terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Fenômeno Trump. Ou: Ser Apenas Consumidor Já Não Basta

A eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos trouxe consigo a conclusão de boa parte da ciência política e social no sentido de que, com democracias representativas cada vez mais formais, inseridas em uma globalização cada vez mais voraz e impessoal, a tendência daqui pra frente é que seja mais comum a vitória de candidatos e projetos políticos populistas e antissistema.

Pegando o exemplo da América Latina: Chávez venceu como uma revanche histórica das décadas de democracia oligarca que excluía os mais pobres do establishment político venezuelano; Cristina Kirchner rompeu o pacto político de conciliação que seu marido havia implementado em 2003, mas ainda assim encontrou sustentação com base numa fobia anti-capitalista que ainda existia na Argentina, fruto da crise em que o país se encontrava desde 1999. Na Europa, Grécia e Espanha priorizaram partidos de extrema esquerda em resposta ao hiato de diálogo entre desemprego e austeridade; a Itália se dividiu entre o niilismo de um palhaço profissional e a demagogia de um palhaço involuntário; e a extrema direita voltou a ganhar força na Inglaterra e na França.

O populismo já ganhava escala na América Latina e na Europa a partir de meados do fim dos anos 90, na primeira, e a partir da crise de 2007/2008, na segunda. Nos dois casos, o populismo foi fruto de frustrações gerais ante promessas douradas do passado: na América Latina, de que a redemocratização pós-Guerra Fria, casada com o Consenso de Washington, seriam suficientes para prover-lhes padrões de vida europeus, mesmo sem grandes avanços prévios em termos institucionais, econômicos ou de capital humano. Na Europa, o boom mercadológico e de geração de riqueza, fruto da abertura econômica do Euro, iludiu e maquilou os povos europeus quanto à necessidade de continuar competindo e se aperfeiçoando: não existe redenção num mundo sob livre mercado.

Os Estados Unidos eram a última trincheira do liberalismo aristocrata vitoriano, aquele em que os grandes pactos entre empresários, fidalgos, intelectuais e líderes classistas, são firmados nos bastidores do poder, enquanto as massas se contentam com o teatro do voto e com os incrementos em consumo e bem-estar – incrementos estes mais comuns em regimes com maior estabilidade política e mais isentos ao vírus do populismo. Mas a eleição de Donald Trump rompeu essa zona de conforto, e mesmo a maior potência do mundo hoje se rendeu ao caminho tortuoso e incerto da democracia “direta” (em que um líder carismático comove as massas a destruírem tudo e todos em nome de uma solução simples e equivocada para problemas complexos).

A verdadeira lição da vitória de Trump foi: para as grandes massas, ser somente consumidor já não basta. O ser humano precisa se sentir parte de algo maior. Alguns buscam a religião, em sua esfera moral (e talvez isso explique o aumento da participação de evangélicos na política no Brasil, além da popularidade de temas ligados à moral, inversamente proporcional à sua relevância). Mas e no campo da política? Há apenas o vácuo. Os marxistas ainda possuem o conforto espiritual de terem certeza de tudo o que está errado e de toda a engenharia social que precisa ser feita, mas não entendem porque não conseguem convencer os outros 95% de que suas ideias são milagrosas e redentoras. Mas saindo do campo dos delírios, haveria espaço na política para reintegrar os cidadãos à condição de parte de uma comunidade, como sujeitos da história nos rumos da soberania e da democracia de seus países?

Penso que sim. E arrisco dizer que o caminho para isso passa pela construção de espaços não-capitalistas dentro de estruturas institucionais capitalistas: ser conservador na escala, e revolucionário na margem. Construir um arcabouço institucional que estimule o livre mercado e a livre iniciativa, trazendo competitividade para a economia nacional, com responsabilidade fiscal nas contas e estímulo a investimentos internos e externos. Mas com o excedente do dinheiro dos tributos, para além do receituário batido de saúde, educação e segurança, devemos construir zonas de “produção comunitária”, uma espécie de integração entre a economia solidária das cooperativas e o federalismo comunitário dos serviços públicos locais.

O cidadão, hoje apenas consumidor, se tornará de fato “sujeito na história” quando puder escolher livremente entre a plena vivência do livre mercado, com sua competitividade, seu trabalho duro, sua necessidade de estar sempre atento e forte, ou a vivência em prol da comunidade. Para isso, necessário reduzir a proporção de gastos correntes (gastos com manutenção da máquina administrativa), e reservar uma parcela do montante de impostos para custear mercados incompletos de produção, em formato jurídico de cooperativas e iniciativas comunitárias, com ações em prol da educação, do meio ambiente, da cultura, do turismo, da qualidade de vida, e até mesmo de pequenas intervenções em infraestrutura.

Traduzindo a minha proposta de forma mais direta: ao invés de contratarmos centenas de milhares de servidores públicos, e seus altos salários e privilégios, para cada campo de política pública onde ainda há déficit de sua boa prestação, o Estado montaria estruturas locais, como associações comunitárias, para cuidar de nossas escolas, hospitais, pontos turísticos, parques e zonas de proteção ambiental, dando sempre prioridade de contratação às próprias comunidades locais (um exemplo mais óbvio seria a proteção de unidades de conservação com a utilização de mão de obra indígena e quilombola).

Para isso, é preciso mudar a lei. Mudar até mesmo a Constituição. Mas principalmente, é preciso mudar a cabeça das pessoas. Enxergar que o capitalismo é apenas uma ferramenta de fomento à circulação de bens e serviços. Não é um fim em si mesmo, nem pode ser tratado como um norte ético ou moral. É preciso que as pessoas possam sair da escola sem se preocupar em se inserir no mercado, se assim não quiserem, pois poderão abrir mão da possibilidade de serem ricas – haverá os que se candidatarão a esse papel na competição do livre mercado -, e viver à margem do capitalismo. Aquela brincadeira de Orkut de “se nada der certo, vou largar tudo e virar hippie” não precisa ser tão brincadeira assim, nem tão niilista quanto o termo “hippie” sugere.

Parece ingênuo e louco, mas com os índices certos de poupança pública e privada, essa proposta é muito mais realista e pragmática do que parece a uma primeira leitura. Ou permanecendo o tipo de sociedade em que se chama de individualismo o que na verdade é apenas isolacionismo ético e desespero niilista, tal como explicitado na série de TV “Black Mirror”, logo logo estaremos achando a eleição de Trump brincadeira de criança perto do que ainda está por vir.

Mais uma vez: para que a democracia representativa e o capitalismo funcionem, ser consumidor somente já não basta. Que o livre mercado ocupe 80 ou 90% do espaço de regulação institucional, mas que tenhamos 10 ou 20% de instituições voltadas ao fomento da vida em comunidade. Direi novamente: o segredo do sucesso em políticas públicas, e essa é uma lição antiga da economia, é ser conservador na escala e revolucionário na margem.

Victor C. F. de Sousa, Brasília-DF, novembro de 2016.

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