domingo, 23 de janeiro de 2011

Porque os políticos mentem?

“Todos sabem que você vai aumentar os impostos, os dois lados sabem que os impostos têm de subir, mas ambos os lados estão torcendo para que a outra pessoa o admita, porque aí muitos idiotas vão deixar de votar no outro candidato só porque ele disse a verdade, mesmo que os impostos realmente tenham de subir! (...) Mas os políticos, infelizmente, estão em um estado em que têm medo de dizer qualquer coisa que as pessoas não queiram ouvir. E eles têm razão em ter medo, porque se o fizerem, as pessoas não votarão neles”.

Estas foram as palavras de Daniel Dennett (Revista Filosofia, número 54, ano V), filósofo e estudioso do funcionamento da mente humana, para explicar porque os políticos, em geral, não são totalmente sinceros aos seus eleitores sobre as necessidades e providências a serem adotadas para uma melhor gestão da máquina pública. O personalismo na representação eleitoral, pelo qual o voto é proferido pelo eleitor em razão da pessoa do candidato (seu carisma, suas convicções morais e não éticas, seu suposto histórico, etc) talvez seja o maior empecilho a um processo de maior diálogo e transparência entre representantes e representados.

A vinculação pessoal do voto torna a representatividade eleitoral (pilar fundamental da democracia constitucional) refém de uma série de atividades semióticas paralelas, que vão aos poucos penetrando no conjunto de valores do eleitor, para persuadi-lo (e não convencê-lo!) de uma determinada verdade política – não muito diferente de uma propaganda de xampu.

É claro que este mesmo problema poderia existir em um sistema parlamentarista, no qual o eleitor votasse em lista fechada: e o plebiscito de 1993 no Brasil demonstra claramente isto. Entretanto, o jogo seria mais limpo: ao invés de termos a manipulação axiológica somada ao conjunto de carismas pessoais de cada “staff”, teríamos apenas a primeira como elemento de distorção da “realidade fática” (convenhamos, um processo inevitável em se tratando de política, ainda que seja necessário reduzi-lo).

Por isso tudo é que defendo um sistema no qual o eleitor vote no partido político, e as representações legislativas e executivas decorram da configuração numérica de cadeiras em cada casa (e em cada Poder), como ocorre, respectivamente, nos Conselhos de Acionistas e nas Diretorias Executivas das empresas constituídas como sociedades anônimas. Fato é que o mercado descobriu – e esta contribuição deve ser abarcada pela gestão pública – um modelo de elegibilidade e representatividade democrática que reproduz os condomínios de diferentes interesses (que são as coletividades), com mínima distorção possível pelo elemento “ad personam”, na hora do voto.

Esta é a única reforma política de que precisamos: fazer com que os políticos parem de mentir. E, ao mesmo tempo, resolvemos com esta medida outros problemas periféricos (custo das campanhas, reeleição ou não reeleição, fidelidade partidária, etc). O problema é que aquilo que parece óbvio, quando repetido várias vezes, dá uma séria impressão de que já foi testado e reprovado, ou de que se trata de mera reflexão utópica. Nem um nem outro.

Um sistema que alije os coronéis (rurais e urbanos, sulistas e nortistas) de seus poderes sobre os respectivos “currais eleitorais”, e transforme a disputa político-eleitoral em uma disputa de poucos protagonistas (somente os partidos políticos, através das suas legendas), tende a ser mais ágil e melhor protegido contra as naturais distorções privatistas que sempre acometem o ser humano no campo das tentações morais.

É claro que reengenharias jurídicas e de gestão não serão suficientes para libertar a política do mau-caratismo, da mesma forma como o homem sempre será passível da corrupção e da violência dentro dele. Mas um sistema em que, ao invés de se comprar um só, ou no qual um só comande as instituições, se tenha de subornar um grupo inteiro, ou todos os grupos que protagonizam o poder, a corrupção se torna cara e pouco atraente.

É pedir demais que ao menos tentemos?

Victor Castro Fernandes de Sousa, janeiro de 2011, Porto Velho – RO.

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