sábado, 21 de outubro de 2017

A Escatologia é uma Arma Política?


Dentre os fatos bizarros que temos presenciado no debate político no Brasil, de 2014 para cá, talvez um dos mais notáveis em sua bizarrice tenha sido a invasão de um museu de arte moderna por um grupo de extrema direita, interrompendo uma performance de um ator nu que interagia com a plateia. Ainda mais bizarra foi a acusação feita por lideranças políticas presidenciáveis, de que o ator estaria cometendo crime de pedofilia (por haver duas crianças na plateia, acompanhadas dos pais).

Pois bem, cabe discutirmos o que é arte, ou quais os limites para a performance artística, o que deixo de “easter egg” para o leitor no fim do texto. Para as linhas que seguem, peço que abra um pouco a cabeça e esqueça alguns rótulos. Vamos discutir ideias abstratas o suficiente para irritarem simultaneamente radicais de esquerda e de direita.

Fato é que a performance do ator nu no museu de arte moderna de São Paulo não é inovadora e não está sozinha no mundo da arte – no Brasil e no exterior. Uma artista europeia nos anos 70 se deixava bulinar pela plateia, Jonh e Yoko posaram pelados numa cama para protestar contra sabe-se lá o que, centros acadêmicos do Brasil e do mundo fazem performances de nudez, masturbação e ode ao ânus, e recentemente uma artista da América Central fez uma performance (em diversos países) que consistia em ser urinada por figurantes. A escatologia veio para ficar. Mas porque ela é tão “atraente”?

Meu palpite é que a escatologia é vista como uma ferramenta política por quem dela faz uso. E a escatologia é uma ferramenta política porque ela subverte o padrão estético tradicional, e vai além. A escatologia, representada não pela nudez em si, mas pela nudez acrescida de algum tipo de sadismo ou excrescência corpórea, seria o oposto da harmonia estética que a arte burguesa sempre representou.

O próprio representante do MBL, movimento de extrema direita que interrompeu a performance do artista peladão no MAM de SP, defendeu a ideia de não se tratar aquela peça de “arte”, pois supostamente a arte deveria “representar o Belo” (o que deu origem a memes excelentes envolvendo o ex-vocalista da banda de pagode Soweto). Tosquices à parte, a declaração do MBL não poderia estar mais equivocada, e acaba dando razão aos artistas e militantes que fazem uso da escatologia como elemento de subversão dos padrões, e de mobilização e aglutinação política.

Slavoj Zizek, um filósofo esloveno de quem particularmente gosto bastante e discordo na mesma medida da minha admiração, disse certa vez, talvez na primeira entrevista dele que eu li (à Revista Filosofia Hoje, creio que em 2011), que era obrigação da Esquerda pelo mundo subverter as noções de moeda, combate à inflação e responsabilidade fiscal. Defendia Zizek que as concessões da Esquerda às comodidades do mercado deixavam a luta de classes amolecida, desmobilizavam o proletariado ao engordá-lo com as benesses do consumo e da tecnologia.

Por essa lógica, proletário revolucionário é aquele que leva uma vida dura, sofrida, e não o que vai ao shopping, assina TV a cabo ou tem uma poupancinha no banco. Seria o diferencial entre um José Rainha (notório líder do MST nos anos 90, renegado ao ostracismo do campo) e Lula (supostamente cooptado pelos doces prazeres da burguesia). Podemos aplicar esse raciocínio também ao uso da escatologia como manifestação artística/política: ao contrário da Tropicália dos anos 60/70, que unia subversões estéticas à qualidade e ao talento raros de seus protagonistas, a escatologia dos novos artistas da Esquerda apela ao ordinário, ao banal, àquilo que fazemos quando ninguém está olhando (e não me refiro às elaboradas tramas de Nelson Rodrigues e Tennessee Williams, mas ao número 1 e número 2 da latrina mesmo!).

A escatologia faz ruir o mundo cor de rosa da burguesia, reduz toda esperança e romantismo ao que existe de mais podre no ser humano e, assim, abre o caminho para um niilismo deontológico que, em última instância, detona as bases da utopia liberal. O liberalismo é na essência uma doutrina de proteção dos fracos: direito ao voto, direito à propriedade privada, direito à integridade física e moral, direito à privacidade... direitos que são garantidos por agentes fortes, mas providos a pessoas fracas (crianças, mulheres, idosos, deficientes). O liberalismo é a negação do niilismo nietzscheano que só reconhecia direitos a quem tivesse força e atitude para tomá-los. Exatamente como na lógica revolucionária trotskista ou maoista: você é o que você é capaz de tomar à base da força.

Usar a escatologia como ferramenta de aglutinação da militância revolucionária é banir qualquer esperança do horizonte, e assim, desesperançosa, a Humanidade esquece valores deontológicos e parte para o utilitarismo puro e simples: tomar à força o que é nosso não por direito, mas por possibilidade. Fazendo analogia com o pensamento de Zizek: a arte, quando representa algo fascinante (por inovação, criação, superação, talento, estética), deixa o proletário “mole” e “acomodado”. A escatologia, substituindo a arte nas performances modernas, traz o conflito de volta à tona. E é disso que precisamos (eles precisam) para fazer a revolução das massas.

Por isso é compreensível performances bizarras como as que temos visto, sempre envolvendo ânus, mijo, masturbação etc. Para os verdadeiros revolucionários, a arte que buscava deslumbrar e arrematar elogios (como, por exemplo, os belos versos e acordes das músicas de Chico Buarque), essa arte que se encaixa no conceito burguês de “bom gosto”, ela jamais resultará em revolução. A boa notícia é que ela continuará apenas em guetos militantes para meia dúzia de radicais. Logo, proibir ou censurar é inútil: se você não considera isso arte, seja pelos seus padrões estéticos serem mais tradicionais, ou seja por que não está comprometido com a causa revolucionária, simplesmente ignore.

Victor Castro F. de Sousa, Brasília/DF, outubro de 2017.

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