terça-feira, 29 de setembro de 2015

Dois Assuntos Aparentemente Nada a Ver

Li hoje uma entrevista com o líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto), Guilherme Boulos, na qual ele defende que a pauta tradicional da Esquerda, pelas ditas “reformas de base”, seria um caminho apto a englobar também a discussão macroeconômica, e que por si só se constituiria como uma plataforma de governo. Não são palavras dele, mas foi como as traduzi (aos interessados em ir direto à fonte, a entrevista foi publicada no site Outras Palavras, em 28/09/2015).

Nessa mesma última semana de setembro, a Câmara dos Deputados aprovou em comissão especial o projeto de lei que institui o Estatuto da Família, o qual, em seu artigo 2º, propõe que seja reconhecida como “família”, para fins da proteção constitucional a ela destinada, apenas a união entre homem e mulher, ou, na ausência de um dos dois, a relação parental entre pai/mãe e respectivos filhos. Ou seja: excluir-se-iam da abrangência da lei as famílias formadas por casais com parceiros do mesmo sexo (uniões homoafetivas).

Os dois assuntos listados acima, a priori, aparentam não ter “nada a ver” um com o outro. Porque então abordá-los num mesmo espaço? Primeiro, porque me pareceram ambos de igual relevância dado o atual contexto de total indisposição mútua ao diálogo que tomou conta da política brasileira – essa entidade moribunda, que parece entorpecida pela ansiedade de fatos que talvez nem sequer se concretizem num futuro próximo (sim, me refiro ao tal impeachment). Mas a verdadeira razão da abordagem comum é que os dois assuntos tratam da forma quase idealística como é tratada a discussão sobre instituições e gestão da coisa pública em nosso país.

Por motivos os mais icógnitos, possuímos uma atração fetichista por lideranças de Esquerda, e paramos invariavelmente alguns minutinhos na frente da TV ou com a nossa vista no jornal para ouvir ou ler o que têm a dizer (digo alguns minutinhos, pois é só o tempo que dura a nossa paciência com os jargões e lugares-comuns de sempre).

Talvez esse fenômeno seja ainda ressaca da Ditadura Militar, a se converter numa repulsa quase injustificável por qualquer pauta que se assuma “de Direita” (e parece que o PT está conseguindo reverter esse impulso, só que de modo involuntário); talvez sejam as belas e meritórias músicas de Chico Buarque, para sempre encravadas em nosso subconsciente coletivo; ou até mesmo a doce nostalgia dos tempos de Faculdade, quando éramos todos de Esquerda, a idolatrar os líderes do DCE e seus discursos nos prometendo um amanhã glorioso com uma receita simples (e geralmente errada) para atingi-lo.
Fato é que a entrevista de Guilherme Boulos, os artigos de Jean Willys, a curiosidade da mídia pátria sobre o “Podemos” espanhol (porque o ex-queridinho “Syriza” já teria sido abduzido pelas frias demandas do mundo real), os memes de Facebook e Whats App com a estrelinha vermelha num canto, todas essas coisas ainda nos despertam a esperança de que é possível resolver todos os problemas da nossa sociedade com mera vontade política. Sem “contras”, e ainda sendo possível manter os “prós” da nossa sociedade de consumo – a conta seria paga por terceiros alheios à nossa convivência (o FMI, as potências imperialistas, a “elite branca e repressora”, etc).

Do outro lado, o nosso Congresso, “o mais conservador desde a reabertura democrática”, é também detentor da proeza de ter como matéria com maior proposição de emendas legislativas o Código Brasileiro de Trânsito. Não obstante, o Estatuto da Família e os debates sobre religião e costumes sexuais vêm em segundo lugar nos esforços dos nossos ilustres parlamentares. E porque? Porque num cenário de partidos fracos e do consequente personalismo político, brota a anarquia de esforços e transparecem a ignorância (por falta de leitura mesmo) e o despreparo da imensa maioria dos nossos parlamentares. Falam sobre trânsito e ânus alheio porque não possuem preparo técnico para discutir tributos, pacto federativo, reforma administrativa e outros assuntos que seriam, estes sim, realmente importantes.

É o modo tupiniquim de se fazer política: à moda dos advogados (que dominam a nossa política) e sua retórica impecável aprendida nos 5 anos do curso de Direito, acredita-se que vendendo uma ideia com convicção e bela oratória, essa ideia se materializaria como a solução para problemas que, no mundo real, não guardam nenhuma relação de causalidade com essa mesma ideia. É por isso que o MTST pode dizer que os problemas do Brasil se resolvem com reforma urbana e reforma agrária (que são, por si só, conceitos em aberto), ou a bancada conservadora do Congresso acha que trânsito e costumes vão ser determinantes para retomarmos o crescimento do país. Troca-se a lógica dos fatos pelo pensamento “Lua de Cristal”: “tudo pode ser, se quiser será...”. Pena que o mundo real não é assim tão simples.

Victor C. F. de Sousa, Brasília – DF, outubro de 2015

Nenhum comentário:

Postar um comentário