terça-feira, 28 de abril de 2015

Quando Futebol É Política


Há uma enorme expectativa quanto à redação final que o Congresso Nacional dará quando (e se) da aprovação da Medida Provisória nº 671/2015, que estabelece uma série de obrigações e permite o refinanciamento das dívidas federais para os clubes de futebol no Brasil.

O Bom Senso Futebol Clube, movimento formado majoritariamente por jogadores de futebol, e que busca pensar soluções para tornar mais atrativo e competitivo esse esporte em nosso país, critica o fato da MP não tratar de questões referentes ao futebol (produto) em si mesmo: calendário, regulamentos, relação associações x clubes, etc. Esses pontos, segundo o Bom Senso, seriam ainda mais decisivos para reverter a falência técnica na qual o nosso futebol mergulhou, e que se pôde sentir na queda do nível do Brasileirão desde meados dos anos 90, e na queda de competitividade da nossa Seleção masculina desde a Copa de 2006 (sem a revelação de grandes craques – fora Neymar – desde então).

Tendo a concordar com o Bom Senso: futebol é política. Em que pese a importância de se sanear questões administrativas dos clubes – e isso é urgente se quisermos moralizar o nosso futebol, dado que é exatamente essa bagunça de gestão que torna os clubes vulneráveis a uma certa emissora de televisão -, são questões relativas à atividade fim (o produto, o esporte) que mais influenciam negativamente o atual estado de coisas que vivemos no futebol brasileiro.

Discordo, contudo, que deveria ser de responsabilidade do Governo Federal mexer nessas questões. Calendário – pois ele, sendo fruto de todo o resto, é também causa de todo o resto – é atribuição privada dos clubes, associações e federações envolvidas na gestão do futebol no Brasil. O Governo Federal poderia até mesmo tentar negociar um calendário mais razoável e mais competitivo, mas questiono a legalidade de tentar impor um através de uma medida provisória.

A tendência hoje, vide comentaristas de futebol na TV e até o próprio Bom Senso Futebol Clube, é de defender o esvaziamento dos campeonatos estaduais, com a saída dos grandes clubes para competições regionais ou nacionais, e o esticamento desses estaduais ao longo de todo o ano, porém com clubes que não disputem as séries A ou B do Brasileiro. Discordo dessa fórmula.

Como torcedor do time mais vitorioso do Norte/Nordeste e de maior torcida dentre os dessa região do país (o Esporte Clube Bahia), sou favorável sim a que continuem existindo estaduais fortes, assim como campeonatos regionais. E sou contra também a restrição de suas ocorrências aos meses de janeiro a abril, como impôs a CBF de alguns anos para cá. Mas o leitor deve estar se perguntando: o que fazer então?

No meu entender – e é uma fagulha para provocar o debate – as competições estaduais deveriam ser divididas em duas: uma mata-mata, com menos jogos (ex: 10 jogos), disputada com 1 jogo por mês ao longo de todo o ano, com a participação dos clubes que disputam as séries A e B (e que serviria para selecionar os clubes que disputariam os regionais); e outra, com mais jogos, com clubes não participantes das séries A ou B, também durando o ano inteiro.

As competições regionais (uma Taça Rio-São Paulo; uma Taça Centro-Sul, com RS, SC, PR, ES, MG, GO e DF; uma Taça Noroeste, com MS, MT, AC, RO, PA, RR, AP, AM, TO e MA; e uma Taça Nordeste, com os times da Bahia até o Piauí) teriam um formato similar ao estadual principal: mata-mata, com 16 clubes cada, em 6 rodadas (oitavas, quartas e semi) com ida e volta, e uma final única (como ocorre na Champion´s League) em sede rotativa. Ao final, os 4 campeões disputariam a Taça Brasil, também com 2 jogos de ida e volta na fase semifinal, e uma final única em uma sede sorteada entre os Estados que não tiveram times classificados para a competição. A Taça Brasil substituiria a Copa do Brasil, e retomaria o glamour da velha competição dos anos 50/60, que consagrou esquadrões como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha e o Cruzeiro de Tostão.

E o Brasileiro, permanecendo em sistema de pontos corridos e com 20 clubes (séries A e B), teria suas 38 rodadas diluídas entre os meses de fevereiro e novembro. Ao todo, um time que disputasse todas as competições, em todas as fases, totalizaria 58 jogos, diluídos de fevereiro a novembro, numa média assim de 5,8 jogos ao mês, ou de 1,35 jogos por semana (o que significa que um time só jogaria 2 vezes numa semana a cada 3 semanas) – permitindo que a CBF pudesse, finalmente, respeitar as datas FIFA.

Essa proposta acima, como eu disse, é apenas uma fagulha para provocar o debate. A ideia é manter para o nosso futebol o nosso principal ativo, que é ter clubes fortes regionalmente, como os feudos da série da HBO “Game of Thrones”, se encontrando nacionalmente em uma arena para disputarem os títulos das Séries A e B. Pobre do Brasil se tentar copiar o modelo espanhol e restringir nossa competitividade a dois ou três clubes, como deseja uma certa emissora de televisão. Agora só falta convencer a CBF...
Victor Castro Fernandes de Sousa, advogado e autor do blog Paladinos da Liberdade (artousosvic.blogspot.com).

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