segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Dos Amputadores da Liberdade (ou: a nossa Liberdade na boca do tigre)

Anda circulando pela internet um texto idiota e oportunista, que supostamente demonstra haver uma correlação entre o menino que perdeu um braço no zoológico, atacado por um tigre aos olhos do pai (enquanto este tirava fotos e filmava), e a nossa (brasileiros) desobediência às regras de trânsito. Segundo o autor, o brasileiro está tão desacostumado a seguir regras e ordens, que esta é a explicação para o nosso país não “ter dado certo”, ao contrário dos europeus, estes sim seguidores da ordem e da disciplina, verdadeiros soldadinhos de chumbo da civilidade.
O texto é idiota, e historicamente inverossímil. A Europa do Século XIX – e antes disso ainda mais – era uma anarquia de grandes cidades industriais que se mesclavam com feudos rurais estagnados no tempo, e nos dois ambientes se reproduziam a mesma pobreza, desigualdade social, e a descrença na lei e na autoridade que vemos hoje no Brasil (“even worst”, por não haver meios rápidos de comunicação para denunciar absurdos, como vemos hoje). “Oliver Twist”, “Les Misérables”, e outras obras da mesma época retratam essa situação à perfeição. Na virada do Século XIX para o Século XX, a tal “Belle Époque”, também não foi assim tão bela, com ditadores aristocráticos jogando operários europeus em uma guerra sangrenta de trincheiras na I Grande Guerra (sugiro a leitura de “A Queda dos Gigantes”, de Ken Follet) e o surgimento no nazifascismo como alternativa a uma democracia socialmente excludente, levando esses mesmos operários a outra guerra ainda mais sangrenta 20 anos depois (também de Ken Follet, o emocionante “Inverno do Mundo” retrata igualmente bem esse processo).
A Europa aprendeu a conviver coletivamente, de modo democrático, somente depois da II Grande Guerra, e muito desse aprendizado veio por parte dos americanos que ajudaram a reconstruí-la nos anos 50 e 60, com o Plano Marshall. Mesmo nos anos 70, grupos como o Baader-Meinhoff e o PAC (Proletários Armados pelo Comunismo) desacreditavam a ideia de uma democracia socialmente justa e com alto grau de cidadania, e executavam ações de desobediência civil às autoridades estatais.
Os europeus seguem regras apenas porque eles se sentem parte dessas mesmas regras. Os europeus seguem as regras que eles, democraticamente, ajudam a instituir, cumprir e fiscalizar. O espaço democrático de construção da cidadania é algo fundamental para que haja esse respeito mútuo do cidadão pelas leis, e da leis pelos cidadãos (algo que não ocorre no Brasil). O europeu jamais aceitaria, como ovelhinhas que somos e aceitamos, que o Estado impusesse leis draconianas para os motoristas de trânsito, sem alternativas de qualidade no transporte público (que lá eles têm, e nós não). Para o europeu, escolado com o nazifascimo autoritário, primeiro o Estado deve fazer a parte dele e prover uma política pública de qualidade, para só depois poder exigir do seu cidadão que abra mão de um pouco mais da sua liberdade. E por isso o europeu obedece regras: porque sabe que, tendo o Estado feito a parte dele primeiro, compete ao cidadão instituir, cumprir e fiscalizar as leis que sustentem essa política pública já instituída com eficiência (por exemplo, um sistema de mobilidade urbano onde o motorista não é obrigado a ter carro particular, como é no Brasil).
Mesmo hoje, contudo, jovens europeus da “Geração X” têm desrespeitado regras, desenvolvido técnicas para burlar as burocracias estatais, em parte porque as sucessivas crises financeiras acabam empurrando qualquer indivíduo para a marginalidade (mesmo que seja fazer download de músicas na internet), mas principalmente porque as formas de representação democrática – os espaços democráticos de construção da cidadania – não têm sido mais suficientes para as novas demandas dessa nova geração. O europeu mais jovem está cada vez mais parecido com o indisciplinado e “self-made” brasileiro. Assim, o caminho para nós, Brasil, esta Europa do Século XIX em pleno Século XXI, só que com soja e gado, é construir espaços democráticos de construção da cidadania para, só depois, criarmos leis. Sem os primeiros, as segundas serão papéis podres, como são hoje – e não podemos culpar os brasileiros, alijados da sua redação, de desrespeitá-las.
Sobre o caso do menino que perdeu o braço por um ataque de tigre, creio não caber neste debate. A correlação constante do texto original que circula na internet é idiota e oportunista, exatamente porque nos últimos 20 anos não tivemos nenhum outro caso semelhante em nosso país. Nenhum brasileiro em sã consciência imagina que colocar a mão na boca de um animal selvagem seja um ato de desobediência civil. O brasileiro infringe regras quando estas podem beneficiá-lo (na maioria das vezes sem prejudicar a outro – pois é, os brasileiros ainda estão melhores que russos e sul-africanos neste aspecto) ou amenizar para este o custo burocrático do Estado. Nenhum brasileiro acha realmente que colocar a mão na boca de um tigre possa lhe trazer algum benefício. Pessoas estúpidas e sem-noção existem em qualquer lugar do mundo. Recentemente, em dezembro do ano passado, uma menina foi morta porque os pais a levaram para passear numa área de acasalamento de ursos (e uma carta aberta da PETA gerou polêmica por repreender os pais por essa irresponsabilidade). E então, alguém vai criar teorias sobre os norte-americanos não seguirem regras?
Victor C. F. de Sousa, agosto de 2014, Brasília-DF.

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