domingo, 28 de março de 2010

Fé e Política: Uma Mistura Perigosa

Já há algum tempo venho me sentindo insatisfeito com a guinada um tanto mundana que a Igreja Católica vem dando, principalmente em sua militância mais jovem. De um lado, o sacerdócio cada vez mais exercido por políticos (inspirados, na maioria das vezes, pela Teologia da Libertação), e cada vez menos por teólogos (no sentido de estudiosos da alma, do espírito). Do outro lado, as agremiações que ajudam nas organizações das missas e na arrecadação de fundos para o custeio paroquial, que se vêem mais preocupadas com questões de ordem prática, do que com as reflexões necessárias sobre a fé e a religião.

Talvez por isso não tenha sido uma surpresa para mim o lema da Campanha da Fraternidade 2010, intitulado “Economia e Vida: você não pode servir a Deus e ao dinheiro”. Numa mescla de preconceito barato contra o empreendedorismo de mercado, e apelo publicitário ao pagamento do dízimo, a CNBB optou pela inversão total do papel da Igreja, pregando ideologias as mais diversas (todas, diga-se, contra o “sistema”), todas buscando o monopólio da “real tradução” do amor pregado por Cristo no Evangelho.

“Que aproveita um homem ganhar o mundo inteiro e arruinar a própria vida?”. Essa frase foi dita por Jesus Cristo, e tem sido usada pela Igreja Católica na Campanha da Fraternidade deste ano, para justificar o lema escolhido. Entretanto, não é preciso resgatar Max Weber e seu clássico “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, para relembrar o óbvio: que ganhar dinheiro não é um mal em si mesmo, e que a frase de Cristo referia-se a toda a forma de corrupção da alma (inclusive a corrupção política).

Como tudo na pregação cristã, as reflexões são feitas sob a égide do espírito, não do corpo. A conduta é uma conduta de alma, de salvação em outro Reino – o dos Céus. Um homem pode ser um crápula nos negócios, e enriquecer às custas do trambique – para usar um exemplo absurdo, a título meramente ilustrativo. Mas o que realmente vai determinar se ele “arruinou a própria vida” terá sido a sua capacidade de construir, ou não, laços afetivos que o tornem um propagador do amor no mundo.

Ser um empresário predador, em um mundo de negócios cada vez mais competitivo e antiético, não torna ninguém um predestinado ao inferno (aqui em seu sentido lato, de “perdição”). Enquanto esse embate se der no campo das abstrações mercadológicas, dos números e índices, das cifras e balancetes, há de se avaliar antes os impactos de cada conduta sobre a vida das pessoas. Muitos foram os empresários que enriqueceram às custas da corrupção, mas de Joseph Kennedy a Assis Chateaubriand, todos tiveram boas e más condutas, que só na balança do espírito podem ser medidas a fim de obtermos (não nós, mas o Juízo Final) um veredicto sobre os seus papéis na Humanidade (se bem ou mal feitores).

Às vezes me parece que a cúpula da CNBB se esquece que o Reino dos Céus é uma conquista do espírito, e que nossos atos aqui, se feitos com amor, sem maldade ou ódio, não devem ser medidos pelos critérios terrenos. Que criar fórmulas morais de condutas, baseadas em ideologias do homem para o homem, é um papel da política. Quando misturamos fé a essa equação, obtemos uma mistura perigosa, capaz de despertar no homem seus piores instintos, pois camuflados pela certeza do dogma, e pela cegueira do monopólio da razão.

O amor pregado por Cristo é maior que qualquer medida moral das condutas humanas. Ele nos convida a nos encontrarmos com nós mesmos. A refletirmos sobre cada ato na nossa passagem pela Terra. A reconhecermos a nossa falibilidade, e usarmos nossos defeitos para sustentarem, de forma errante, nossas melhores qualidades. Se sucumbirmos às fórmulas externas (coletivas) do certo e do errado, corremos o sério risco de nos anestesiarmos moralmente, tomados pelo sentimento de culpa em relação aos nossos defeitos, e pelo desprezo às nossas virtudes.

A fraternidade é uma construção de dentro para fora. A solidariedade nasce de uma confluência de atitudes de amor, oriundas da necessidade premente do homem, desde sempre, de proteger a si e a seus pares para a garantia da sobrevivência e a proliferação da sua espécie. Quando impostas, moral ou fisicamente, de fora para dentro, a fé, a solidariedade, a ética, a fraternidade e o amor, essas virtudes tão caras à espécie humana, se perdem na profilaxia dos conceitos dogmáticos, na repetição de certezas vazias, posto que alheias à nossa própria convicção.

A ética cristã, aquela ética do amor pregado por Cristo, deve, antes de mais nada, surgir de um processo de autoconhecimento e da amadurecimento pessoal do indivíduo. Brota dos pequenos gestos de carinho, que desde pequenos aprendemos a ter em relação aos nossos familiares, e à medida que vamos nos desenvolvendo física, mental e espiritualmente, também em relação a nossos amigos, empregados, vizinhos, colegas, e estranhos na rua. É o “amar ao próximo como a ti mesmo”, porém solidificado pelo regozijo de se reconhecer nesse ato de solidariedade a verdadeira tradução, na prática, da mensagem de Cristo. É o amor que nos liberta da opressão das preocupações terrenas (“cuidado para que vossos corações não fiquem pesados pela devassidão, pela embriaguez, pelas preocupações da vida”), e nos dá o prazer real e a sabedoria divina, alheia à malícia do pecado original.

Como no livro “Fantoches de Deus”, do escritor Morris West, em que se descobre, às margens de um cataclisma mundial, que os portadores da Síndrome de Down, esses seres geralmente alvos de pena pelos “racionalistas”, são os verdadeiros praticantes do amor de Cristo. Eles, que não morderam a maçã do Éden, que desconhecem as teorias políticas hoje usadas como doutrinação pela militância católica, e que obtiveram a verdadeira libertação, atinente à teologia de verdade: aquela relacionada à prática incondicional do amor.

Por isso este texto se dispõe a comprar uma briga muito maior do que este autor pode encarar. Porque quando a rocha de São Pedro ameaça rachar pela leviandade de algumas de suas ovelhas, tão embebidas pela certeza de uma “fórmula ideal” de Humanidade, é preciso que os cristãos que ainda entendem a verdadeira mensagem de Cristo, se prostrem firmes e fortes em sua defesa. Não se pode servir a Deus e ao dinheiro, é verdade. Mas não porque o segundo se oponha ao Primeiro. Mas porque nossa única missão aqui na Terra deve ser de servir ao próximo, pelo amor. Se faremos isso com ou sem dinheiro, vai do livre-arbítrio de cada um.

Muito me preocupa que sacerdotes da Igreja Católica defendam, intimamente, um modelo de sociedade e uma ideologia que anunciaram a morte de Deus (Marx, Lenin, Mao), e que hoje se utilizam desse mesmo Deus para doutrinar católicos, rumo à perda de um dom que é divino: o livre-arbítrio, tão comumente cassado nos regimes socialistas. Recentemente, o articulista de Veja, taxado por muitos como de “extrema direita”, Reinaldo Azevedo, foi a um debate em que o padre, recém-ordenado, nem sequer conhecia a Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios. Mas sabia recitar Karl Marx. Que Igreja é essa? A mesma Igreja que, a despeito das belas campanhas da fraternidade que tivemos nos últimos anos (deficientes físicos, excluídos, menores abandonados), resolveu utilizar esse expediente como elemento de propagação não do amor, mas do preconceito de classes e do cisma ideológico.

Oremos para que os bons católicos, aqueles que ainda acreditam que o amor brota do indivíduo para o mundo, e não o contrário, possam retomar as rédeas da Igreja. Que a hipocrisia que antes acobertava as vilanias dos maus católicos, sob o discurso do conservadorismo puritano, não esteja agora a serviço do fanatismo ideológico, a encobertar oportunistas que se utilizam da Igreja para engrossar fileiras político-partidárias. Há mais em Cristo, e no seu Reino dos Céus, do que em todas as ideologias e certezas da ciência da política. Basta de política e religião. A Deus o que é de Deus, e a César o que é de César.

Victor C. F. de Sousa, março de 2010, Costa Marques – RO.

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