, o equilíbrio de um livre mercado com um estado fomentador do desenvolvimento e da cidadania acaba por neutralizar eventuais abusos gerados, seja pelo poder político, seja pelo poder econômico, caso um desses viesse a reinar de forma absoluta, e a ditar sozinho as nossas regras sociais.

A mim, parece uma grande contradição imaginarmos que um regime político de bases coletivistas – sejam essas bases capitalistas ou socialistas – possa realmente resultar em um bem comum. Porque se o bem é apenas “de todos”, igualmente não é de ninguém. E a felicidade, quando adstrita aos homens sem ambições pessoais, não é propriamente um sentimento interior, mas uma ilusão de massas.

Como eu já disse antes inúmeras vezes, o homem não é como outras espécies animais – formigas, abelhas, etc. – que têm na coletividade a sua razão própria de existência biológica e social. A idéia de “busca pela felicidade”, se libertada dos ditames do Estado e do Mercado, conduz o homem ao apogeu da sua liberdade criativa – aproximando-o, assim, da sua própria natureza intrínseca.

Dessa forma, não há regime político antropologicamente legítimo que não coloque o homem no pedestal dos seus objetivos primordiais, sem jamais afastá-lo (e às suas características inatas), dos meios utilizados para a consecução desses mesmos objetivos.

Digo isso porque, ao contrário de Caetano, a maioria dos artistas, esses seres que nos fazem sonhar com o impossível, visualizar o utópico e acreditar num amanhã melhor, ainda se apegam aos meios mais torpes de ação política, fundados unicamente no discurso ideológico-partidário.

E a mim me parece ainda mais irônico que Marx, o pai das ideologias esquerdistas (em detrimento de outros candidatos à paternidade, como Morus, Rosseau, Saint-Simon e Lassale), defensor da dialética histórica e crítico máximo de Hegels e Proudhon, tenha ele mesmo sido sucedido por teóricos de caracteres essencialmente ideológicos: Lenin, Trotsky, Che Guevara e Mao entre os mais notórios.

E a grande ilusão da esquerda – e dos artistas em particular – em buscar no modelo coletivista do socialismo a libertação do homem do capital, não lhes permite enxergar o aprisionamento das artes – e da liberdade de criação do homem – pelo aparelho burocrático estatal proposto como alternativa.

Que o pensamento de Caetano ressoe por todos aqueles que ainda acreditam no homem. Naqueles indivíduos que não se pretendem menos vigilantes do Mercado e das suas injustiças sociais, mas que também não entregam nas mãos do Estado, nem do anarco-sindicalismo, a prerrogativa legal das suas escolhas de vida.

E viva a liberdade criativa! E viva a criatividade humana – com liberdade.

Victor C. F. de Sousa, Costa Marques – RO, dezembro de 2009.

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