sábado, 26 de fevereiro de 2011

O Inútil Teatro de Si Mesma da Democracia

Recentemente, tive acesso ao site WWW.ted.com, ou “Tecnologia, Entretenimento e Design – Idéias que Merecem ser Espalhadas”. Há quase 40 anos, esta iniciativa de alguns filantropos norte-americanos, busca reunir as mais brilhantes e influentes mentes pensantes do mundo, em palestras sobre novas formas de enxergar o ontem, transformar o hoje, e construir o amanhã. A virtualização rumo à rede mundial de computadores ocorreu há alguns anos, e graças a figuras notórias como Bill Clinton, Al Gore, Bill Gates e outros, tem angariado cada vez mais atenção e se tornado mais influente e eficaz em seu propósito de divulgação de boas idéias.

Bastam alguns cliques ao longo do site, para perceber que ali estão presentes as características fundamentais da hegemonia humana sobre a natureza: a curiosidade, a criatividade, e o inconformismo.

Mas o motivo que me levou a escrever este texto é para assinalar que, lendo e ouvindo o que está posto ali, sob tão diferentes pontos-de-vista, não posso chegar a outra conclusão senão a de que, sim, o ser humano possui um rol de desejos e necessidades que são comuns a todos, independentemente de origem, formação, etnia, religião, crença ou cultura. A semântica que envolve palavras e expressões como “liberdade”, “justiça”, “bem-estar”, “qualidade de vida”, “democracia”, etc, pode mudar a cada indivíduo, mas o desejo de atingir essas metas ou gozar dessas garantias se reflete como um espelho da própria idéia do homem enquanto um ser social.

De fato, se “o inferno são os outros”, como quis sugerir Sartre, então o conflito de interesses surge a partir do momento em que o homem procura atingir os seus objetivos – sociais, econômicos, amorosos, culturais, etc – e passa a enxergar no outro uma ameaça às suas convicções morais e pessoais.

A experiência do T. E. D. nos mostra que, a única forma de nos libertar desse medo contínuo que nos aprisiona dentro de uma rede de egocentrismos, recheados pelo desejo de auto-preservação, é nos comunicando com o outro, de modo que as nossas idéias adentrem o debate não para encerrá-lo de forma vitoriosa, mas para romper com a infindável cultura dos conflitos.

Por “cultura dos conflitos”, entendamos a forma como buscamos sempre fazer prevalecer o nosso ponto-de-vista, de forma implícita ou explícita, não mais com o objetivo de atingir as nossas metas pessoais, ou os fins que almejávamos no início – mas, principalmente e infelizmente, para impor meios segundos os quais, em tese, atingiríamos aqueles fins. É como se pudéssemos ir até a outra margem do rio pela segurança de uma ponte firme, ou pelo titubeio de uma canoa velha, a remo. Mas, sendo a canoa nossa, e tendo sido a ponte construída pelo outro, ainda que ambas as soluções cheguem ao mesmo objetivo, iremos brigar e tentar impor o nosso estilo – a “canoa”.

E então chegamos ao ponto da política. É inconcebível que as democracias, ou mesmo as ditaduras e todos os regimes de poder, fundamentem seus procedimentos burocráticos sob a égide da disputa pelos mecanismos de transformação social, como se estes fossem territórios a serem conquistados, e não espaços a serem divididos – o que denota um certo primitivismo animal que sempre estará presente na natureza humana.

O debate político foca sempre na conquista de cadeiras no parlamento, de ministérios na administração central, de mais ou menos autonomia federativa, de punições mais ou menos severas a um determinado grupo de indivíduos, etc. Seja a norma burocrática (que visa organizar o Estado) ou social (que visa resolver conflitos intersubjetivos), em ambos os casos ela estará sempre a serviço de um determinado grupo que, valendo-se da força, da influência ou de um quantitativo moral e ideológico majoritário na sociedade, impõe seus valores para moldar os mecanismos de transformação social.

Ao invés de conciliar os interesses distintos, em uma única e eficiente rede de serviços coletivos, sem marginalizar nenhum grupo, e tendo como objetivo preservar as liberdades e os direitos fundamentais do homem (e a Declaração Universal de Direitos do Homem já traz este rol bem definido), os políticos preferem o confronto, a erística, a idéia nefasta de “vencer o debate”. Então vamos sendo arrastados, ato após ato, para um teatro sem fim da democracia, que tenta fazer crer ao cidadão comum que há alguma utilidade em se fomentar conflitos, ao invés de resolvê-los.

Não é de se estranhar o fato de que ditaduras conseguem sobreviver tanto tempo sem a resistência da maioria da população, ou sem que sucumbam internamente em um emaranhado de disputas burocráticas: a democracia já sofre deste mesmo mal, e entre uma e outra, ao final, o cidadão leigo fica com aquela que, objetivamente, lhe trouxer maiores benefícios sócio-econômicos. E o homem, que deveria ser curioso, criativo e inconformado pela sua própria natureza, molda-se à conveniência do tempo e do espaço, como um escravo do acaso.

Permitamo-nos transformar a democracia não em um palco da retórica, não em um instrumento legitimado de imposição de morais privadas em caráter difuso, não como um fim em si mesmo ou um debate sem fim rumo ao ocaso. Permitamo-nos compartilhar de boas idéias, mas nunca focando no “como”, mas principalmente, no “porque”.

Victor Castro Fernandes de Sousa, fevereiro de 2011, Porto Velho – RO.

p. s.: como norte teórico preliminar, segue o link http://artousosvic.blogspot.com/2010/08/mediacao-pacifica-de-conflitos-enquanto.html

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