quinta-feira, 29 de março de 2018

Quem Criou os Bolsominions?

Bolsominions, para quem não está familiarizado com os memes de política brasileira nas redes sociais, seriam não apenas (ou não todos) os eleitores do político Jair Bolsonaro, mas aqueles debatedores afeitos ao que existe de mais retrógrado no pensamento político e científico: castração química de estupradores, hediondez para crimes de colarinho branco, porte de armas indiscriminado, proibição de adoção de crianças por casais gays, retrocesso na demarcação de áreas indígenas e quilombolas, banalização do uso da força letal pela polícia, e mais recentemente a doce ilusão de que privatizar todas as estatais nos conduziria a uma gestão pública mais eficiente. Enfim, aquele repertório cheio de convicções e com pouca ou nenhuma evidência científica.

Mas como essas pessoas, que mais parecem uma versão caricata e piorada (do ponto de vista de projeto) do ex-ditador Garrastazu Médici, saíram do armário e se tornaram uma minoria não tão minoritária assim (hoje cerca de 10 a 15% do eleitorado brasileiro), e majoritária em sua capacidade de fazer barulho e criar factoides nas redes sociais? Eu tenho uma hipótese, a qual compartilharei com o atento leitor. Mas antes, uma breve história do tempo, no que se refere à política brasileira.

Nós sempre fomos apegados a uma baixaria política, o que é natural para um país com baixo grau de instrução (inclusive da própria elite), como historicamente é o nosso Brasil. Collor venceu as eleições presidenciais graças à difamação que fez contra Lula, com as estórias do aparelho de som do sindicalista (“melhor que o meu, logo, Lula é rico”) e do suposto aborto que Lula teria pago para uma ex-amante. Isso em 1989 – o Fla x Flu não é uma novidade. Em 98 tivemos o “dossiê da pasta cor-de-rosa”, surgido de uma ruptura interna do Governo FHC, e já predizendo escândalos similares, como os das quebras de sigilos bancário e fiscal em 2006 e 2010, supostamente a mando dos detentores do poder, e que atingiu igualmente pessoas ligadas ao PT e ao PSDB (inclusive com leilão de dossiês). Tivemos as batidas policiais contra Jorge Murad (2002) e Lu Alckmin (2006), a Lava-Jato estourando em ano eleitoral, o vazamento de dados pessoais da ex-Primeira Dama Ruth Cardoso, fora todas as baixarias ainda piores em níveis estadual e municipal.
A diferença é que essas baixarias aconteciam, mas ainda não vivíamos a Era das Redes Sociais e da Pós-Verdade. Se existe algo que pode caracterizar esses tempos atuais, é o abandono de qualquer critério objetivo de verdade. Fatos tornaram-se secundários, substituídos pelos filtros subjetivos de valores e legitimidade do interlocutor.

Eu, sujeito da História, abro mão de verificar a veracidade de um fato, e terceirizo o meu juízo crítico a um interlocutor pré-elencado, integrante de um rol de interlocutores que são arautos de um conjunto de valores que eu imagino ter. Importa menos a causalidade lógica e a comprobabilidade de uma afirmação, e mais se eu previamente considero válido o interlocutor que a profere – ou se a afirmação se encaixa com um pré-julgamento que eu já fiz antes mesmo de ler a notícia (ex: “Marielle era uma maconheira ligada ao tráfico”).

Até mesmo dados, evidências e números são manipulados para parecerem comprobatórios de um fato, apesar de não resistirem a dois ou três filtros lógicos de causalidade, que comprovariam se tratar de um sofisma (ou pra usar um termo atual: “fake news”). E esse é o terreno ideal para o Fla x Flu que vivemos.

Indivíduos são classificados pelo seu grau de legitimidade de fala (homem x mulher, trans x cis, negro x branco, servidor público x iniciativa privada, coxinha x mortadela, etc), pressupondo-se uma agenda pré-definida para o debatedor, como se as convicções políticas fossem uma promoção de “Big Mac”: se você apoia politicamente o hambúrguer, necessariamente apoia politicamente a batata frita e o refrigerante. Ou: se eu sou a favor de uma política fiscal mais responsável, necessariamente devo ser contra o aborto. O que, convenhamos, pode até ter alguma correlação com o espaço amostral do nosso eleitorado, mas não faz o menor sentido do ponto de vista da lógica causal.

A verdade, caro leitor, e agora adentro o terreno da minha hipótese acerca da emergência dos bolsominions, é que nesse cenário de Fla x Flu os extremos ganham força e protagonismo, e o diálogo é substituído pela vitória a qualquer custo. Eu deixo de debater com a finalidade de conhecer e entender o “outro lado” de uma questão, e passo a debater com o simples intuito de extinguir o outro, derrotá-lo, retirar sua legitimidade enquanto debatedor. Eu vivi o movimento estudantil entre 2003 e 2008, período em que o PT batia recordes de popularidade à frente do Governo Federal. Essa hegemonia (ou “modinha”) se reproduzia no ambiente acadêmico, e naquela época era dureza ser “de direita”. E já naquela época a tática usada pelos petistas do movimento estudantil era de destruir o outro, não ceder um único milímetro de razão num debate a qualquer pessoa que não aderisse integralmente à pauta preestabelecida pelo Partido.

A direita moderada, de Mário Covas, Arthur da Távola, Ruth Cardoso, Roberto Magalhães, Teotônio Vilella, Alberto Goldman, foi defenestrada por métodos de virulência e difamação, idênticos aos que hoje os bolsominions usam. Muita gente boa, dos dois lados, se retirou do debate por se recusar a se submeter a esses ataques. Ironicamente, também a parcela moderada da esquerda – Cristóvam Buarque, Fernando Gabeira, Marina Silva, etc – foi destruída pela própria ala radical da esquerda, através de perseguições, difamações e cassação do lugar de fala (quem não lembra dos ataques covardes sofridos por Marina Silva na campanha de 2014?).

Parte da esquerda, acreditando-se messiânica, abriu uma Caixa de Pandora, em que a metodologia de debates elegantes, respeitosos e racionais, foi substituída por uma metodologia de ataques ad personam e pela hegemonia do discurso. E a direita e a esquerda moderadas, derrotadas, foram substituídas por uma direita enfurecida, tosca e irracional, os bolsominions, que aprenderam direitinho as técnicas de hegemonia ideológica inauguradas pelos petistas. Tínhamos o cenário perfeito de dois irmãos siameses raivosos e cegos em suas ideologias: coxinhas x mortadelas, sem 3ª via. Imagino o nó que um indivíduo como eu deve dar na cabeça dos contendores do Fla x Flu: como economista e parlamentarista, apoiei a deposição da figura triste e inviável da Presidente Dilma; como garantista penal, repudio os fundamentos e o modus operandi da condenação judicial do ex-Presidente Lula. E sigo em paz com a minha consciência, como Cristo e Kant ensinaram a fazer.

A baixaria na política do Brasil sempre existiu, e sempre foi bilateral. Mas era uma baixaria envergonhada, como a Playboy da filha de Brizola nos anos 80, ou as mentiras de Jânio Quadros contra FHC em 84 (na corrida pela Prefeitura de São Paulo). As redes sociais transformaram a baixaria em regra, legaram políticos propositivos e moderados a um segundo plano, e o debate agressivo e difamatório trouxe novos protagonistas ao mainstream eleitoral. “Olho por olho, e todos terminaremos cegos”, já dizia Gandhi. A frase hoje poderia ser reformulada para o Fla x Flu político vivido no Brasil: “ovo por ovo, e logo terminaremos em tiros”. Que Deus nos ajude.

Artou Sosvic, março de 2018, Brasília/DF.

2 comentários:

  1. Para além do mencionado no texto acredito que os meios de comunicação contribuíram significativamente para o surgimento do fenomeno.

    Por exemplo: Reinaldo Azevedo, Augusto Nunes a rádio Jovem Pan, a revista VEJA, os youtubers ultraliberais, os ultraconservadores e os de extrema direita

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    1. Dá pra achar exemplos de fonento ao ódio dos dois lados. Concordo.

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