domingo, 18 de julho de 2010

Criacionismo e Liberdades Individuais

Há certos lugares comuns no pensamento contemporâneo que conseguem mesclar o consenso politicamente correto com o simplismo intelectual. Um deles, que se repete em debates políticos, pedagógicos, familiares, etc, diz respeito ao ensino do criacionismo para crianças. Pessoas mais qualificadas e mais engajadas no tema (pró e contra) já se manifestaram sobre ele. Quero analisar sob a ótica de um excelente documentário, “Jesus Camp”, que assisti hoje na INF.

O filme mostra um acampamento religioso para crianças, e como é feita a doutrinação por grupos de extrema direita (que literalmente “adoram” Bush), conduzindo as crianças de até 12 anos a um estado misto de êxtase e neurose coletivas, com momentos de nonsense, como quando a líder do acampamento conclama as crianças a irem à Guerra do Iraque.

Mas, analisando do ponto-de-vista das liberdades individuais, até que ponto pode o Estado intervir na criação que damos aos nossos filhos? Essa pergunta é bem conveniente em uma semana na qual o Congresso Nacional brasileiro aprovou uma lei proibindo palmadas. Se pais defendem o ensino do criacionismo em escolas particulares, porque proibir? É um ponto-de-vista que, embora não comprovado cientificamente, sobrevive nas brechas da teoria darwiniana – o que por si só já garante, num ideal liberal, “o benefício da dúvida”.

Ainda, alguém duvida que em casa muitos pais ensinam a seus filhos coisas muito piores, como a discriminação racial, religiosa e sócio-econômica?

O Estado não deve intervir. Que os pais profiram aos seus filhos os ensinamentos mais errados que desejem. O problema está quando essa doutrinação se reflete em assuntos de Estado – como a educação em escolas públicas. O único e melhor antídoto para a má educação caseira é uma escola ávida e vívida, cheia de desafios intelectuais que ajudem as crianças a encontrar suas respectivas verdades pessoais – para que depois, voluntariamente, possam aderir a verdades coletivas.

Ao invés de ensinar o conteúdo mastigado e dirigido das disciplinas humanísticas (sociologia, filosofia, ensino religioso, etc.), a escola deve passar apenas as leituras dos livros, religiosos, sociológicos, filosóficos, econômicos, políticos, etc. De todos os lados. E que as crianças e jovens se identifiquem com a leitura que mais lhes aprazir. Pedro vai preferir Marx, mas gostando das poesias de Drummond. Joana, a Bíblia e os contos de Machado de Asis. Carlinhos vai gostar de Oscar Wilde e Thoreau. Sara, o Torah dos pais com pitadas do regionalismo de Jorge Amado.

E cada criança vai poder crescer de forma própria. Sem a doutrinação religiosa dos acampamentos de extrema direita. Sem a doutrinação marxista dos professores de ensino médio. Sem a alienação cotidiana do futebol. Ou com tudo isso, ao mesmo tempo ou alternativamente. Mas, ao final, a criança, crescida e tornada indivíduo, terá podido fazer as suas próprias escolhas – e é isso o que realmente importa.

Victor Castro F. de Sousa, Porto Velho-RO, julho de 2010.

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