quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Pontes Destruídas... ou como o Brasil instituiu uma Guerra Santa no debate público


São tempos difíceis para quem gosta de política. E por “política”, nessa frase, devem ser entendidos os vários significados possíveis.

Há a política eleitoral e eleitoreira, daqueles que vestem a camisa e empunham bandeiras de partidos e candidatos. Essa sempre foi sinônimo de um ambiente meio insalubre, com fanáticos de ambos lados defendendo o indefensável, repetindo como robôs e de forma acrítica um panfleto partidário, com o “pacote completo” da pauta a ser defendida. Cenário familiar? Voltaremos a esse ponto. Por ora, cumpre dizer que esse tipo de política era minoritária até bem pouco tempo atrás.

Há a política enquanto ciência, hobby para os “nerds de Humanas”. Esse povo que gosta de Stars Wars por causa das articulações políticas dentro do Império e da República, mas que dorme na hora dos tiros a laser e dos jatos super velozes. Esse povo que assiste TV Câmara e TV Senado como quem assiste a uma partida de futebol. Esses nerds peculiares que não entendem patavinas de computação ou de videogame, mas que sabem todos os presidentes da República Velha de cor.
A política enquanto ciência é um espetáculo excelente de se assistir, e mesmo quando você tende a simpatizar mais com um lado do que com o outro, ainda assim consegue enxergar as nuances do quadro geral com menos paixão do que os torcedores fanáticos de cada um dos times.

E há por fim a política enquanto gestão pública. A ideia de se discutir a formulação de políticas, de se pensar caminhos para o tal “bem comum”. Claro que esse tipo de política sempre foi alvo de achismos, fosse na academia (travestido de ciência), fosse nas redes sociais (quando o debate se limita a 140 caracteres, ou a um meme com meia dúzia de palavras e uma imagem sensacionalista). Mas algo mudou. Saímos do achismo propositivo - “eu penso que a solução pro Brasil seria... [e fala em algumas linhas uma jabuticaba qualquer, às vezes até provocativamente criativa]” - para o dogmatismo de adesão: você não pode propor nada seu, tudo tem que ser previamente chancelado por um coletivo, de preferência nos tais “pacotes completos” de um dos lados.

Há quem argumente que vivemos tempos melhores do que antes do debate político ser sinônimo de ânimos em chamas e rixas pessoais. Mais pessoas discutem política. Mais pessoas leem (?) ou assistem vídeos e ouvem notícias sobre política. E que, se por um lado cada vez mais estamos caminhando para um maniqueísmo intolerante, simplista e segregacionista, de outro lado esse cenário seria apenas provisório, pois ele nada mais refletiria senão uma temporária adolescência dos neófitos do debate público, ainda tateando as técnicas de retórica, erística, e de respeito ao próximo (ainda incipiente), no seu despertar para o gosto pela política.

Eu me lembro da minha época de colégio e de faculdade. Quando era fácil soar politizado e fazer amigos. Bastava ser de esquerda. Já havia um pacote completo de pautas a defender de forma acrítica. O status quo era da direita, e ser oposição era “cool”. Nada como 13 anos no poder na esfera federal para mudar esse quadro. O PT no poder fez surgir uma nova direita, convicta, orgulhosa, com capacidade de coesão em torno de algumas pautas (exatamente como era a esquerda antes de 2003). Porém, por serem esses adeptos da nova direita neófitos do debate público, alguns de seus membros se mostram iletrados, truculentos e fanáticos. Exatamente como era a esquerda antes de 2003.

Ainda, com o advento do impeachment, a maturidade conciliatória de parte da esquerda, desenvolvida ao longo dos seus 13 anos no poder, deu lugar a um desespero de ocasião, decorrente de um certo sentimento de violência pessoal sofrida por seus membros. Essa suposta “violência” nada mais é senão o ciclo natural de nova troca de status quo no poder (depois de 13 anos!). Mas o desespero, amigos, tal como ocorre também com a empolgação pueril dos neófitos da política, leva ao iletrismo, à truculência e à intolerância. Hoje em nosso país direita e esquerda se completam nesse balé macabro que se tornou o debate público, com seus memes, xingamentos, e poucos livros na estante.
Falei sobre outros dois tipos de política que restam preteridos num cenário como o que vivemos: a política como ciência, de quem observa os movimentos de cada lado como quem assiste a uma partida de futebol; e a política como espaço para construção de ferramentas sociais de gestão. Se ambos “lados” se comportam como se houvesse apenas eles no rol de opiniões possíveis, é natural que classifiquem qualquer um que não esteja em sua esfera de “pacote completo” como se fosse membro do time oposto. E tanto observadores da política (hobby) quanto debatedores da política (gestão) são sugados pelo redemoinho da demonização do diferente, da redução de conceitos e percepções outrora plurais a uma perfeita narrativa que interessa apenas para justificar a adesão aos “pacotes completos” dos times contendores.

Sim, são tempos difíceis estes, em que a política eleitoreira se torna tão hipertrofiada que faz morrer as outras duas formas de se fazer política. Cria-se um caldo generalista que deslegitima qualquer fala em sentido oposto ao utilitarismo de ocasião.
Mas tal como os otimistas a que me referi algumas linhas acima, eu também torço para que essa adolescência dos neófitos do debate público passe logo, e que os fanáticos eleitoreiros, que eram minoria até há alguns anos, voltem ao seu espaço de origem: serem meros levantadores de pompom, cheer leaders que terceirizam o seu pensamento crítico em troca da defesa robótica de panfletos partidários. E torço para que a política volte a ser protagonizada pelos que a enxergam como hobby ou gestão, ainda que o número de participantes do debate público aumente, como naturalmente tende a aumentar, tão logo passe a fase de adolescência dos neófitos e de desespero dos que se sentem violentados pela perda do status quo.

A inconsistência teórica e a inexigibilidade de indícios fáticos mais objetivos marcam o cerne dos debates sobre qualquer questão nas redes sociais. Democratizamos o ativismo, mas essa massificação trouxe consigo o nivelamento por baixo. É preciso ler, e ler muito, para além das zonas de conforto que a bibliografia fechada de um ou outro time oferecem. É preciso devorar informações, diversificar as fontes, desenvolver a empatia na lide com o outro. Sem isso, o nível do debate não vai se elevar.
Precisamos de pontes para identificar pautas comuns entre os dois lados, estradas para ir além do simplismo de ocasião e dos argumentos já pré-fixados, e marretas para quebrar os muros do maniqueísmo que nos torna cegos e limitados em nossos argumentos. Ou então a política logo deixará de se chamar política, e poderá ser chamada apenas de “jihad”.

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