sábado, 24 de outubro de 2015

Somos Todos Valentina


Não, não se trata de um bordão desses pra virar hashtag na internet. Meu intuito com o título deste texto, em referência ao caso das manifestações pedófilas que ocorreram no Twitter em face de uma menina de 12 anos participante de um reality show de culinária, é o de demonstrar que todos nós, homens e mulheres, somos vítimas da bestialidade humana. Desde que o mundo é mundo barbaridades são cometidas, algumas vezes por conflitos naturais entre povos e culturas, outras pela falta de comunicação com o outro, o diferente, e na maioria das vezes apenas pelo sadismo que o poder pelo poder acaba desenvolvendo na frágil mente humana (lembram dos filmes "Sleepers" e "Sobre Meninos e Lobos?).
Há muito debate sobre o que seria a pedofilia. No caso da menina Valentina, surgiu de pronto uma corrente mais ativista do lado do feminismo afirmando que não se tratavam de pedófilos, mas da cultura do estupro em si mesma, pela qual a mulher estaria na sociedade com a única função de servir sexualmente ao homem - e que isso precisa mudar, pela conscientização e pela punição severa. Concordo com a segunda parte da assertiva. Mas não posso deixar de anotar que sim, no caso da menina Valentina, aqueles que se manifestaram de modo mais, como posso dizer?, libidinoso, agiram tal como pedófilos, ainda que alguns queiram dizer em sua defesa que o fizeram por mero "animus jocandis".

Acho que ninguém mais hoje, com toda a avalanche de informação da internet e demais meios de comunicação, pode alegar em seu favor o desconhecimento de certos parâmetros básicos de humanidade - e não fazer piadas relacionadas a pedofilia é um dos parâmetros mais claramente definidos. Lembremos, por exemplo, o caso do comediante Rafinha Bastos que, usando uma expressão comum em conversas de bar entre homens, acabou crucificado como se tivesse dito - e não disse! - que queria fazer relações sexuais com o bebê. Se no caso de Rafinha houve um mal entendido, no caso Valentina nem sequer a ambiguidade semântica pode salvar seus agressores.

Mas voltando ao título do texto, o que quero abordar aqui é o fato de que homens e mulheres são igualmente vítimas da bestialidade humana. Pegando emprestado um termo da militância de combate à homofobia, me agrada a etimologia alternativa a ser dada ao termo "heteronormatividade", não pelo seu significado político atual - impor a heterossexualidade -, mas pela etimologia em si, que significaria corretamente " impor uma norma ao outro". Ou seja: o mal maior da Humanidade, desde sempre, foi, é e será impor ao outro a moral privada de um grupo. Quem tem o poder determina ao outro como se comportar.

E isso se reflete desde a forma como as pessoas acham que uma mulher deve agir ou se comportar - quando essa decisão cabe somente a ela -, até a leis absurdas que proíbem jogos de azar, prostituição, um chope no happy hour, nudismo ou o uso de drogas por adultos capazes. É um grupo privado, majoritário ou minoritário, determinando ao indivíduo como ele deve agir, mesmo quando a sua ação não gera prejuízos a ninguém. Não importa se esse indivíduo é homem ou mulher, qualquer imposição de comportamento, de fora pra dentro, é nociva à beleza darwiniana, nietzschiana, freudiana e thoreauniana, da diversidade axiológica do ser humano.

Indo por outro caminho, me incomoda a abordagem que a militância feminista deu ao caso. Essa estratégia do "nós contra ele", da mulher como 100% vítima e o homem como 100% carrasco, da mulher e do homem não como seres humanos, com seus anseios, seus medos, seus sonhos, suas paixões, mas como partes de grupos sociais distintos e antagônicos, eu considero essa abordagem contraproducente para o debate. Há diferenças fisiológicas? Menos do que parecem, mas há. Há diferenças sociológicas? Enormes. Mas em ambos casos, homens e mulheres são vítimas de uma "heteronormatividade" (no sentido de "uma moral imposta por outros, de dentro pra fora") que tenta tratar a todos como papéis sociais a serem cumpridos, ignorando a individualidade, e reduzindo a complexidade do ser humano a uma perspectiva binária, pobre e equivocada.

Quando um menino entra na 1a série do ginásio, ou 5a série do fundamental, ele enfrenta uma situação similar à dos presidiários de 1a viagem: precisa brigar com o cara aparentemente mais forte da sala (ou da série), para ser respeitado pelos seus pares. Quando cresce, aprende que deve ficar com todas as meninas que "deram mole" pra ele numa balada, ao invés de passar mais tempo tentando conquistar a menina de quem ele realmente "ficou afim". E as mulheres são "treinadas" para fazerem especialmente o contrário. Em tempos de Tinder, sempre bom lembrar um vídeo do Porta dos Fundos, no qual a personagem mostra como as mulheres "selecionam" seus "matches" no aplicativo: rejeitando 10 pra cada um selecionado. Já os homens, são o contrário: selecionam 10, pra cada uma rejeitada. Daí se explica, ironicamente, o porque de o aplicativo ainda ter clientela (risos).

E esses mesmos homens, que foram criados dessa forma descrita no parágrafo acima, agora são ordenados que o beijo roubado no carnaval - outrora celebrado em marchinhas e papos de salão - foi tipificado como estupro pelo Código Penal (sim, é verdade!), que uma cantada pode ser crime de assédio (e não me refiro ao "ê lá em casa" dos pedreiros de obra, nem à buzinada no trânsito, essas sim, condutas nojentas que devem ser reprimidas), que é a mulher quem deve tomar a iniciática na paquera, sob pena de estarmos sendo cúmplices da "cultura do estupro" (um conceito aberto, e conceitos abertos em política e Direito são um perigo para todos os agentes sociais envolvidos). Que problemas no relacionamento significam que foi ele quem abusou psicologicamente da mulher - quando casos exatamente identicos acontecem na mão oposta. O abuso geralmente parte de quem tem mais auto-estima para quem tem menos, invariavelmente.

O que quero dizer é que há sim uma falha de comunicação entre homens e mulheres. As mulheres descobriram todo um novo mundo de liberdades comportamentais, de ativismo político e de emancipação econômica e social. E querem - e devem mesmo - fazer uso disso!
Tenho orgulho de ser neto de uma mulher (minha avó materna) que sustentou 6 filhos mesmo viúva aos 40 anos, de ser filho de uma mulher engenheira civil numa época em que só 3 ou 4 mulheres formavam numa turma de mais de 50 homens, e de ser irmão de uma mulher que enfrentou as arduras de se mudar pra um novo país, largando a comodidade da vida de classe média brasileira, e venceu no hostil ambiente capitalista dos EUA. Por isso para mim o exemplo do feminismo sempre foi as mulheres fortes, que sabem que merdas sociais existem, mas que individualmente a mulher é mais forte que os desafios que ela enfrenta.
Sei que a conscientização de todas as babaquices e bestialidades heteronormativas (ver etimologia real, acima) que as mulheres sofrem é fundamental num processo de mudança comportamental em nossa sociedade.
Mas quero pedir, de verdade, às mulheres de bom senso e com capacidade empática: enxerguem os homens como seus aliados nesse processo, jamais como inimigos. Pessoas bestiais haverá sempre, homens e mulheres. O importante é afastar deles o poder de impor a sua heteronormatividade a terceiros.

Victor C. F. de Sousa, advogado e autor do blog Paladinos de Liberdade (artousosvic.blogspot.com)

Nenhum comentário:

Postar um comentário