quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A Importância do Debate Público

Alguns amigos me questionam, e muitos fazem críticas em geral a esse tipo de conduta, sobre o porque de se “perder” tempo debatendo algum tema no Facebook. Conflito Israel – Palestina, gestão macroeconômica do Governo Dilma, Lei Seca, machismo x feminismo, e até temas pontuais e banais, a verdade é que cada vez mais as redes sociais têm se tornado um espaço para a manifestação da opinião de pessoas anônimas, cidadãos comuns, que procuram dar a sua opinião, às vezes fundamentada, ou nem sempre.

Até bem pouco tempo, e eu arriscaria dizer até a invenção da internet banda larga (a partir de quando não mais precisamos esperar até meia-noite para navegar “online”), apenas pessoas notórias tinham direito a expressar a sua opinião. Políticos, artistas, acadêmicos, celebridades momentâneas, empresários. O mundo dos “formadores de opinião” era um círculo VIP de acesso restrito. Tal como aconteceu na industria fonográfica, quebrou-se o monopólio dos meios de comunicação tradicionais, e a internet criou um cenário de anarquia autossuficiente que propicia novos espaços para o surgimento de novos talentos. Porque isso seria ruim?

Claro que com a popularização da liberdade de expressão vem a banalização, a mediocrização e os excessos. Mas mesmo considerando-se um exemplo hipotético de algum ser ignóbil que, mesmo iletrado, consegue angariar dezenas de milhares de “likes” e visualizações, isso é algo realmente inédito? É algo realmente ruim? O fato de termos mais informação circulando na internet, tornou o nível geral do acesso à informação pior? Penso que não.

O que tem ocorrido, e isso sim é um fenômeno – embora humanamente explicável -, é a segregação da leitura, das fontes de informação. Cada vez mais um leitor de blogs de direita fixa-se em estereótipos atribuídos ao nicho ideológico do qual faz parte – conservador nos costumes, liberal na economia -, e o mesmo ocorre na esquerda (liberal nos costumes, intervencionista na economia).

Isso mata a possibilidade de variações de pensamento: onde estão os liberais nos costumes e na economia, ou os conservadores nos costumes e intervencionistas na economia? Ironicamente, uma maior quantidade de acesso à informação tem nos conduzido a uma desertificação da pluralidade de ideias, e a uma bipolaridade emburrecedora.

Mas mesmo esse fenômeno não é de todo ruim, pois cíclico. Imagine o leitor a resposta para a seguinte pergunta: porque debatemos uma questão pública? Num almoço em família, no cafezinho no trabalho, num chat de whats app ou grupo do Facebook. Porque perder o nosso tempo tentando convencer o outro a entender o nosso pensamento? Exatamente por isso: para nos fazer entender. Um debate não é feito para ganhar ou para deslegitimar o outro (em que pese ser essa a prática quase majoritária nas redes sociais hoje). Um debate público é para expor os argumentos dos lados, tentar achar pontos de identificação, empatia, desconstruir mitos e inverdades bilaterais, aproximar os debatedores fazendo cada um enxergar no outro um ser humano honestamente motivado pela busca de um bem comum (ou de um interesse legítimo).

Num debate sempre os dois lados são vencedores, mesmo que provisoriamente um dos lados tenha argumentos melhores (ou mesmo tenha “razão”). Porque ganha a inteligência humana com a contraposição de ideias e a dissipação de zonas obscuras entre escolas de pensamento (e formação) aprioristicamente antagônicas.

O debate maniqueísta, que busca demonizar ou deslegitimar o outro, esse é o anti-debate. É apenas a Lei da Selva, o instinto animal que busca tirar do outro a condição de ser racional, e o resultado disso nada mais pode ser que não a radicalização das posições políticas, a intolerância e a pobreza do resultado final.

Como em Ronald Coase, não existe solução melhor que não aquela acordada de modo racional entre dois agentes em conflito por um mesmo bem escasso. Cada agente mede os seus ganhos e perdas, e ambos ponderam juntos em qual cenário de concordância possível a soma de perdas de ambos será a menor possível. Prevalecendo a lógica do conflito, do maniqueísmo, a tendência é o oposto: que os dois agentes se digladiem de modo tal que no fim a solução que prevalece é aquela de maior perda total. Também Jonh Nash alertava para esse fato.

É interessante como tantos intelectuais do passado estudaram os caminhos da irracionalidade, e como o ser humano abraça esses caminhos de modo animal, e mesmo hoje não conseguimos identificar o momento exato, numa tomada de decisão ou num debate público, em que a nossa agressividade nos conduz a uma perda geral para todos os envolvidos (mesmo os que se acham “vencedores”). Viva o debate público sem maniqueísmo, sem vencedores e perdedores, e focado apenas na compreensão e empatia mútuas. É possível?

Victor C. F. de Sousa, advogado e autor do blog Paladinos da Liberdade (www.artousosvic.blogspot.com).

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