quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

É Possível Prever 2018?

É natural que, dada a polarização que caracterizou as nossas últimas seis eleições presidenciais, todas as principais especulações sobre 2018 se deem em torno da dupla de partidos antípodas PT x PSDB. “Lula será candidato”? “O PSDB vai de Alckmin ou Aécio”? Paralelo ao bloco principal, a essa disputa Senna vs. Prost da política brasileira nos últimos 22 anos, surgem outros nomes da terceira via, cada um com o seu nicho de mercado eleitoral, mas agora finalmente em caráter competitivo real (fruto do enfraquecimento que PT e PSDB sofreram em sua luta fratricida dos últimos 2 anos e meio). Há muitos Ricardos Patreses e Jeans Alesis para tentar uma pole position em 2018.

Marina Silva se aproveita do recall das duas últimas eleições, em que ficou em terceiro lugar em ambas, para tentar surgir dos escombros da institucionalidade pós-impeachment como uma liderança política autêntica, ainda fundada no discurso biográfico (a seringueira pobre e analfabeta que virou professora e liderança política local) e na pauta neutra e moralmente “superior” (quem não quer um meio ambiente equilibrado?).

Ciro Gomes também traz um pouco do recall da eleição de 2002, como “aquele que poderia ter sido Presidente e não foi”, usando a sua biografia de gestor para se contrapor ao PT, por um lado – ele sabe lidar com gestão fiscal e combater o endividamento, como fez no Ceará -, e ao PSDB por outro: o Ceará venceu a seca e teve incrementos significativos em infraestrutura e educação, áreas que não seriam prioridade numa gestão neoliberal do PSDB, na visão de Ciro. Mas o Brasil é mais complexo e com problemas maiores de se resolver do que o Ceará.

Se Marina apela para a mitologia política e Ciro para uma meritocracia local, Jair Bolsonaro tem na moral o cerne da razão de ser de sua candidatura. Como todo líder de apelo populista, confunde atributos pessoais – força, caráter, intransigência – com pauta de governo, e tenta (e consegue, para muitos) vender a ilusão de que basta vontade política, honestidade e alguns elementos de semiótica vazia (ordem, disciplina, família) para resolver problemas complexos de gestão econômica, articulação política e inovação administrativa.

Em todo caso, nenhum dos três possui base política para representar um programa de união nacional. Nenhum dos três possui uma militância partidária (Bolsonaro é o único que possui uma militância fiel, porém anti-partidos e anti-instituições políticas) que ganhe as ruas, por um lado, e de outro empresários, lideranças regionais e articuladores políticos, que lhes garantam o mínimo de governabilidade à frente do Executivo federal (e falo de governabilidade, não de maioria parlamentar). Mesmo para formação do quadro ministerial, se vencessem, qualquer um dos três teria que apelar ao empréstimo de quadros de outros partidos e candidatos.

Encerrada a abordagem das cinco candidaturas mais certas de concorrer (PT, PSDB, Marina, Ciro e Bolsonaro), passemos aos cenários mais remotos, mas que podem surpreender em 2018.

Pelo PMDB, o mais provável é que, encerrando Temer o mandato em dezembro de 2018 sem grandes colapsos econômicos ou políticos (ou seja, sendo mais um Itamar que um Sarney), Henrique Meirelles ou Nelson Jobim surgem como candidatos naturais do PMDB à Presidência. Podem ganhar ou perder, mas tirarão votos do PSDB, e também de parte da antiga base de apoio lulista em 2010 e 2014, especialmente no Nordeste. O problema de ambos é um só: a idade. Septuagenários ambos, concorreriam apenas a um mandato tampão até 2022, abrindo margem às novas lideranças políticas, hoje nas faixas dos 40 ou 50 anos, algumas delas as quais abordaremos mais abaixo.

Também septuagenária, a Senadora Ana Amélia, se fosse 15 ou 20 anos mais nova, seria uma liderança forte, conciliadora e habilidosa politicamente, com trânsito entre os dois “lados”, para liderar o condomínio de interesses que precisam convergir para nos tirar da crise. Ainda assim, a senadora surge forte como opção de vice na chapa do PMDB ou do PSDB, caso um dos dois se alie ao PP da Senadora. Outro que pela idade surge como forte candidato a vice, provavelmente de Marina ou da candidatura do PSB, é o Senador Cristóvam Buarque, uma voz razoável em favor da reconstrução das pontes de diálogo que foram destruídas na política brasileira, especialmente de 2014 para cá. Como aprendemos em 2016, os vices importam, e Ana Amélia e Cristóvam surgem como donzelas juramentadas dos potenciais cabeças de chapa dos demais partidos.

Falemos então dos jovens. O PSB poderá lançar a candidatura de Renato Casagrande, ex-governador do Espírito Santo e atual presidente da Fundação do Partido, ou de Paulo Câmara, governador de Pernambuco e herdeiro político de Eduardo Campos, alavancado pelo boom educacional e econômico que Pernambuco teve nos últimos 10 anos (estaria para Pernambuco como Ciro está para o Ceará).

O PSB poderá também obter a filiação de Joaquim Barbosa, e lançar o ex-Ministro do STF como seu cabeça de chapa, como aliás o partido tradicionalmente faz desde 2002: escolher uma personalidade externa ao partido e lançá-la como candidato à Presidência. Seja qualquer das três opções, o PSB é hoje o partido mais parecido com o que o PSDB era em 1994: uma centro-esquerda vanguardista, liberal nos costumes e conservadora na economia. Há vácuo de representação nesse espectro ideológico hoje no Brasil, inclusive deste que vos escreve.

Por sua vez, a esquerda mais tradicional tem boas lideranças em ascensão, e cito aqui Flávio Dino, atual governador do Maranhão, Fernando Haddad, ex-Prefeito de São Paulo, e Alessandro Molon, uma das vozes mais lúcidas do Congresso Nacional hoje (e que fez uma campanha bela, empolgante e inspiradora a prefeito do Rio de Janeiro, infelizmente tão fracassada quanto sincera). Mas os três ainda se preparam muito mais para 2022, quando não mais existirá a ressaca pós-Dilma e a sombra de Lula. Ainda assim, serão interlocutores importantes para uma eventual governabilidade do Executivo, caso vençam a eleição Marina, Ciro, ou a candidatura do PSB.

Haddad errou ao tentar governar para uma fatia hipster da classe média de São Paulo, e esqueceu que o discurso mais ao centro importa para viabilizar políticas sociais mais à esquerda (Lula sabe bem disso). Dino tenta mostrar no Maranhão que o melhor ajuste fiscal e ganho de eficiência na máquina se dá com a ruptura dos velhos vícios de corrupção que existem no Brasil, e no Maranhão esses vícios possuem nome e sobrenome. Creio que todo o Brasil torce para que a sua tese se confirme e ele seja bem-sucedido nessa missão. Ambos têm um longo caminho pela frente até 2022. Molon ainda precisa ajudar a Rede a encontrar a sua fatia do eleitorado, e parar de ser vista como um “puxadinho do PT”.

Atualmente no PMDB, mas provavelmente uma futura migrante para um partido mais uníssono onde ela possa brilhar, Simone Tebet é a menina de ouro do Centrão. Com experiência administrativa, jovem, talentosa, boa na oratória e na retórica, ponderada o suficiente para escolher as pautas certas e articulá-las com a habilidade que o pai dela tinha e a qual herdou, ainda não é a hora dela, mas poderá ser em breve. Falta talvez uma legenda partidária de centro-direita – quem sabe o DEM ou o PSD? – que possa recebê-la, também pensando em 2022.

Kátia Abreu e Armando Monteiro, senadores e ex-ministros de Dilma, também se absterão de 2018 (também vítimas da ressaca pós-Dilma), e se projetarão como articuladores políticos fortes em 2022, quem sabe futuros vices de uma candidatura Tebet.

Rodrigo Maia pode chegar forte em 2018 – e esse é o momento dele, não depois – se conseguir garantir a sua reeleição à frente da Câmara dos Deputados, e não cair na tentação preguiçosa de ser apenas um apêndice em uma candidatura do PSDB. Esse erro, diga-se, tem sido reiteradamente cometido pelo DEM nas últimas três eleições, fazendo o partido encolher de forma significativa desde então.

José Reguffe representa o “novo na política”, defensor da responsabilidade fiscal, da transparência e controle de gestão, da meritocracia e redução da máquina – um tecnocrata apolítico, como João Dória, eleito recentemente prefeito de São Paulo. Na mesma linha, Magno Malta nada por fora para 2018, de um lado com um forte discurso webberiano da ética protestante do capitalismo com consciência coletiva, e de outro escolhendo pautas de forte apelo junto à classe média apolítica, como a relatoria na CPI de Combate à Pedofilia. O apoio de ambos, incondicional, às ações do juiz Sérgio Moro, demonstra que talvez eles possam almejar uma cabeça de chapa já em 2018, ambos no auge de suas visibilidades políticas. Essa é a hora para ambos, não depois.

O que me incomoda nos “apolíticos” é que esse orgulho da não-ideologia pode levar a um vácuo de plataforma de gestão semelhante à mesma ideia da “gerentona” que elegeu Dilma em 2010 e 2014, mas que, justamente pela ausência de um norte ideológico, tornou-a refém das pautas mais populistas e imediatistas possíveis e imagináveis. Por isso os partidos importam. Sem os partidos fortificados como espaços de construção de uma verdade política, e de qualificação do debate público, 2018 repetirá os erros de 2014, em que havia apenas nomes, e não programas ou ideias.
Mas eu, ao contrário do pessimismo que reina nas redes sociais e rodas de conversas em 2016, vislumbro uma eleição em 2018 vibrante e com muitas opções, sim. Acho, contudo, que as lideranças políticas de hoje ainda são como os jogadores da Seleção Brasileira em 2014: ou muito jovens ou muito velhos, nenhum totalmente pronto para o tamanho do desafio. O 7 x 1 está em curso, já estamos tomando de goleada por conta da crise econômica e política que vivemos. A questão é saber se em 2018 já conseguiremos nos reerguer, dados os nomes listados ao longo deste texto, ou se teremos que esperar os talentos que ainda estão em formação para 2022. Não, não é de forma alguma possível prever 2018.

Victor C. F. de Sousa, Brasília-DF, dezembro de 2016.

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