domingo, 21 de junho de 2015

Do Culto à Streptopelia

“Não existe almoço grátis”. Eis um lema dos “Chicago boys” e da escola austríaca (ambos bastiões do neoliberalismo conservador) que pode se adaptar a diferentes interlocutores em diferentes contextos. Escolhas políticas trazem ônus, leis trazem custos. O debate nas redes sociais, contudo, é gratuito: a leviandade, as mentiras, a ingenuidade, a irresponsabilidade, a desconexão entre argumentos e fatos, o jogo marcado, a caneta mercenária. O debate político no Brasil de hoje se faz pelos memes e virais da internet. É o debate binário – já falei sobre ele aqui nesta mesma coluna – do bem contra o mal, variando ambas definições pela ótica daquele que as profere: é bem quem se enxerga como bem, é mal quem está do outro lado.

E eis que surge uma rola na história. Seria a rola de Boechat, âncora no jornalismo da Band, ou de Malafaia, pastor de uma dessas muitas e prolíficas igrejas neopentecostais? A rola é de propriedade desconhecida, mas paira sobre todos nós, brasileiros. Qualquer ser vivo nas redes sociais brasileiras (digo, estrangeiras, mas usadas por brasileiros) é testemunha de quão insuportável se tornou discutir política em nosso país desde o início da campanha eleitoral de 2014 (ali pelos ides de março, abril, quando a MAV começou a difundir a estória de que Aécio teria agredido a esposa), perdurando contudo até hoje.

Tornamo-nos uma república de dois lados apenas, uma república de preto e branco, sem mais tons cromáticos, numa pobreza argumentativa e num deserto de ideias que apontam para nada menos do que um absurdo desânimo sobre o futuro.

Nesta mesma semana, Aécio e sua trupe viajaram para a Venezuela, para combaterem “corajosamente” a ditadura chavista. Lá chegando, ante a paralisação da via por um boicote do Governo venezuelano e uma manifestação de alguns apoiadores do regime chavista, retornaram os 2 quilômetros percorridos, e foram se esconder no aeroporto, esperando o voo de volta pela FAB – não sem antes inúmeros posts e protestos nas redes sociais. O PT e a MAV, por sua vez – e aí não sei quem fez o que, deixo ao juízo do leitor -, rechearam nossas redes sociais dizendo que era só um engarrafamento na hora do pico, normal em cidades grandes, e que não houve protesto nenhum contra a presença da delegação brasileira na cidade. Não sei qual das duas posturas me enoja mais: os que tentam bancar os mártires e amarelam na primeira oportunidade de de fato se tornarem mártires, ou os que mentem deslavadamente afirmando não ter havido algo que todos viram com relatos audiovisuais ter de fato ocorrido.
Dois dias depois, voa altiva de dentro da boca de Boechat uma pomposa rola, direto para não sei que parte do seu contendor, o pastor Malafaia.

Ao contrário da suposta intenção de Boechat, de representar os cristãos tolerantes e os liberais laicos, essa frase virou a desforra dos ateus radicais e dos esquerdistas intolerantes. É a famosa inocência útil a desserviço do que se pretendia. E de outro lado, não havendo também razão, pode-se agora usufruir de toda a fleuma de vítima, pois os fatos colaboraram para tal. E o debate real – sobre até que ponto deve no Brasil o Estado se acometer de questões individuais e privadas do cidadão – continua alijado de qualquer reflexão séria, e sem lideranças que defendam uma pauta 100% libertária. Os conservadores querem mais cadeia para os esquerdistas, os esquerdistas querem mais cadeia para os conservadores; e o cidadão comum está tão preocupado com a recessão e a crise, que pouco se importa com essa guerra de comadres cadeiófilas.

Não existe liberalismo democrático no Brasil. Aqueles que acreditam que: (1) o Estado não deve intervir nos costumes, exceto para mediar conflitos entre culturas divergentes; (2) que o Direito Penal deve ser mínimo, preferencialmente precedido por medidas compensatórias e cautelares cíveis e administrativas; (3) que a liberdade individual só deve ser mitigada se esgotadas todas as demais alternativas de política pública, e somente na medida exata da sua necessidade e proporcionalmente ao bem auferido; (4) que a estrutura burocrática do Estado deve ser enxuta, eliminando frivolidades e elencando prioridades – esses estão ÓRFÃOS de representação no espectro político brasileiro. Eu entre estes órfãos. Como diria aquele status de Facebook: “se sentindo Oliver Twist”... Oliver Twist da política.

Não, não é apenas o pastor Malafaia quem deve ir procurar um pássaro do gênero Streptopelia. São todos aqueles que se julgam no direito de, fazendo parte de um grupo social ou um coletivo político, defenderem em suas pautas a supressão da liberdade e do direito do outro, em nome de um projeto e uma moral privados. E isto inclui conservadores e esquerdistas. Vão todos procurar uma bela rola!

Victor C. F. de Sousa, advogado e autor do blog “Paladinos da Liberdade”, Brasília-DF.

Um comentário:

  1. (argento) ... é isso, a Sopa-de-Letrinhas tá ruim de aturar, a ambiguidade tá solta no verbo e, a patuleia sentindo a Rôlentrando ... tempos difíceis.

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