domingo, 12 de dezembro de 2010

Sempre Haverá Direita e Esquerda

A realidade política brasileira contemporânea e as inovações trazidas pelo pós-modernismo para as ciências humanas nos fazem pensar que não existe mais direita e esquerda, ou que o debate ideológico teria sido substituído por um pragmatismo “radical de centro”. Hoje, as disputas políticas se caracterizam cada vez mais por uma construção coletiva da verdade dos fatos, importando mais a quantos conseguimos convencer da nossa verdade, em detrimento, por irônico que seja, da sua própria verossimilhança.

Entretanto, os espectros ideológicos nunca estiveram mais vivos do que na pós-modernidade, quando vivemos em uma era na qual o espírito do tempo se reflete pela disputa retórica (com números, estatísticas, imagens, símbolos, etc), que estabelece paradigmas de valores (“topoi”) que podem ser tudo, menos pragmáticos.

Na Europa, a esquerda tomou o poder com um discurso de “terceira via”, que teria enterrado os fantasmas do marxismo revolucionário da Guerra Fria, e adotado como bandeira o multiculturalismo das minorias étnicas, religiosas, sexuais, etc. Como resposta, a direita conservadora arraigou-se no discurso das tradições culturais seculares (o que, de certa forma, ressuscita em parte o discurso da supremacia ariana ou do segregacionismo étnico-cultural), e a esquerda marxista busca reorganizar-se nesse novo cenário, trazendo de volta ao embate político a questão da economia e da luta de classes.

O tal consenso humanista que parecia se desenhar na Europa pós-Guerra Fria ruiu face as demandas políticas e sociais ainda não-atendidas, situação essa que tende a se agravar diante de uma realidade na qual os outrora países ricos se vêem excessivamente endividados, por um modelo estatal que buscava ter o melhor dos dois mundos: a proteção social do socialismo e as liberdades individuais do capitalismo. A utopia da terceira via, ou da esquerda social-democrata, restou abalada pela realidade histórica, fazendo ressurgir as direitas e esquerdas mais radicais, ambas hoje em plena ascensão no número de cadeiras nos parlamentos europeus.

Nos EUA, esse renascimento dos espectros mais radicais da política ideológica surgiu um pouco mais cedo, com a eleição e reeleição de George W. Bush, que radicalizou a postura institucional do staff presidencial (nunca tão à direita como naqueles oito anos), e rememorando no campo das oposições os movimentos de esquerda dos anos 60 e 70, desta vez menos belicosos, mas mais perigosos e abrangentes: munidos de uma arma mais letal do ponto-de-vista retórico, a mídia eletrônica internacional (e a rede mundial de computadores).

No Brasil, o Governo Lula se caracterizou como um governo ambíguo: elegeu áreas de prevalência da metodologia marxista, como nos campos de articulação política interno e externo, deixando as políticas públicas a cargo de alas menos radicais da esquerda, algumas delas claramente alinhadas com uma centro-direita conservadora, à qual o próprio PT havia se oposto em um passado recente. Tudo isso se torna ainda mais curioso, quando analisamos que o PSDB, tido como centro-direita, foi o responsável pelo fim do imposto inflacionário (aquele que tirava da mão-de-obra assalariada para dar para governantes e empresários), e pela ampliação da carga tributária de menos de 30% no fim do Governo Itamar para aproximadamente 38% no fim do Governo Fernando Henrique Cardoso.

Por mais que esquerda e direita pareçam se embaralhar no jogo das disputas eleitorais, com posicionamentos cada vez mais ambíguos e volúveis, sempre haverá essa divisão ideológica. Na verdade, ser de direita ou de esquerda não é uma opção de classe, como querem os marxistas (ironicamente, quase todos advindos de uma classe média pequeno-burguesa). Tampouco reflete uma origem geográfica, como querem os bolivarianos, que crêem ser obrigação histórica dos latino-americanos aderirem ao chamado “socialismo moreno” (um certo maoísmo, sem olhos puxados, conivente com o catolicismo, liberal nos costumes sexuais, e de cabelos crespos).

Fato é que ser de direita ou de esquerda é uma opção pessoal. Reflete uma forma individual de ver o mundo, a partir das nossas influências familiares, culturais, acadêmicas, mas também, e principalmente, a partir de uma inspiração personalíssima, que não encontra explicação nas ciências humanas (alguns poucos estudos existem apenas na neurociência empírica, do campo das exatas), e que faz as pessoas se identificarem mais ou menos com determinados autores.

Quem é de esquerda se identifica com os escritos de Ferdinand Lassale, Karl Marx, Bertolt Brecht, Antonio Gramsci, Vladimir Lenin, Leon Trotsky, Hannah Arendt e Mao Tsè Tung. Quem é de direita, por sua vez, se identifica com Adam Smith, Voltaire, Montesquieu, Thomas Jefferson, Immanuel Kant, Henry-David Thoreau, George Orwell e Milton Friedman. E há aqueles autores que ficam no meio termo, recebendo releituras e interpretações variáveis e oportunas de cada lado deste embate: Jean-Jacques Rosseau, Friedrich Nietzche, Oscar Wilde, Max Webber e Norberto Bobbio, entre outros. No fim, os clássicos são sempre bastante esclarecedores: a partir deles podemos entender com qual corrente nos identificamos mais ou menos.

Por isso, ser direita ou esquerda não pode ser fruto de uma conveniência do tempo, de uma simpatia “ad personam” por esse ou aquele político. Devemos ler os clássicos, dar a eles nossas próprias interpretações e visões pessoais e, a partir deles, ler a realidade ao nosso redor – tentando apreender esta realidade dentro de uma visão de mundo mais identificada com os autores de um determinado “lado” do embate ideológico.

Sempre haverá direita e esquerda. Em alguma medida, concordo com uma afirmação recente do escritor português José Saramago: “a ideologia é algo hormonal”. Basta descobrirmos para que lado nossos hormônios apontam e, com o perdão da piada politicamente incorreta, “sairmos do armário”.

Victor Castro F. de Sousa, Porto Velho-RO, dezembro de 2010.

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