quarta-feira, 26 de março de 2014

Texto da Família com Deus pela Liberdade

Duas notícias recentes merecem destaque no espectro político nacional. A primeira, a tentativa frustrada de certos indivíduos isolados de uma minoria não-representativa da nossa classe média, de tentar criar uma reedição da "Marcha da Família com Deus pela Liberdade" (1964), em protestos ocorridos no último fim-de-semana no Rio e em São Paulo, que resultaram em uma participação pífia de algumas centenas de pessoas a bradar pela volta do regime militar no Brasil.

A outra, o tão esperado (pois natural) lançamento de uma candidatura evangélica à Presidência da República, segmento este alienado da disputa majoritária desde a candidatura Anthony Garotinho (2002), mesmo representando (a religião) quase um quarto da nossa população. Decisão essa que, suponho, veio no encalce do destaque dado pela mídia e pelos movimentos de esquerda no último ano (2013) à presença do Deputado Marcos Feliciano à frente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. O candidato desse segmento político da religião evangélica deverá ser, ao que tudo indica (pelas pesquisas recentes), o vice-presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo.

Nos dois casos, temos o discurso em prol da "família", do "resgate dos valores tradicionais", adicionado de certas bandeiras vazias do politicamente correto de hoje, como a "educação", e de sempre, a xenofobia que é inerente ao ser humano, traduzida na perigosa "defesa da nossa pátria". Esses grupos se abraçam a um saudosismo de um "passado glorioso", justificado em seus devaneios pela suposta existência de: a) um núcleo familiar sólido, socialmente protegido, resultando em menos violência e menos desvios de conduta moral em nossa sociedade; b) governos progressistas, que investiam em grandes projetos nacionais, sem denúncias de corrupção aparentes. Trata-se, na verdade, de uma manifestação sintomática da doença que acomete a política brasileira como um todo: a desmaterialização da ação política, a abstração de qualquer método racionalista de compreensão do "pensar e agir politicamente".

Esses grupos ignoram o passado porque não o viveram. Abraçam-se à sua ignorância por preguiça de pensar e compreender o futuro - qual futuro nós queremos enquanto nação. O passado que abraçam na verdade era assim: negros, mulheres, trabalhadores e homossexuais, bem como todas as demais minorias políticas, oprimidos pela falta de liberdade social e de costumes, esmagados pelo modo de vida provinciano que tínhamos em nossas "grandes pequenas cidades"; políticos roubando livremente, sem dar satisfação à opinião pública, e fazendo o povo pagar a conta duas vezes, pelos impostos e pela inflação resultante do endividamento público descontrolado; uma nação atrasada, sem futuro, que se alienava em suas "salas de jantar", copiando de fora apenas o suficiente para nos dar uma roupagem de modernidade, enquanto mantínhamo-nos encalacrados em nossas cavernas do atraso.

Esclareça-se, em tempo, que não éramos governados pela "direita", nem pelas "elites". Éramos apenas ignorantes. Grandes empresários (os sérios) eram vítimas de chantagens pelo Governo e por outros empresários ligados ao Governo - o ambiente de negócios não oferecia nenhuma segurança jurídica. Os valores conservadores não conservavam nada de valor, nem o liberalismo clássico de Locke e Jefferson, nem o cristianismo ético de Agostinho e Aquino. Não há essa contraposição histórica entre o atual governo dito de esquerda (na verdade, um governo de inspiração marxista e prática bandoleira), e um suposto passado de "governos de direita". O Brasil era tão atrasado que sequer as ideologias haviam aqui chegado.

Os grupos que hoje buscam "refundar a direita", se apegam às pregações do Pastor Silas Malafaia, aos escritos do blogueiro Reinaldo Azevedo (outrora jornalista, que parece ter esquecido o seu passado brilhante à época da Primeira Leitura) e do astrólogo e arauto de teorias conspiratórias Olavo de Carvalho, aos "podcasts" do roqueiro apedeuta Lobão, e às valentias de corredor de colégio do fenômeno youtubiano Rodrigo Constantino. Esses grupos apenas reproduzem uma visão mastigada, pré-pronta, de um projeto de país que seria o retorno ao Brasil ignorante, provinciano e sem futuro que tínhamos antes da reabertura democrática de 1988.
Em 26 anos de democracia, demos saltos gigantescos em diversos campos do nosso Estado e da nossa sociedade: controle dos gastos públicos, independência do Judiciário, combate à inflação, racionalização da gestão pública, liberdade crítica da imprensa, democratização do acesso a políticas públicas, consolidação das políticas sociais como norte a se perseguir. Há muito o que evoluirmos enquanto nação e, de fato, não cabe maniqueísmos. Não é nos restringindo às bandeiras do PT e das esquerdas (a defesa das minorias políticas historicamente excluídas) que conseguiremos abranger todo o espectro de deveres aos quais o futuro nos impõe enquanto nação.

Se os grupos que se dizem "de direita", esses amantes do passado, querem realmente defender a família, deveriam adotar e defender a seguinte pauta: a) melhorar o planejamento urbano, para permitir que os pais e mães de família trabalhadores possam passar menos tempo presos em um transporte público ineficiente, em bairros longíquos e sem estrutura, e possam ter tempo e condições econômicas para viverem momentos de lazer com seus filhos; b) racionalizar o uso do dinheiro público, para que a inflação não volte e as famílias possam manter o seu poder de compra - e isso significa gastar menos dinheiro com a burocracia estatal, por exemplo, tendo menos crimes e mais proteção efetiva dos bens jurídicos realmente relevantes, flexibilizando assim a pauta de costumes e incluindo mais e mais pessoas no espectro de cidadania do nosso ordenamento; c) defender um sistema tributário mais justo, que permita à classe média e à classe trabalhadora manterem uma poupança privada para buscar os seus sonhos (os sonhos das suas famílias), e que racionalize o uso da terra em espaço urbano e rural, coibindo pela tributação o desperdício e o mau uso de recursos naturais limitados.

O discurso do ódio e da intolerância, que é mútuo entre a fatia conservadora e preguiçosamente intolerante da direita e a falange pós-marxista pseudo-revolucionária e demagógica da esquerda, não nos levará a lugar nenhum enquanto nação. O título deste texto traduz o objetivo central do que este autor defende que busquemos para o nosso futuro: a proteção da família, pelos caminhos listados no parágrafo anterior; a busca por Deus, enquanto conceito de "ação transformadora da natureza" que está dentro de cada homem, e que se traduz pela criação de coisas boas para ele e seus semelhantes; e a liberdade de podermos pensar para além das bandeiras que nos são pré-impostas por aqueles, à direita e à esquerda, que são bons no discurso e na mobilização das ruas, e péssimos na construção de um amanhã.

Nessas eleições de 2014, ouviremos muitas palavras de ordem de um lado e de outro. O que devemos escutar, para além do exuberante "teatro de democracia" que nos aparece à vista, é aquela nossa voz meio hesitante, sem certezas ou messianismos, que nos indaga internamente se há melhores caminhos a serem seguidos do que aqueles que nos são (serão) apresentados. E a busca do conhecimento, da leitura enciclopédia diversa, de tudo o que o intelecto humano já produziu no passado, é essencial para fazer amansar, num médio e longo prazo, a inquietação que se segue ao escutar dessa mesma voz. Não há respostas prontas. Nem de um lado, nem de outro.

E, por fim, há algo fundamental que o leitor deve saber: o seu voto não mudará nada. A sua militância política, pelas bandeiras em que acredita, e buscando sempre submetê-las ao crivo da racionalidade cartesiana (mesmo no campo das humanidades), esta sim mudará algo, senão em todo o país, ao menos na sua vizinhança, no seu trabalho, na sua família. A urna é apenas a latrina na qual despejamos os dejetos da nossa omissão política cotidiana. Você está disposto a mudar isso?

Victor Castro, Brasília-DF, 26 de março de 2014.

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