sexta-feira, 22 de maio de 2015

Afinal, o PT faz bem ou mal ao país?

Meu primeiro contato com o PT, por incrível que pareça, foi com apenas 8 anos de idade. Era a campanha eleitoral de 1992, Lídice da Matta contra Manoel Carlos. A Bahia vivia uma situação muito peculiar: havia eleito um candidato oposicionista para o Governo do Estado em 86, Waldir Pires, que devolveu a Antônio Carlos Magalhães todo o poder que ele tinha perdido com a redemocratização, por ter(em) feito um governo tão ruim (Waldir, depois Nilo) que o carlismo voltou. Lídice venceu. O carlismo se levantava firme e forte depois de alguns desastres oposicionistas – João Durval, Fernando José, depois a própria Lídice – e o PT se segurava firme e forte como alternativa jamais vencedora (os ventos mudariam em 2006). Se o carlismo vendia a certeza do governo mediano, o “feijão com arroz” das contas em dia e das obras de infraestrutura, ao preço da especulação imobiliária e do elitismo político exacerbados, o PT vendia a esperança de uma classe média que sonhava com o padrão europeu de bem-estar social, numa unidade federativa ainda pré-capitalista, feudal até.

Meu segundo contato com o PT foi no colegial, quase 10 anos depois. Meus professores de História e Geografia nos inundavam com textos da Caros Amigos e da Carta Capital, sempre a criticar duramente o Governo FHC – à época enfraquecido pela crise cambial de 99 e pelo Apagão de 2001 -, e a apontar o PT como a solução da esperança e da ética. Alguns da minha idade ainda hoje enxergam o Partido assim, pois jamais se recuperaram da verdadeira lobotomia que sofremos naquela época.

Meu terceiro contato com o PT foi já na Faculdade. O Partido representava tudo o que havia de bom no mundo: combate aos preconceitos, à pobreza, progressismo, reformismo. Ao menos era o pensamento dominante no meio acadêmico. Mas na prática, a teoria era outra: militantes e simpatizantes julgando colegas por pensarem diferente, perseguindo professores que tinham um pensamento mais “de direita”, restringindo o acesso dos demais estudantes às instâncias representativas estudantis. A expulsão da Flores de Maio da gestão do DCE da UFBA, numa assembleia na Reitoria (não me recordo se em 2004 ou 2005), foi uma das cenas mais covardes de intolerância política que já presenciei, com barbudos cosplay de Che Guevara (se me lembro, alguns da AE, outros da DS) a gritar com meninas e demais colegas da chapa minoritária (a Flores). Cavalheirismo mandou lembranças, truculência reinou.

Hoje vejo o PT de outro modo, mais brando. Minhas impressões iniciais se transformaram por minha própria experiência de vida e leitura, pesquisa... O PT é um partido da classe média baixa letrada, é o claro antagonismo entre a erudição literária e artística e a (não) detenção dos meios de produção. É a classe média pensante (nem sempre certa, porém), essencialmente formada por professores, servidores públicos, artistas, acadêmicos, líderes sindicais e comunitários (que são uma forma de servidores públicos também). São, basicamente, profissões que dependem intrinsecamente da organização estatal para coexistirem, e refletem em seu pensamento político essa aversão ao mercado e às dinâmicas comportamentais que ele (mercado) às vezes dita, às vezes apenas constata.

Os economistas do PT acreditam seriamente que política cambial e fiscal se fazem com vontade política, independente de considerações técnicas ou de percepção apurada da realidade. São “mais realistas que o Rei”, ao propor um keynesianismo que não respeita sequer a regra de ouro de Keynes: que déficits em contas públicas devem se restringir a investimentos, jamais a gastos correntes.

Mas o PT possui 2 trunfos que o distinguem dos demais partidos: o primeiro, a capacidade de ainda ser o partido das bandeiras progressistas nos costumes, quando outros partidos de origem na Esquerda, com o tempo, acabaram dando uma guinada para o conservadorismo (na ordem: PTB, PPS, PDT e PSB); o segundo, é o de polarizar o debate, a técnica mais antiga do PT e a mais eficiente, do “nós contra ele”, do pensamento binário de “preto ou branco”, sem meios termos.

Esses dois trunfos permitem ao partido resistir a qualquer crítica, blindar-se a qualquer alternativa, e ganham especial força quando a Oposição (notadamente o PSDB) decai para um conservadorismo tacanho, iletrado, tosco até, sem projeto. Comparar o PSDB de hoje com o PSDB de 94 é como comparar o Zorra Total com o Porta dos Fundos (dois programas humorísticos notórios): a diferença de erudição é abissal.

Respondendo à pergunta que dá título a este texto, digo ao leitor: o PT faz mais bem ao Brasil. No “frigir dos ovos”, o Partido ainda é o único relevante a defender pautas progressistas nos costumes (em que pese ainda cair no discurso populista da criminalização do pensamento discordante) e a combater a monopolização dos meios de produção em grotões mais pobres do Brasil (a minha Bahia inclusa).
A polarização do debate poderia ser resolvida com uma Oposição mais preparada e instruída, e o monopólio da pauta progressista nos costumes poderia ser resolvida com uma Esquerda (ou mesmo uma Direita liberal) menos medrosa da censura conservadora das urnas.

O PT não tem culpa se seus adversários são tão fracos. Lembram do carlismo no início do texto? Ironicamente, o PT que o combatia na Bahia nos
anos 90 é agora usuário da sua lógica (do carlismo) primordial: o triunfo da mediocridade ante a total falta de alternativas. E não, caro leitor, essa falta de alternativas que vivemos hoje não é culpa do PT. A mediocridade, sim.

Victor Castro Fernandes de Sousa, advogado e autor do blog Paladinos da Liberdade (artousosvic.blogspot.com), Brasília-DF, maio de 2015.

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