domingo, 24 de março de 2013

As Causas do Niilismo das Gerações 80/90: Somos os Culpados?

Uma das críticas mais habituais feitas pelos mais velhos em relação aos jovens nascidos nos anos 80 e 90, é a de que nós seríamos niilistas, sem engajamento político, preocupados apenas com a nossa própria satisfação, em uma espiral de hedonismo constante. As notícias que vemos nos meios de comunicação, de jovens de 15 a 30 anos sempre participando de festas regadas a muito álcool (especialmente em ambientes universitários), dão a falsa impressão de que: a) não era assim que se comportavam as gerações anteriores à nossa, aquelas nascidas nos anos 70, 60, 50, etc; b) não há qualquer atividade inteligente existente no cotidiano destas duas gerações mais novas.

Ambas as conclusões são falsas. Primeiro, porque se analisarmos sob uma ótica de proporcionalidade, há hoje os mesmos percentuais de jovens que não bebiam, nem fumavam, e que desde cedo já se dedicavam firmemente aos estudos ou ao trabalho, que havia nas gerações anteriores. A única diferença é que somos mais numerosos agora – o Brasil não tem mais “90 milhões em ação”, mas 200 milhões. Segundo, que a expansão dos meios de comunicação faz chegar mais rápido a informação de que houve um grupo de jovens envolvido em um acidente por dirigirem embriagados, voltando de uma festa, ou mesmo a notícia de um trote violento em uma universidade, quando tudo isso acontecia na época de nossos pais – só os meus, por exemplo, têm 2 amigos que ficaram paralíticos por estripulias cometidas sob efeito da embriaguez etílica, e tantos outros que se viciaram em ácido e maconha (na época em que a maconha era da “pura”, que viciava mesmo, não esse café diluído com areia que é hoje).

Mas em um ponto os críticos das gerações 80/90 estão corretos: somos niilistas. Perdemos a fé nas estruturas tradicionais de poder e de representatividade política. E será que estamos errados por isso? Será que sequer somos responsáveis por isso?

Nossos avós apoiaram uma ditadura militar que expulsou do Brasil grandes brasileiros que poderiam ter ajudado a construir um país melhor nos anos 60 e 70, dentre eles Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira, Juscelino Kubitschek, Oscar Niemeyer, ou jogou no ostracismo brasileiros como Roberto Campos, Miguel Reale, etc. A geração dos nascidos nos anos 10, 20 e 30 apoiaram um regime castrador de talentos individuais, que nos legou uma herança de segregacionismo profundo de classes (lembram quando surgiram as favelas urbanas?), exclusão social, inflação, endividamento público, tudo isso para construir meia dúzia de estradas e usinas que enriqueceram muitos civis corruptos (com os quais os militares eram coniventes).

Nossos pais não ficam atrás. Nascidos nos anos 40, 50, 60, eles viram surgir a hipertrofia galopante das nossas cidades, com suas favelas e sua exclusão social, e ficaram calados. Nos confinaram em playgrounds, colégios particulares, condomínios gradeados, nos privaram da infância ao ar livre das ruas à qual eles tiveram direito – e nós não! Trataram com normalidade o anormal, e agora reclamam porque somos individualistas. Por que? Porque aprendemos através deles que é melhor ter o nosso carro particular e morar em um condomínio fechado, do que lutar por um metrô ou uma polícia de qualidade.

A nossa geração cresceu aprendendo que, se saísse dos muros do colégio, teria 10, 15 “pivetes” (como chamamos os trombadinhas de rua na Bahia) nos esperando lá fora, para roubar os tênis de marca norte-americana e os relógios da moda que nossos pais compravam, enquanto a inflação por eles tolerada fazia com que os operários e empregadas domésticas pais desses pivetes não tivessem sequer o dinheiro do pão ou do leite (cujos preços subiam a cada semana).

A nossa geração, esta nascida nos anos 80 e 90, cresceu encantada pelo canto da sereia dos partidos marxistas de esquerda, até descobrir que a tal “revolução social” era apenas a cenoura do burro, com a qual o PT e seus aliados iludiam os jovens incautos, para depois se imiscuírem – eles, os revolucionários de outrora -, em “tenebrosas transações” nos círculos de poder, com a mesma direita fisiológica e apodrecida de sempre.

Como poderíamos não ser niilistas? Como poderíamos não ser céticos? Como poderíamos não ser individualistas?

Vocês, das gerações 10, 20, 30, 40, 50 e 60, nos legaram esta herança moral! Vocês nos treinaram para sermos assim, isolados em nossos mundinhos elitistas! Agora vêm com o seu conservadorismo de boutique querer que abramos mão da única coisa boa que a nossa geração tem – a desconfiança quanto às estruturas tradicionais e corruptas de poder, e nosso apego indelével às nossas liberdades individuais – para confiarmos mais uma vez a vocês a solução para os problemas que vocês mesmos criaram para nós?

Não! Dizemos não!

Não precisamos abrir mão das nossas liberdades individuais para que possamos construir soluções coletivas de bem-estar! É possível, com paciência, criatividade, diálogo e trabalho duro, sem leniência com a incompetência habitual e vigente dos agentes estatais, construirmos soluções de melhoria para o convívio social, sem abrirmos mão de uma gota sequer do nosso livre arbítrio.

Vocês irão – assim espero, pois falo por mim e por meia dúzia de amigos mais próximos – se surpreender com o que a nossa geração, estes meninos amarelos criados com “danoninho” e leite em pó, nos playgrounds onde vocês nos cercaram e engordaram, iremos fazer. Nosso niilismo vai nos deixar mais esperançosos de que novas soluções são possíveis, alternativas à mesmice que vocês pretendem nos empurrar goelas abaixo. Nosso individualismo vai redefinir os limites de atuação do Estado, para que nenhuma liberdade seja mitigada sem uma justificativa muito bem embasada, e sem uma prévia melhoria na qualidade dos serviços públicos prestados (nada de “voto de confiança”, seus rufiões da liberdade alheia!). Nosso ceticismo vai desconstruir esse discurso demagogo da política atual, e introduzir nas ciências humanas o cartesianismo necessário para distinguir falácias de projetos políticos reais.

Ou não.

Ou pode ser que o playground, os muros da escola particular e as grades do condomínio tenham estragado de vez a minha geração. Mas que fique bem claro, desde já, e por toda a História: não fomos os culpados. Obrigado por nada, gerações anteriores!

Victor C. F. de Sousa, março de 2013, Salvador/BA.

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