terça-feira, 23 de setembro de 2014

As Ciclovias Viraram Prioridade?

Antes de começar o debate, quero dizer que tenho muitos amigos cicloativistas ou ciclistas habituais, que respeito as boas intenções deles em defender a expansão das ciclovias, e que com certeza este texto não é uma crítica a eles, mas apenas uma reflexão que os proponho.

Desde os anos 50, quando tivemos a expansão das vias de rodagem em áreas urbanas, o fechamento dos bondes de rua, e a mudança do nosso modal principal de transporte nas grandes cidades dos modais coletivos para o modal individual (carro), fomos gradativamente perdendo qualidade de vida. Aos poucos, e considerando o boom demográfico das grandes cidades no fim dos anos 70 ao início dos 90, essa mudança no eixo de expansão dos transportes, com menos vias de transporte coletivo e mais avenidas e viadutos, nos levou a uma situação de “correr atrás do próprio rabo”: por mais que novas obras de expansão viária fossem feitas, nunca conseguíamos acompanhar o ritmo de crescimento demográfico e a demanda por mais espaço para os automóveis.

Trata-se, pois, de um conjunto de fatores, que vão desde a incompetência dos nossos gestores em investir de forma eficiente o valor de tributos relacionados a transporte, até a falta de planejamento na disposição espacial das cidades (e a especulação imobiliária é apenas um dos elementos de influência negativa), e a cultura de “apartheid social” vigente em nossa sociedade, da qual a idolatria ao carro em detrimento ao ônibus é apenas um dos resultados.

Em suma: desistimos do transporte coletivo. Desistimos de construir espaços para pedestres circularem protegidos da chuva e do sol (aspectos meteorológicos do nosso clima tropical não podem ser ignorados num planejamento que se pretenda eficiente). Desistimos dos modais que não são superavitários – bonde de rua, metrô – porque estamos presos ao paradigma equivocado de que transporte público deve ser superavitário.

E onde entra a bicicleta nisso? A bicicleta não pode ser considerada como um modal isolado – penso eu. Ao contrário, ela deve ser concebida como um modal integrado ao transporte coletivo, com espaços para seu aporte em vagões e ônibus, ou mesmo com a integração entre estacionamentos de carros e espaços para locação das “bikes”. A bicicleta não pode ser a prioridade no cronograma de remodelação da mobilidade urbana. Ao contrário, a expansão das ciclovias só será efetiva se for precedida pela melhoria das condições de trafegabilidade de pedestres, e pelo resgate dos modais deficitários (financeiramente) mas essenciais ao transporte coletivo: bondes de rua, ônibus e metrô.

Defender a restrição de vias de rodagem para uso exclusivo de bicicletas é uma maneira fácil e equivocada do Estado de manter o foco no transporte individual (agora literalmente individual), em detrimento do transporte coletivo. Sou a favor das ciclovias e dos ciclistas, mas antes sou a favor dos pedestres e dos modais coletivos. E se “não existe antagonismo” entre esses três tipos de usuários, como argumentam meus amigos cicloativistas, então porque ultimamente só vemos mais ciclofaixas sendo criadas, enquanto os pedestres se embrenham pelos matos sem calçada, ou ficam expostos à chuva e ao sol em ônibus lotados como caixas de sardinha?

O poder público precisa ter prioridade, e acho elitista e excludente (com idosos, crianças, portadores de necessidades especiais e gestantes) investirmos apenas em mais e mais ciclofaixas, tentado pregar no gestor uma pecha de “revolucionador da mobilidade urbana”, enquanto descuidamos dos modais coletivos de transporte. Não esqueçamos, por fim, quem são os usuários habituais das ciclofaixas – a classe média -, e quem são os usuários de ônibus e calçadas: o trabalhador sem condições de brincar de atleta urbano.

É uma provocação, mas não uma crítica. Convoco os cicloativistas a defendermos juntos a expansão dos modais coletivos e a melhoria das condições de passeio dos pedestres, ao invés de coroarmos os nossos gestores públicos como supostos “bons gestores” apenas porque fizeram o mais fácil, que foi pintar uma faixa vermelha em uma via de rodagem. Fica a reflexão.

Victor Castro F. de Sousa, Brasília-DF, setembro de 2014

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