domingo, 2 de novembro de 2014

Um Apelo aos Eleitores de Dilma

E Dilma venceu. Pelo placar mais apertado desde 1989, mas venceu. Pode alegar a seu favor que a Revista Veja "fabricou uma reportagem" contra o Governo na semana final do pleito. Mas eu pergunto: e qual seria o papel da imprensa, senão dar voz ao cidadão à sua constante insatisfação em relação ao Governo?

Dilma venceu, e também seus militantes. A virilidade dirigida contra Marina e Aécio, que não encontrou iguais em seus adversários, nos fez crer que uma deles era homofóbica, subornada por banqueiros, hipocondríaca e esquizofrênica. De outro lado, tínhamos um agressor de mulheres, cocainômano, corrupto e sociopata. Eram reais tais acusações? Jamais saberemos. Mas as redes sociais deram seu veredicto, e assim se decidiu a campanha.

Dilma disse a seus eleitores: não elevarei juros, não cederei ao Mercado Financeiro, e a inflação não subirá. Passadas as eleições? Os juros subiram (porque caiu o superávit, há uma relação inversamente proporcional), a inflação subiu (porque havia preços represados: combustível e energia), e a melhor opção para o Brasil é a demissão de Miriam Belchior e Guido Mantega, e a contratação de Luiz Trabuco e Henrique Meireles.

A "torcida" de Dilma se comporta como uma torcida de futebol: torce para Dilma mesmo quando ela comete déficit fiscal primário pela primeira vez desde o Plano Real. A "torcida" de Aécio idem: pede recontagem de votos e, uma parte minúscula porém barulhenta o bastante, pede a volta dos militares. Uma vergonha dos dois lados. E os verdadeiros interesses do Brasil (déficit líquido zero, e suas implicações positivas - se houvessem - sobre a inflação) ficam órfãos de representação.

No afã dos seus 51 milhões de votos, ao invés de buscar uma negociação com a Presidente Dilma, que resultasse no enterro definitivo das práticas heterodoxas na Fazenda e no Orçamento, e a indicação de nomes de consenso, o PSDB preferiu insistir na (mal)fadada CPI da Petrobras, e no potencial eleitoreiro - mas não de gestão - que ela tem.

Ou seja: dos 51 milhões de votos, Aécio Neves e o PSDB jogaram fora aqueles que votaram neles por preocupação com a volta da inflação, e deram preferência àqueles que se deixaram seduzir pelo canto moralista, fascista, udenista, de um suposto fim da corrupção quando da derrota do PT. Entre escolher entre o eleitorado mais qualificado em economia e o eleitorado mais ignóbil, Aécio e o PSDB escolheram o segundo.

E quem nos representa agora (a nós, preocupados com a volta da inflação)? De um lado, a direita troglodita que acha que o combate moralista à corrupção (ou a elevação de 900% das multas de trânsito) resolverão todos os problemas do Brasil. De outro, um PT arrogante, que acha que não há ajustes fiscais necessários no Ministério do Planejamento, e que o Ministério da Fazenda pode determinar juros por decreto.

Estamos órfãos de representação. O PT se preocupa em vencer o PSDB. O PSDB se preocupa em vencer o PT. E eu, cidadão, me preocupo em ultrapassar Japão e Alemanha no PIB. E Dilma, a escarrar e tripudiar em todos nós, ameaça indicar Aloísio Mercadante, ou outro adepto da corrente heterodoxa, para o Ministério da Fazenda, além de manter a "perdulária" (em resultados finais) Miriam Belchior no Planejamento, Orçamento e Gestão.

É mesmo um cuspe na cara de todos os brasileiros. Não só dos 51 milhões que votaram em Aécio (traídos por este quando abandonou a pauta anti-inflacionária), mas também dos 54 milhões que votaram em Dilma, acreditando piamente que, "em governos do PT, a inflação é SEMPRE menor que em governos do PSDB". E agora?

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