sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Pacto pela Mediocridade

Fernando Haddad é considerado pela militância do PT como a grande aposta do partido para resgatar a imagem tradicional de uma esquerda transformadora da realidade social, comprometida com a luta de classes e eticamente impecável. Para muitos, é a melhor aposta para uma futura candidatura à presidência da República, findas as opções Lula e Dilma (ou seja, 2022 ou 2026). Dada essa convicção reinante, pipocam nas redes sociais os memes (alguns elaborados pelo próprio Haddad Tranquilão, seu perfil “jovem e cool” no Facebook) com supostas realizações do atual prefeito de São Paulo em sua gestão, que se iniciou em janeiro de 2013.

Mas, ao contrário do que o leitor pode estar imaginando, sua gestão não produziu nada de relevante em termos de oferta de serviços públicos. Suas maiores realizações (segundo os memes distribuídos pela sua própria militância nas redes sociais) se limitam à pintura de faixas exclusivas de ônibus e bicicleta em vias já existentes (ou seja, sem construir novas), à reserva de um percentual dos financiamentos do Programa Minha Casa Minha Vida para transexuais, e ao aumento da participação de grupos de hip hop na tradicional festa Virada Cultural, na capital paulista.

Nenhum meme mostrando revoluções significativas de gestão nas áreas de transporte público, habitação, educação ou saúde. Apenas realizações pontuais, que possuem mais o condão de “firmar uma posição”, sem impactos de larga escala, visando mais estimular o já existente “fla x flu” entre “progressistas” e “conservadores” nas redes sociais, do que em gerar melhorias concretas de vida para a população de São Paulo.

ACM Neto é visto como a grande esperança da direita conservadora, aquela herdeira (inclusive no sobrenome) da ditadura militar, para voltar ao poder na Bahia e, após, quiçá no plano nacional. Sucessor de um prefeito na capital baiana que deixou em atraso contas de limpeza e iluminação públicas, asfaltamento, fornecedores em geral da Prefeitura de Salvador, ACM Neto não precisou fazer muita coisa em seu primeiro ano para ganhar a simpatia da população: colocou essas contas em dia.

Tomado pela vaidade, contudo, de quem se enxerga como um salvador da pátria, cometeu erros e acertos na remodelação da Orla da cidade. Foi bem sucedido na revitalização da Pituba, da Boca do Rio, da Ribeira, mas gerou mais incômodos que benefícios na revitalização da Barra, do Rio Vermelho e de Itapoã. Os acertos se deram em todos os casos pelo mesmo motivo: todas as intervenções de “reformulação” ampliaram a presença do Estado, com mais iluminação pública, restauração e modernização de calçadas e mais policiamento no entorno; mas erraram ao não promover alternativas de integração modal (para o usuário poder estacionar o carro em um ponto mais tranquilo e ir de bondinho, ônibus ou bike – só esta última “funciona” - para o ponto desejado, como ocorre em cidades como Zurique, Nova Orleans, San Francisco, Viena), e ao não integrar a comunidade do entorno com esses novos espaços (por exemplo, disponibilizando banquinhas e quiosques operados pelas associações comunitárias dos bairros pobres mais próximos).

Geraldo Alckmin é visto como a opção mais provável de derrotar o PT no plano nacional em 2018, posição esta que parece mais forte dadas as denúncias recentes contra Aécio Neves no inquérito da Lava-Jato (verdadeiras ou não). Alckmin conta com um fator quase inercial de eleições sucessivas do PSDB no estado de São Paulo, não por mérito da gestão tucana – que, de certa forma, só tem piorado seus resultados desde os bons governos de 95 a 2006 -, mas pelo medo que o eleitor paulista tem de que, se entregue o governo do Estado ao PT, a segurança pública tenha uma piora significativa em pouco tempo, como ocorreu com Bahia e Distrito Federal, em 2007 e 2011, respectivamente. É o voto pelo medo do que o PT representa – falhas brutais na gestão policial –, e não pela aprovação dos resultados de um governo que deixou boa parte do estado de São Paulo sob ameaça de falta d´água.

O que quero dizer com este artigo é que vivemos hoje uma mediocridade absurda do mainstream político no Brasil. E boa parte dessa mediocridade se deve ao eleitor, que aceita gestores medíocres e, com medo das alternativas existentes, acaba elevando esses gestores a uma posição quase canonizada, hiperestimando suas qualidades e acertos, e varrendo para debaixo do tapete seus erros e defeitos. Temos nos tornado, todos nós, “cheer leaders” de partidos e pessoas, torcendo para um lado ou outro, e limitando nossa compreensão dos desafios da gestão pública a memes ignóbeis e apócrifos que pululam pelas redes sociais. Fizemos, todos nós, um grande pacto pela mediocridade. Pacto este do qual se beneficiam os nossos políticos corruptos ou incompetentes (ou ambos).

Enquanto isso, empresas privadas e entidades internacionais sabem reconhecer os méritos e a competência dos poucos bons homens públicos que passaram pelo Governo nos últimos anos, como Henrique Meireles, Armínio Fraga e, mais recentemente, Joaquim Levy. Será que essas empresas apostariam seus patrimônios em nomes que fossem medíocres e “cheios de si”, como os políticos citados no início deste artigo?

Victor C. F. de Sousa, é advogado, mestrando em economia, e autor do blog “Paladinos da Liberdade” (www.artousosvic.blogspot.com).

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