quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Dissecando o Patriotismo...

Em primeiro lugar, para que fique claro ao leitor, eu não sou o cara mais empolgado do mundo com o patriotismo. Morreria mil vezes pela minha família e pelos meus amigos, faria os sacrifícios e enfrentaria os obstáculos que se apresentassem, pelo bem deles. Mas não, não faria o mesmo por um ente abstrato como “pátria” ou “nação”.

Feito esse esclarecimento inicial, quero propor aqui ao leitor sair um pouco da zona de conforto da semiótica, dos significados preestabelecidos em nossa cultura, que associam o patriotismo a atos de heroísmo, coragem e virtude, de um lado, ou a mentiras canalhas e manipulações de massa, de outro. Quero questionar o efeito psicológico prévio à construção cultural do patriotismo, aquele sentimento endêmico do ser humano, ainda bruto no seu estado de socialização, que o fez considerar a necessidade de defender a sua pátria, seus compatriotas, e o seu território. Ou para ser mais específico: qual é a origem do patriotismo.

Apenas tangencialmente a este debate, vamos considerar que o “Estado Nação” surgiu na Europa durante a Idade Moderna, como ferramenta institucional para permitir o acúmulo de riquezas e a destinação dessas à expansão territorial, controlado por reis absolutistas, iniciando um processo de congregação de nações e culturas que, apenas na virada do Século XIX para o Século XX, e após as duas grandes guerras (1914-18 e 1939-45), chegou ao fim. Mesmo hoje, pequenas nações e culturas da Europa buscam a independência territorial e política (bascos, flamengos, catalães).

Na Ásia, por sua vez, o sentimento de nação se mistura, desde o Egito Antigo, seguindo pelo estabelecimento territorial da China, pela expansão imperial islâmica e pelas religiões e povos (curdos, palestinos, budistas) ainda hoje alvo de perseguição por estados e impérios, pela identificação ética, a partir de uma identidade comum geralmente de raiz religiosa (mas não necessariamente).

O que nos leva a concluir que o território em si, ou a institucionalidade que o delimita, não serve como elemento suficiente para fazer brotar nos corações concidadãos a chama do patriotismo. Antes, a etnia, tão evocada como delineadora de fronteira pelos europeus na virada do Século XIX para o Século XX, e a religião, elemento historicamente confluente de tribos na história da formação das nações asiáticas, cumprem melhor esse papel.

Contudo, mesmo quando adotamos critérios mais próximos da nossa percepção objetiva, como a nossa etnia ou a moral religiosa que nos apetece, é difícil entender que esse mesmo sentimento possa sofrer o processo de retorno à abstração, para se configurar como o patriotismo tradicional, do senso comum.

No caso específico do Brasil, o patriotismo sempre nos remete a algumas cenas particulares: a imagem de Dom Pedro I às margens do Rio Ipiranga, declarando a nossa independência de Portugal, as imagens dos ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, alimentados pelo mito desenvolvimentista de terem feito emergir por meio de políticas públicas a indústria nacional, e o ex-Presidente da Assembleia Constituinte Ulysses Guimarães promulgando a Constituição Federal de 1988. Some-se a isso as 5 taças mundiais erguidas por Bellini, Mauro, Carlos Alberto Torres, Dunga e Cafu, sempre mostradas em sequência para reforçar os momentos de glória espaçados no tempo, e a imagem de Ayrton Senna balançando no ar a bandeira do Brasil enquanto vencia um dos 41 grandes prêmios de Fórmula 1 conquistados antes da sua trágica morte em 1994.

É exatamente disso que vive o patriotismo. Da semiótica. Da ideia de fazer um indivíduo se sentir parte de um todo maior, ainda que esse todo maior nem sempre seja favorável ao indivíduo. Como aduzir como justificável que pessoas historicamente exploradas por agentes políticos e econômicos compatriotas possam, ainda assim, erguer-se em defesa da mesma pátria onde sofreram toda essa exploração, pobreza, desigualdade? Este raciocínio não é original. É a base argumentativa (uma das) do conceito de “internacional socialista”, da necessidade (conclamação) de união dos proletários de todo o mundo. Mas há um obstáculo fundamental a impedir o fim do patriotismo, ou a união do mundo por classes, desconstruindo fronteiras. E esse obstáculo é o indivíduo.

Em que pese a semiótica do patriotismo servir para criar uma difusão de massa desse sentimento, e, no mesmo sentido, reforçar a sua existência íntima em cada compatriota, esse sentimento já preexistia à semiótica que o fortalece. Em outras palavras: o patriotismo já estava dentro do indivíduo, e a propaganda em torno dele foi apenas reforçada. Mas qual foi a origem desse sentimento?

Respondo de modo um tanto pretensioso: o sentimento de autopreservação. A pátria, esse ente abstrato que vive no imaginário de cada um de nós, dialoga com os nossos sentimentos mais íntimos em diferentes campos: na percepção da existência de um sistema de defesa nacional que impeça que o nosso modo de vida seja destruído (“soberania”); na percepção da existência de um conjunto de valores éticos com os quais nos identificamos, e no qual fomos criados, e de um sistema judiciário pronto a impor a defesa desses valores (“identidade cultural”); na identificação étnica, religiosa ou cultural (ou todas as três simultânea ou alternadamente) com os nossos pares (“nação”); no apego às paisagens naturais e urbanas que nos povoam a memória com fatos bons e ruins de nossas vidas (“território”); e na ideia, intrínseca ao ser humano e ao seu medo do desconhecido, de que, por pior que seja, o atual cenário (soberania, identidade cultural, nação e território) é o melhor para a nossa família, nossos amigos e para nós mesmos.

O patriotismo, e mesmo as suas derivações nefastas (como a xenofobia e a guerra), nada mais são do que a reprodução externa de um sentimento interno do homem de medo do diferente, do desconhecido, do novo. É muito difícil ao homem (“que só usa 10% da sua cabeça animal”, diria o mestre Raulzito) aceitar a perspectiva de que lá fora, ou mesmo aqui dentro, sob novos paradigmas (culturais, religiosos, étnicos), a vida vá ser melhor, ou não vá ser pior, do que é hoje. E o sentimento de autopreservação, de nós ou dos que nos são caros, faz surgir em nós esse instituto intrínseco, reforçado que é, de boa ou de má-fé, pelos meios de comunicação de massa, como “patriotismo”.

E é essa abstração final, fruto da combinação entre um sentimento genuíno e originário e o interesse político de cada época, constituída em uma semiótica que automaticamente se reproduz em nossas mentes por imagens, sons, lirismos (como as imagens de Ulysses ou Ayrton que citei acima), pode conduzir um homem comum à superação, como os pilotos da Royal Air Force que combateram milagrosamente os bombardeiros alemães durante a Segunda Guerra, e aos quais Churchill homenageou com a frase: “nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.

Não é, pois, de todo ruim o patriotismo. De um lado, produz a xenofobia e as guerras, sempre que os seus cidadãos o utilizem como um instrumento de canalização de uma situação interna que não está boa, que deveria ser consertada internamente, mas cujo bode expiatório do inimigo externo parece ser sempre a solução mais fácil. Do outro, produz atos heroicos, através da desconexão do homem do mesmo instinto de autopreservação que fez surgir originalmente esse patriotismo, para, mesmo diante da morte ou da clara desvantagem em um embate, fazer manterem-se firmes as pernas, o coração e a mente de um ser frágil como somos nós, humanos.

O que eu, caro leitor, particularmente não aceito, para além da óbvia rejeição à xenofobia e às guerras, é o argumento canalha de que o patriotismo possa servir como justificativa para a adoção de uma dada política pública em detrimento de outra, como se o grau de legitimidade de um agente político se medisse pelo tamanho da paixão pelo seu país, e não pela correção de sua conduta ética ou pela eficácia dos resultados a serem alcançados pela opção política por ele adotada.

E contextualizo então essa discussão: é canalha, sim, o argumento dos que dizem que a concessão exploratória dos poços de petróleo no Brasil, seja no marco regulatório de concessões (FHC), seja no marco regulatório de partilha (Lula/Dilma), seria “antipatriótica” apenas por admitir a parceria econômica com agentes estrangeiros. Como eram canalhas os argumentos que cunhavam de antipatrióticas as privatizações da Vale do Rio Doce e do sistema de telefonia nacional, durante o Governo Fernando Henrique Cardoso.

A política se mede por dois critérios: a ética e o respeito às garantias fundamentais consignadas nos meios; e a eficácia e bem-estar sociais consignados nos fins. Ponto. Evocar o patriotismo como elemento de discurso em um debate público, apenas para desviar o foco objetivo da discussão e abstraí-la ao campo da semiótica alienante, é agir de modo antiético em todos os aspectos: é ao mesmo tempo faltar com a verdade, criar animosidades entre grupos divergentes, e usar a heurística e o discurso do ódio contra um adversário retórico que está certo, ao contrário do suposto e autodeclarado “patriota”.

Que o patriotismo esteja em nós, o que é (quase) inevitável. Mas que seus efeitos estejam ligados à humildade (tão rara nos seres humanos) de entendermos não possuirmos o conhecimento suficiente para analisar uma questão de modo exaustivo, e por isso mesmo, ao invés de apelarmos à alienação e ao discurso do ódio, que são frutos habituais do uso da semiótica do patriotismo na política, devamos manter sempre nossos ouvidos e corações abertos às propostas e ideias trazidas pelo outros (compatriota ou estrangeiro). Fica a reflexão.

E que fique claro que também eu, com todo o ceticismo destilado neste texto, também choro ao ver as cenas do saudoso Ayrton, a desfilar à frente das arquibancadas recheadas de cidadãos ricos de países ricos, como um vencedor saído do seio da nossa nação pobre, à época entregue ao triste quadro elitista da inflação galopante, e das desigualdades sociais e econômicas que esta sempre, em quaisquer circunstâncias, produziu, produz e produzirá. Um bom exemplo de patriotismo do bem...

Victor Castro Fernandes de Sousa, novembro de 2013, Brasília-DF.

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