segunda-feira, 24 de julho de 2017

Algumas Lições de Política em Game of Thrones

Muito já foi escrito, no Brasil e no exterior, sobre as lições que o seriado Game of Thrones, da HBO, traz em termos de ciência política. Eu mesmo me lembro do meu orientador de mestrado (na época em nem assistia à série) conquistando a turma com uma explicação de como GoT trazia lições importantes para compreender a disciplina da Economia das Instituições. Vou me permitir arriscar algumas lições de política que eu apreendi da série, numa visão bem idiossincrática. Espero que seja do agrado do leitor.

Imagine que as fronteiras do Mundo ainda são mutáveis, que o expansionismo territorial é ainda uma estratégia de crescimento econômico e acumulação de poder geopolítico, e que você dispõe de matéria prima que te permite produzir armas mais eficazes contra os seus inimigos, e em seguida conquistá-los. É uma consequência natural formar bons exércitos e partir para a guerra, não? Foi exatamente o que fez Harren Negro, fundador de Harrenhal, um “nascido do ferro” das Iron Islands: dominou toda a faixa central de Westeros, expulsando seus inimigos e controlando uma fatia geograficamente estratégica do continente, isolando o Norte e Dorne. Assim se formaram os primeiros reinos da História da Humanidade, nas idades do Bronze e do Ferro, as primeiras organizações protoestatais e as primeiras estruturas de poder conhecidas.

Agora imagine que esse mesmo conquistador se impôs exclusivamente pela força, estimulando guerras civis, adotando atitudes que boicotavam a prosperidade de comerciantes e produtores rurais, e sem legitimidade perante os seus subordinados. Mais cedo ou mais tarde a inovação tecnológica torna pequenos aqueles que se recusaram a crescer. No mundo fantástico de Westeros, essa inovação veio pela forma de dragões, e uma dinastia que perduraria isolada dos indivíduos comuns, quase como semideuses, casando irmão com irmãos, mas com força suficiente para manter a paz através do medo. “Melhor ser temido do que ser amado”, diria Maquiavel. Assim foram os Targaryens.

O problema do medo é que ele só dura enquanto durar a força. Enquanto Twyn Lanninster foi Mão do Rei Louco, um “primeiro ministro” duro o suficiente para manter a hierarquia da Coroa, mas flexível o suficiente para fazer com que seus aliados enxergassem a prosperidade que a sua gestão trazia, o Reino prosperou como nunca antes na história de Westeros. A saída de Twyn, pelo ego ferido de um Rei sem condições de exercer o cargo, irascível e sem aliados (eu ouvi “Dilma Rousseff”?), fez emergir a realidade de que a força dos dragões tinha desaparecido, e a paz imposta pelo medo deu lugar à revolução. Aerys sofreu um golpe. Lembram de como a família real russa caiu diante de uma revolução interna, quando as tropas que poderiam defendê-la estavam no exterior, numa guerra desnecessária contra os austro-húngaros?

Robert Baratheon foi um governante inspirador, amado mais do que temido: perdoou insurgentes, baixou impostos, deu agrados a lordes estratégicos, evitou decisões difíceis. Em troca, deixou um rombo enorme no Tesouro da Coroa, e enfraqueceu o poderio militar de King´s Landing. Apesar de ter sido morto por uma conspiração amorosa / doméstica, o que se seguiu à morte de Robert foi a prova de que ele não governava: um completo caos, sem um equilíbrio de forças políticas que escolhesse a composição em detrimento da anarquia e do fratricídio. Lula foi um pouco Robert: simpático, amado, e extremamente conivente com todos os corruptos que depois harpeariam o PT do poder.

Jon Arryn, o primeiro Mão do Rei (por 17 anos), era um homem velho e sem energia (como FHC hoje, e ainda há os que acham que ele teria condições de assumir a Presidência se Temer cair); e Ned Stark, o primeiro-ministro que se seguiu, era tão íntegro e intransigente, que simplesmente construía para si a ilusão de uma gestão honesta, enquanto todo o resto do mundo desabava ao seu redor. Esse mundo de Poliana durou até o momento em que sua garganta foi cortada, pelo simples fato de não entender que o mundo real é formado por uma paleta de dezenas de tons de cinza, e não pelo maniqueísmo do “preto x branco”. Bem-intencionado, honesto, e incompetente.

Ou: não se pode conter um maremoto com um muro de reboco, Ned. Há forças políticas com as quais se compõe, o contrato é sempre melhor do que o conflito, especialmente quando a derrota no conflito é certa – isso quando se trata da coisa pública, claro, sacrifícios deontológicos (do “herói destemido”) são muito bem-vindos quando a perda é meramente individual. Ciro Gomes e Marina Silva me lembram muito Ned Stark e seu filho Robb: bem-intencionados, porém incapazes de ceder um milímetro para fazer alianças, de escolher prioridades e ceder naquilo que não é tão importante. É a tentação dos “iluminados”, os que se acham moralmente superiores aos demais.

É inútil falar sobre Joffrey e Tommen. Muito já foi dito sobre eles. O primeiro foi melhor explicado pelo primeiro Lorde Bolton: “aja como um cachorro raivoso, e você terá o tratamento de um”. Essa frase foi dita para seu filho Ramsay, o segundo Lorde Bolton, e ambos – Joffrey e Ramsay – tiveram o mesmo fim de todos os déspotas ao longo da História (Stalin foi o único que morreu tranquilo em sua cama): morreram derrotados por insurgentes motivados pelos seus próprios desejos de liberdade (essa utopia irrefreável dos anseios humanos!). Tommem foi apenas uma vírgula na história, como há tantas em tantos países (no Brasil, diversos!): líderes fracos, que apenas são lembrados por terem sido um hiato entre líderes de destaque. E chegamos à disputa entre Cersei e Daenerys, que permeia esta 7ª temporada da série.

Se Cersei fosse Twyn, ela teria o meu voto: Twyn me lembra muito Henrique Meirelles, como Joaquim Levy lembra Lorde Jon Connington, de Poleiro do Grifo. Mas Cersei está mais para o Rei Louco (Dilma): isolada em seu Trono de Ferro, orgulhosa demais para construir alianças, viciada em bajulação, desacostumada ao contraditório, e com uma mente limitada o suficiente para só entender alianças sob a ótica privada da lealdade pessoal. Um líder assim não se permite jamais um olhar republicano, de fazer convergir interesses contraditórios em torno de um projeto maior. Daenerys é uma incógnita: alternou momentos de “necessidade de afirmação”, quando todos a enxergavam como uma menina mimada e ela teve que agir como déspota para obter a paz pelo medo, com momentos de sabedoria e recuos estratégicos. Não é possível dizer qual das duas “Danys” prevalecerá.

Por fim, Jon Snow reproduz a saga clássica do herói: subutilizado em uma vida medíocre, ele sai da zona de conforto e se arrisca em uma jornada na qual tem pouco a perder e muito a aprender. Aprende lições importantes de humildade e perseverança, e consegue ser um líder mais perspicaz que seu primo (spoiler?) Robb e seu tio (spoiler?) Ned, transigente o bastante para enxergar os interesses dos seus interlocutores como legítimos, para depois medir a força desses mesmos interlocutores e desenhar a melhor estratégia para fazer prevalecer os interesses do seu povo. No caso, a construção de alianças para derrotar os White Walkers.

É verdade que sem sua irmã Sansa ele teria perdido a Batalha dos Bastardos. Mas o que é um grande líder senão um poço onde outras pessoas depositam a sua confiança, na certeza de que “se eu dedicar esforços pelo sucesso desse líder, vislumbrarei um futuro de prosperidade”? Sansa investiu seu capital político em Jon não apenas por amor, mas porque viu nele a segurança que ela almeja obter, de uma vida em paz, depois dos horrores vividos nas mãos do ex-noivo Joffrey e do ex-marido Ramsay (no livro esse segundo não se casa com ela, mas ela sofre igualmente na mão da tia louca, a Senhora do Vale).

É verdade que este texto não poderia terminar sem mencionar Mindinho, Lorde Petyr Baelish: assim como Jon Snow, ele abandonou uma vida medíocre, em que seu talento era subestimado por estratificações sociais ineficientes, e montou negócios como um empreendedor liberal, comprando o poder através de empréstimo de dinheiro e favores a lordes falidos. Lorde Baelish é a tradução do que foi a ascensão da Burguesia na Europa Moderna, culminando na Revolução Gloriosa inglesa, na Companhia das Índias Ocidentais holandesa, no surgimento dos Flandres e do Vale do Ruhr, na Reforma Protestante, e nos marcos civis modernos (francês e germânico).

Mindinho é o capitalismo de valores liberais e democratas, pelos quais Churchill e DeGaulle conclamariam o mundo a defender durante a Segunda Grande Guerra. Não, eu não confio em Mindinho, como eu não confio em Mark Zuckerberg. Mas não tem como não dizer a cada movimento dele: “que homão da porra!”. Apesar de todos torcermos por um final redentor, em que Daenerys ou Jon reinam como “déspotas esclarecidos”, é Mindinho que melhor traduz o maior dilema da democracia: a liberdade pressupõe responsabilidade, a meritocracia (no caso de Mindinho, inegavelmente ele rompeu estratos sociais!) pressupõe esforço e trabalho, e ao cidadão comum cumpre construir o seu próprio destino, ao invés de jogar “cara e coroa” com líderes que podem em um momento ser como Twyn e Jon, e em outro como Aerys e Cersei. Eu prefiro não jogar com a minha liberdade.

Victor C. F. de Sousa, Brasília/DF, julho de 2017.

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