sexta-feira, 6 de abril de 2018

Em Defesa da Classe Média II


Nas últimas semanas, vivi duas experiências que servem como um “raio X” bastante didático de como vive e o que pensa a classe média do Brasil. Acredito até que sirvam como um retrato já um tanto estanque da classe média pós-milagre econômico dos anos 70, quando mergulhamos bruscamente da euforia “wannabe” yuppie direto pro realismo da semi-pobreza de um Brasil hiperinflacionário. Findo o milagre econômico, as ilusões de riqueza desapareceram da classe média brasileira, e os anos 80 e 90 foram bastante duros pra essa faixa intermediária da pirâmide cultural e econômica do Brasil.

Antes de adentrar na narrativa das duas experiências que vivi, cabe afirmar o equívoco na visão preconceituosa que a esquerda marxista tem sobre a classe média no Brasil, como se esta última fosse um exército de zumbis alienados, deslumbrados e manipulados pela elite detentora do poder político e econômico. Ocorre que, ao contrário, a classe média no Brasil é formada essencialmente por sobreviventes.

De um lado, aqueles que emergiram da pobreza e sobreviveram à lei da gravidade social, que tenta puxar de volta para baixo aqueles que “não tiveram berço”; de outro, os que decaíram de uma elite econômica e política (“avô rico, pai nobre, neto pobre”) e tiveram que se readequar ao novo status e às novas possibilidades (com toda a destruição emocional que esse processo traz). Tudo isso em um país ainda muito estratificado, onde a lei positivada é a maior inimiga prática da mobilidade social, criadora de reservas de mercado, corrupções corporativas e oligopólios (falaremos disso mais à frente). Um país em que os filhos da classe média nascem, crescem e têm filhos sempre sob o espectro assustador de “um dia se tornarem pobres”.

A classe média, podemos propor esse conceito de consenso, caro leitor, seria formada em regra por profissionais liberais, cujos “meios de produção” consistem na sua própria força de trabalho especializada (para atividades de maior valor agregado em relação à classe operária tradicional); ou por certas profissões que se constituem como uma “elite cultural”, pela sua capacidade de mobilização social e de formação de opinião (professores, bancários, servidores públicos, militares…). Não possui essa classe uma reserva de riqueza tal que a permita viver exclusivamente do trabalho alheio, seja pela renda (detentora de poupança) ou pela produção (detentora de meios). Feitas as conceituações prévias, vamos aos casos concretos.

A primeira experiência que vivi foi a participação em um concurso público para um cargo de alto salário no Governo, para o qual concorriam outros servidores públicos de salários menores, mas também filhos e filhas da classe média “estudantes para concurso” (um fenômeno que só existe no Brasil, explicarei o porque mais abaixo). A segunda, um curso de reeducação financeira, sobre como ganhar mais e gastar menos dinheiro.

Em ambos casos, via-se nos olhos tantos dos contendores do certame público quanto nos dos participantes do curso sobre dinheiro, a esperança, o cansaço, a motivação, as feridas, os sonhos… Pessoas imbuídas por uma força interior, uma visão que Lacan teria sobre como a esfera subjetiva transforma a realidade social (ou a confirma). Força essa abastecida pelos desejos mais íntimos de vitória, e pelo amor mais puro a terceiros (esposa, esposo, pais, filhos). Não posso jamais me alinhar aos que ridicularizam ou condenam a classe média por sonhar com “dias melhores”.

Mas por outro lado, é verdade também que, sem enxergar o “quadro geral”, quase todos os esforços individuais são inúteis. Não que não seja possível usar desse impulso individual como elemento de melhoria da sua própria vida e das pessoas próximas a você. Mas tal como nas distopias futuristas de Hollywood (“Conan”, “Escorpião Rei”, “Mad Max”, “O Livro de Eli”) e da série “3%”, produção brasileira da Netflix, há certas regras estruturais que, seguidas à risca, nos conduzem apenas ao vazio espiritual – ou como diria Arendt, à banalidade do mal, travestida de ordinário cotidiano.

O Brasil é o país em que as leis, bem intencionadas na origem, acabam se emaranhando em uma rede de proibições sem sentido, exageros burocráticos, formalismos abstrativistas, que alimentam e dão sobrevida à corrupção, ao fisiologismo, à reserva de mercado, à ineficiência, ao corporativismo, aos privilégios, aos oligopólios… tudo sempre em nome de um “bem comum”: mais regras de vigilância sanitária, mais regras contábeis e de registro cartorial, mais regras ambientais, mais regras de trânsito… regras, regras, regras. De efetividade zero. Mas pesadas o suficiente para fazerem com que só sobreviva no mundo dos negócios quem tem um “conhecido que conhece alguém”. O jeitinho brasileiro é a tábua de salvação de um povo involuntariamente submerso em uma teia de regras absurdas e draconianas.

Mandamos os nossos melhores talentos para fora do país, ou canalizamos a sua energia para “estudos para concurso”, num país em que o poder público representa um oásis de previsibilidade, ante uma iniciativa privada historicamente refém dos malabarismos macroeconômicos do Governo e da conhecida intransigência pseudo-moralista do “guarda da esquina” (Foucault e Passarinho avisaram…). E assim a nossa classe média vai sobrevivendo: lutando bravamente contra moinhos de vento, sem enxergar as engrenagens que a aprisionam. Não, não faço coro à demagogia maniqueísta da mesma esquerda marxista que critiquei no início do texto. O caminho para a libertação da classe média é a eficiência do Estado, e a ineficiência que vivemos hoje é ambidestra.

Artou Sosvic, abril de 2018, Brasília-DF.

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