domingo, 8 de janeiro de 2012

A China e a Crise na Zona do Euro

Muito se fala a respeito do papel da China na crise de iliquidez dos países da Zona do Euro, e essas “acusações” não são necessariamente oriundas apenas de uma militância pró-direitos humanos, ou de uma antipatia ao modelo de Estado chinês. Contudo, receio que o seu foco esteja ligeiramente errado. Algumas correções se fazem necessárias. Vamos aos fatos.

O Euro surgiu como uma medida acessória para a integração comercial, cultural e territorial da então iminente União Europeia. Seu intuito não era, à época, promover a liquidez da dívida pública dos países integrantes da Zona. O efeito natural de permitir um maior endividamento desses países, em razão de um maior lastro real da moeda – uma economia mais pujante e sólida se unida, do que diversas economias apartadas, ainda que proporcionalmente com mais liquidez -, foi um bônus que serviu à Europa nos últimos 15 anos.

É como se um país de riqueza 200 bilhões tivesse um superávit (um dos instrumentos, não o único, para a rolagem da dívida pública) de 3,5%, e fosse preterido por investidores financeiros em prol de um país de riqueza de 15 trilhões, de déficit fiscal nominal. Ou: quem pode mais, se endivida mais.

Essa lógica do mercado financeiro fazia sentido até há alguns poucos anos, com os EUA abalados pelas crises da Ciber-Bolha (1999) e do 11/09 (2001), seguidas do enorme déficit fiscal pós-Guerra do Iraque (2004-2011). Até então, a Zona do Euro era vista como um porto seguro para investimentos financeiros de médio e longo prazos – uma vez que a irresponsabilidade fiscal de países como Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda era maquilada pelos enormes aportes financeiros de França, Alemanha e Itália.

O lastro real do Euro era garantido, assim, pela força da sua economia e pela característica dos investimentos que eram feitos na UE: investimentos de longo prazo. China, Brasil e Índia, ou emergentes em geral, eram vistos como oportunidades para investimentos de curto prazo, com retorno imediato.

Mas a Crise dos Subprimes (2008/2009) alterou esse cenário – e é aqui que entra a China. Do início da Guerra do Iraque até o estouro desta última crise, a China deixou de ser vista como uma praça de investimentos de curto prazo, e passou mesmo a agir como protagonista de investimentos, adquirindo, através de suas estatais, ações e títulos de países e empresas estrangeiros. A China entrou no jogo, e a desvalorização planejada e induzida de sua moeda ajudou nesse processo.

O Yuan desvalorizado provê à China uma “reserva de crescimento”: sempre que a China estiver na iminência de uma recessão, basta valorizar levemente a sua moeda, e haverá crescimento real do país. O Tesouro chinês trabalha com uma taxa de câmbio desvalorizada, com o intuito de tornar suas exportações mais competitivas. Contudo, dado o tamanho da economia chinesa, todos os investidores internacionais sabem que a China pode valorizar seu câmbio sempre que quiser – o que torna seus títulos extremamente atrativos.

A desvalorização da sua moeda serve como uma nota promissória em branco, que pode ser cobrada a qualquer tempo da comunidade internacional: “mantive minha moeda abaixo do seu valor de mercado, agora é hora de exigir o preço justo”.

Óbvio que tal situação só é possível graças à ditadura do partido único. Em nenhuma democracia liberal do Ocidente a classe trabalhadora aceitaria estar por tanto tempo (uma vez que não se trata de uma desvalorização momentânea) com a sua renda e seu poder de compra comprometidos. Os chineses mantêm sua moeda desvalorizada na base do fuzil, da foice e do martelo – e alguns poucos investidores ainda temem que um dia a emergente classe média urbana daquele país possa se insurgir contra tal situação.

Não é só a exportação que fica mais barata: o custo da mão de obra também, além de quase inviabilizar a evasão de divisas – com uma moeda fraca, somente o Governo pode fazer investimentos externos, quase sempre feitos com moedas estrangeiras, dispostas nas reservas internacionais do país.

Assim, a retomada da preocupação fiscal nos EUA pós-Obama (e que já era de se esperar, mesmo com uma eventual vitória de McCain), aliada à nova situação da China perante o mercado financeiro, desnudaram as irresponsabilidades fiscais da Zona do Euro dos últimos 15 anos, fazendo surgir questionamentos quanto à liquidez daquela moeda: o tesouro da UE pode realmente pagar o preço que hoje se cobra pelo Euro?

França e Alemanha já disseram que não pagarão essa conta sozinhos. Os EUA não tem dinheiro nem interesse para ajudar a Zona neste momento, e o jogo da China é o do “quanto pior melhor”: quebrar o Ocidente com sua política cambial, e comprar os escombros (como o Japão fez nos anos 80, só que agora mais violentamente).

Mas então, qual seria a solução?

Um dos caminhos seria forçar a China a valorizar a sua moeda, regulamentando os subsídios internos dos países (as taxas alfandegárias). Se países ricos e em desenvolvimento do Ocidente conveniassem, na OMC, que a sobretaxa de produtos importados estaria permitida até o teto do custo mínimo de encargos diretos e indiretos mais mão de obra do país importador, tal medida forçaria o respectivo país exportador a incorporar esses mesmos custos em sua produção interna, pré-exportação.

Explico: se o custo de um produto na China é de 5 dólares/kg, fruto da desvalorização da sua moeda e dos baixos salários aos trabalhadores, e esse mesmo produto no Brasil é produzido a 7 dólares/kg, fruto dos impostos sobre a produção, dos encargos trabalhistas e das medidas ambientais legalmente exigidas, o Brasil poderia sobretaxar o produto chinês em até 2 dólares/kg, com o aval da OMC, para equilibrar a demanda e custear os direitos humanos embutidos, que resultam em uma produção mais cara (meio ambiente equilibrado, direitos trabalhistas, etc).

Isso forçaria a China a: ou adotar medidas trabalhistas e ambientais que resultassem em ganhos sociais em seu país, até o teto dos 2 dólares, ou valorizar o Yuan, aumentando o custo interno de produção em relação ao dólar (também na proporção de 2 sobre 5, no exemplo dado).

Aparentemente, é a solução ideal, não? Não é tão simples.

Essa medida seria potencialmente danosa para os EUA em relação à União Europeia, ao induzir os dois tesouros a uma competição direta por valorização de ambas as moedas – Dólar e Euro. Com a instituição dessa “taxa” internacional para equiparação de câmbios (no que concerne à importação), se inverteria a lógica: a moeda mais valorizada geraria ganhos sociais internos mais concretos (pois se aumentaria o poder de compra da economia em relação ao resto do mundo), sem perder competitividade nas exportações (uma vez que o país comprador poderia sobretaxar o vendedor até igualá-lo ao custo de produção nacional da mesma mercadoria).

Somente estudos mais aprofundados poderão nos esclarecer se essa medida seria mais ou menos benéfica para o Brasil – e, de fato, sem o apoio dos EUA, ela é quase uma utopia inexequível. Mas o que se defende aqui é a lógica, e a criação de um antídoto para o jogo sujo cambial chinês. Fica a reflexão.

Victor Castro Fernandes de Sousa, 03 de janeiro de 2012, Brasília-DF.

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