domingo, 23 de outubro de 2011

Porque a Esquerda defende a Censura

O debate acerca da possibilidade de análise dos diversos conteúdos de reportagens jornalísticas, peças publicitárias, obras literárias, produções audiovisuais, e demais manifestações na área da comunicação social, por um ente estatal ou paraestatal (privado, mas com prerrogativas estabelecidas por lei), visando o chamado “controle social da mídia”, esbarra na necessidade de uma prévia definição do que podemos chamar de “censura”, justamente para que ela possa ser prontamente evitada.

Ocorre que, uma vez que este debate tem sido conduzido pelas esquerdas de orientação marxista ou pós-moderna (que transferiram ou ampliaram a pauta da luta de classes do proletariado para os grupos ditos “socialmente oprimidos”), estas partem do pressuposto - a meu ver, equivocado – de que a censura é uma conceito relativo. Defendem que, se já há um controle de conteúdo atualmente exercido pelos donos dos meios de comunicação, tal fato legitimaria a transferência desse controle de conteúdo para uma instituição de caráter público.

As recentes polêmicas envolvendo o comediante Rafinha Bastos e a modelo Gisele Bündchen reacenderam esse debate, mais uma vez colocando as esquerdas – e sua concepção de controle de conteúdo como algo “socialmente inevitável”, por uma ou outra via – na linha de frente dos argumentos a favor do chamado “controle social da mídia”. Uma curiosidade quanto à linha argumentativa utilizada por esses grupos políticos é que há uma preocupação excessiva em negar que haverá análise de conteúdo, mas os exemplos por eles utilizados para demonstrar a necessidade de alguma forma de controle estão sempre relacionados ao conteúdo, dito de “baixaria”: banheira do Gugu, “barracos” do Ratinho, etc.

Dada a clara contradição (má fé?) entre teoria e prática da esquerda pró-censura, prefiro me valer da máxima de Margareth Tatcher, segundo a qual “em política você pode estar completamente equivocado, sem ser um idiota ou um canalha”. Deve haver algo que faça os esquerdistas agirem assim – e, de fato, há.

Fato é que essas esquerdas, quando da reabertura democrática (85-88), passaram em suas redações jornalísticas o que o populacho chama de “o pão que o diabo amassou”. Intencionadas – como boas marxistas que são, por diversas correntes – em revestirem suas reportagens jornalísticas e produções audiovisuais com uma abordagem de luta de classes, viram seus planos serem podados pelos chefes de redação, que não queriam transformar seus veículos de comunicação em panfletos político-partidários. Tal situação gerou uma revolta nos jornalistas de esquerda, que então concluíram: “se há controle de conteúdo pelos donos e gerentes de jornais e veículos de comunicação, então pode e deve haver controle de conteúdo pelo Estado”. Ao chegarem ao poder, com a eleição de Lula em 2002, resolveram colocar essa máxima em prática.

O problema é que, enquanto o modelo de controle de conteúdo pelo mercado permite a um jornalista como Mino Carta romper com a Veja e fundar a Carta Capital, o modelo de controle estatal de conteúdo não permite alternativas de comunicação, uma vez que o Estado possui, por princípio, o monopólio das suas prerrogativas de comando e controle. Não é juridicamente honesto igualar um cenário no qual jornais, revistas e concessionárias de rádio e TV são controlados pelos seus respectivos acionistas, com um cenário no qual há uma única e total forma de controle: as autoridades emanadas do poder burocrático estatal. Poder este, frise-se, que não está incólume à influência do capital, apenas transferindo o debate de definição das linhas editoriais dos conselhos administrativos dessas empresas para os bastidores, sombras e corredores dos palácios governamentais.

Qualquer controle de conteúdo pela autoridade estatal resultará em censura, bem ou mal intencionada. E o nosso papel é não aderirmos à tentação do controle – papel esse que, ressalve-se, tem sido muito mal cumprido, no país que proíbe a sibutramina e o bronzeamento artificial. Chegará o tempo, se nesta rota continuarmos, em que não haverá mais livre arbítrio, e em que seremos todos apenas “another brick in the wall”. Quão doce e traiçoeira pode ser a democracia, quando se trata de solapar as nossas liberdades... Eu avisei!

Victor Castro Fernandes de Sousa, Brasília-DF, 23 de outubro de 2011.

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. " E o nosso papel é não aderirmos à tentação do controle – papel esse que, ressalve-se, tem sido muito mal cumprido, no país que proíbe a sibutramina e o bronzeamento artificial. Chegará o tempo, se nesta rota continuarmos, em que não haverá mais livre arbítrio, e em que seremos todos apenas “another brick in the wall”."

    Fato. Infelizmente é nesse oba oba permitido sob pretextos democráticos que os mal intencionados assassinam a democracia. O Estado está invadindo todas as esferas da vida privada, mas não vejo ninguém ciente, ou sequer pensando, na superioridade fática do Estado em relação a indivíduo e sua liberdade. E em prol de uma pseudo causa maior, vivemos sob julgo de cartilha: pode isso, não pode aquilo, isso de jeito nenhum, não é bom para você...

    País sem auto estima dá nisso. Cada povo tem o governo que merece.

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  3. o que se entende por liberdade de imprensa? empresas que podem fazer o que bem entenderem pra servir os seus inteeses e de grupos politicos aos quais estaõ alinhados? isso é liberdade de imprensa? Acredito que é preciso regulação sim, naõ sei se da forma que pretendida pelo governo, mas alguma forma de imprimir o minimo de decencia é necessaria para acalmar a sanha dessa gente. todas as atividades empresariais tem alguma forma de ser assitida quando do cometimento de erros e com os empresarios da comunicação e informação não poderia ser diferente. nem o direito a vida é absoluto, naõ podemos, em nome desse pseudo democratico postulado de liberdade de imprensa construir a ditadura desses empresarios, essa gente tem de ter o minimo de lucidez e decencia no exercio da atividade economica a que se destinaram fazer. Otimo texto

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  4. "Intencionadas – como boas marxistas que são, por diversas correntes – em revestirem suas reportagens jornalísticas e produções audiovisuais com uma abordagem de luta de classes, viram seus planos serem podados pelos chefes de redação, que não queriam transformar seus veículos de comunicação em panfletos político-partidários".

    Acredito, se vc me premite, que vc deveria ter acrescentado que eles não queriam que os veiculos de comunicação se transformassem em planfletos politico partidarios de esquerda, pois veja a revista Veja: é um panfleto politico partidario do PSDB e DEM!!! Acho que seu texto ficaria mais honesto assim.
    E pra ser sincera, naõ sei se nesta questao toda existe verdade objetiva possivel, acredito que ambos discursos serão validos e legitimos a depender de que lado se está jogando! Esse é o perigo: nao assumirmos nossa parcialidade e querermos imprimir ao nosso discurso veracidade e certeza, quando na verdade nao passa de uma construção afinada com os nossos interesses ou afinidades ideologicas. Abração

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