domingo, 25 de janeiro de 2015

Porque Prefiro Um Mundo Com Religiões

O recente atentado contra a revista de charges francesa Charlie Hebdo trouxe à tona o debate sobre o componente religioso na gênese da violência. Ateus, agnósticos e auto-declarados "espiritualistas, mas sem religião" (a turma da "Age of Aquarius"), começaram um bombardeio nas redes sociais, a argumentar que o mundo seria melhor se não fossem esses fanáticos religiosos a pregar a violência e a intolerância indiscriminadas contra o diferente. Citaram até Jonh Lennon, e seus versos da canção "Imagine".

Tal argumentação parte de dois pressupostos que, entendo, são falsos, e por esse motivo há grande chances de que a hipótese em si (o mundo seria melhor sem religiões) também é equivocada (ainda que eles acreditem de modo sincero nessa suposta "racionalidade inata do ser"). O primeiro pressuposto é o de que a violência dita religiosa tem origens religiosas (e citam a Inquisição nesses casos com a mesma facilidade com que alguém citaria o nazismo para discutir uma questão política). Ocorre que a gênese dessa violência que vemos hoje no Oriente Médio e nos atos terroristas ao redor do mundo não é religiosa, mas política (assim como a Inquisição também). O Oriente Médio ainda sangra as feridas da Guerra Fria, e desde o discurso, o método e até mesmo boa parte do arsenal dos grupos guerrilheiros, são herdeiros diretos da disputa EUA x URSS que ocorreu até 1990, e que, se acabou para boa parte da Europa (não para a Ucrânia, por exemplo), ainda prevalece, desgovernada, na África e na Ásia (a Venezuela é um outro caso).

O segundo pressuposto seria de que a religião seria algo obsoleto dado o avanço das ciências. Se as religiões surgiram para que o homem justificasse aquilo que não podia compreender, usando a metafísica, hoje é a física que explica quase tudo que há no Universo. Será? Vou admitir que sim, mas não é esse o motivo pelo qual as religiões perduraram no tempo. Para além de serem uma forma de compreensão do Universo, ou de arregimentação política, a religião é acima de tudo uma forma de preencher um vazio espiritual que é inerente ao ser humano.

É por não termos tudo o que queremos, por não sermos tudo o que queremos, por não vivermos tudo o que queremos, que a religião nos traz a perspectiva de que o ideal niilista e hedonista do "tudo ao mesmo tempo agora", ou a ética utilitarista do "o que importa é o resultado final", não são a única forma de se viver a vida. O ideal, o valor, a deontologia, e por óbvio a fé, são o que nos fazem nos manter sãos, mesmo que o mundo inteiro ao redor esteja desmoronando. Só um ato de fé (numa religião ou numa ideologia, e nisso ambas não se distinguem) faz o homem fazer a coisa certa, mesmo que isso o leve à morte. O hedonismo e o niilismo, pais do utilitarismo, nos fazem apenas exacerbar o nosso instinto de sobrevivência e o nosso egoísmo.

Ainda, pressupor que toda a ética pseudo-humanista estaria fundada numa "racionalidade inata ao ser" é uma bobagem histórica sem nenhum fundamento (e é o principal argumento de ateus, agnósticos e da turma da "Age os Aquarius"). Tanto a ética confuciana da sociedade oriental tem origens no budismo quanto a ética liberal-humanista ocidental tem origens nas doutrinas judaica e cristã. A Declaração Universal de Direitos do Homem (1948) é em grande parte fundada em princípios cristãos, escrita que foi por lideranças políticas cristãs (ao contrário, os ateus marxistas da União Soviética se opuseram à sua assinatura nos termos como ela foi redigida, e só com muita pressão política e dólares americanos eles voltaram atrás e ratificaram a DUDH - fonte: "O Inverno do Mundo", Ken Follet).

E não sou eu quem digo que a DUDH, a "bíblia" pela qual ateus e agnósticos sustentam a hipótese de uma "racionalidade inata do ser", é fundada em valores cristãos. Todos os seus comandos e dispositivos foram previamente descritos na obra "Segundo Tratado do Governo", de Jonh Locke, que baseava essas premissas de convívio social na doutrina cristã (herdeira direta do judaísmo), e na Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, cujos pais fundadores (Hamilton, Adams, Washington, Jefferson, entre outros) eram declaradamente religiosos, e praticantes.

Assim, a tal "ética racional" ou "ética humanista", que os ateus e agnósticos usam como novo norte a substituir as religiões num mundo futuro, só surgiu e sobreviveu ao nazismo, ao marxismo, ao niilismo contemporâneo, graças às... religiões! É um contrassenso imaginar que essa ética racional sobreviverá se matarmos as religiões da noite pro dia.

Concordo contudo com aquele meme da internet: "a religião é como o seu pênis: tudo bem você ter um, tudo bem você se orgulhar dele, mas não o fique exibindo de forma ostensiva às pessoas, e jamais o empurre para cima de crianças". Acho que o mundo tem muito o que evoluir em termos de convívio social, ética pública, respeito ao diferente. Mas nesse caminho (longo, áspero), as religiões, e toda a sua história de fazer mais bem do que mal (quantos são os fanáticos, e qual o tamanho do mal que eles causam diante de todas as atividades comunitárias saudáveis oriundas de comunidades religiosas?), são aliadas, não inimigas.

Se vocês acham o Oriente Médio violento, e acham que a culpa disso é a religião (no caso, muçulmana), peço por favor que olhem para a África sub-saariana, especialmente a África atéia e marxista da banda ocidental. Por essas e outras, sim, eu prefiro um mundo com religiões.

Victor Castro Fernandes de Sousa, janeiro de 2015, Brasília-DF.



2 comentários:

  1. Muito bom texto. Gostei da fundamentação e conclusão.

    Um mundo sem religiões é impossível, o homem precisa delas pelo vazio que lhe é inerente, como você bem coloca.

    Resta discutir os pressupostos das religiões, a sua incomunicabilidade e também fanatismos.

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  2. Parabéns pelo texto Victor!
    O estudo da religião invoca uma vertente moral. Paises laicos pregam a substituição de principios religiosos por Ética. A ética, no entanto, força os aspectos racionais de uma comunidade, afinal somos racionais. Deste modo, princípios fundamentais, como o de respeito múltuo, são encarados como regras de convivência. A religião nos convida a ser comunidade, e viver algo além do racional. Não apenas obedecer regras de convivencia, mas entende-las em sua raiz. Com isto, despertar no individuo o interesse filosofico/existencial do humano. A religião dispões de meios para suscitar um lado que não se explica. Seguir uma religião é, então, conhecer dogma e doutrina que esta prega. Me pergunto se extremistas do boco haran sabem que interpretações da Xariá (lei islâmica) emprega definições de Platão? Concluo pela mesma opinião. A religião é indispensável a humanidade, pois esta também estuda as relações humanas em um nível que a filosofia/sociologia/antropologia ou pisicologia (...) não são capazes de auferir.

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