terça-feira, 15 de maio de 2018

Se – e somente se – eu fosse votar em Ciro Gomes

Muito já foi escrito neste blog acerca dos possíveis cenários para as eleições presidenciais deste ano. Desde as previsões mais longínquas, logo após o impeachment de Dilma (http://artousosvic.blogspot.com.br/2016/12/e-possivel-prever-2018.html), passando por analogias com filmes e séries (http://artousosvic.blogspot.com.br/2017/07/algumas-licoes-de-politica-em-game-of.html e http://artousosvic.blogspot.com.br/2017/10/off-game-of-thrones-e-as-eleicoes-de.html), e certas discussões mais conceituais sobre o quadro político-partidário e o debate público no Brasil de hoje (http://artousosvic.blogspot.com.br/2017/05/para-alem-do-fla-x-flu.html e http://artousosvic.blogspot.com.br/2018/03/quem-criou-os-bolsominions.html).

Como pode perceber, caro leitor, material não falta para introduzi-lo ao cenário cada vez mais próximo de ser formado para este ano eleitoral, ainda incerto. Também não me pretendo neutro, dadas as opiniões contidas nos textos listados acima. Mas ainda que eu tenha decidido o plano de governo e as ideias que mais me são caras no debate (muitas delas órfãs de defensores), ainda não decidi o meu candidato. E é baseando-me nessas ideias que ora me questiono se elas seriam compatíveis com o que tem defendido até agora um dos contendores dessa eleição, o ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes.

Se eu fosse votar em Ciro Gomes, votaria sabendo que ele não governará com a maioria do Congresso, e que, apesar disso, é possível controlar algumas variáveis do jogo: quais obras de infraestrutura serão prioritárias para execução, quais são os ocupantes dos cargos de 2º a “X”º escalão do poder Executivo, o número de ministérios, as indicações para o COPOM e as estratégias de rolagem da Dívida Pública, e a taxa de câmbio (se o Governo irá intervir mais ou menos). Pode ainda vetar leis absurdas ou não consensuais social e politicamente, e tentar estabelecer o salário mínimo (por meio de medida provisória, sujeita a ser derrubada por maioria simples). E é “apenas” isso que ele pode fazer sem a maioria no Congresso, que de fato não terá.

Assim, se eu fosse votar em Ciro Gomes, seria apenas se ele reconhecesse a importância de o nosso câmbio “operar comprado” (quando o Governo desvaloriza ele num primeiro momento, mas adota medidas para induzir o Mercado a apostar na sua alta), usando o excedente da balança comercial para custear a expansão de obras de infraestrutura estratégicas no país. Votaria apenas se ele adotasse as medidas para reduzir a proporção de gastos correntes e vinculados em comparação a investimentos em infraestrutura, estes últimos sim com potencial para distribuir renda e riqueza e combater a inflação por meio da oferta mais barata de bens e serviços.

Se eu fosse votar em Ciro Gomes, seria apenas se ele fosse sincero de que o salário mínimo não pode subir acima da inflação em momentos de crise, pois isso acelera a inércia inflacionária e aumenta as indexações que sempre viciaram o Brasil em mais e mais inflação. Ao contrário, devemos subir o salário mínimo em cenários de pleno emprego, e estes sim podem e devem ser buscados com investimentos em infraestrutura e com políticas estruturais de redução dos juros. Não adianta subir o salário mínimo na canetada, no ar condicionado de um gabinete em Brasília, se na vida real o empresário continua dependendo de juros subsidiados para custear o aumento na sua escala de produção.

Se eu fosse votar em Ciro Gomes, ele teria que deixar claro que os subsídios às indústrias da química fina (farmacêutica, refino de petróleo e defensivos agrícolas), da nanotecnologia, e da siderurgia de base (especialmente o beneficiamento do aço explorado atualmente no Cerrado e na Amazônia) se dariam não pelo método dos “campeões nacionais” de Dilma – amigos do rei escolhidos por motivos políticos -, mas sim usando o modelo horizontal que deu certo no agronegócio. No modelo horizontal que já deu certo no Brasil, a EMBRAPA produziu e disseminou tecnologia barata; o BNDES promoveu a aquisição de maquinário e insumos de produção com regras facilitadas de importação; e os demais bancos públicos financiaram a escala sem discricionariedade, com regras iguais para todos.

Ainda, Ciro teria que esclarecer que a aquisição de bens e serviços pelo Governo, junto às novas iniciativas industriais incipientes (como no modelo do Pentágono americano, e que foi o mesmo que deu certo com a nossa EMBRAER), seguiria regras de eficiência e de “accountability” (transparência + governança). Seria o oposto do que aconteceu com a “política de conteúdo nacional” de Dilma e o fiasco da Petrobrás. Sem compadrios, sem tolerância com os fracassados, e sem reserva de mercado num ponto de subsídio acima do ponto de equilíbrio (n.e.: subsídios se justificam se os benefícios sociais totais, quando contabilizados numa matriz única, são superiores ao valor “a maior” pago pela aquisição de um bem ou serviço junto a um produtor menos eficiente – no caso, o contrário da Petrobrás de Dilma no ramo de estaleiros).

Se eu fosse votar em Ciro Gomes, ele aceitaria que não terá maioria no Congresso, que as reformas sairão do Congresso e pelo Congresso, mesmo que conservadoras, e que o papel do Governo é equilibrar essa “peleja” apenas nos pontos realmente importantes. Ele teria que escolher em quais batalhas lutar, e de forma estratégica para vencer a maioria delas. Ele teria sim que reduzir o número de ministérios, pelo simples motivo de que isso reduz a sanha dos urubus achacadores do Centrão Fisiológico. Com 18 ou 19 ministérios, fica mais difícil para o Baixo Clero se achar no direito de abocanhar algum deles – ao contrário, num cenário assim, apenas bancadas inteiras de um Estado ou de uma liderança regional lograriam êxito na obtenção de uma “porteira fechada”.

Se eu fosse votar em Ciro Gomes, solicitaria encarecidamente que ele parasse de inflamar o Fla x Flu da política, e abrisse um diálogo franco com boas lideranças do PSDB e do PMDB: Tasso Jereissatti, Paulo Hartung, Geraldo Alckmin, Antonio Anastasia, Simone Tebet, Pedro Taques, e até mesmo aqueles de posição duvidosa porém elegantes no debate, como Romero Jucá e Valdir Raupp. Isso para orquestrar uma aliança possível nas comissões do Congresso, identificando a possibilidade de pontos de interesse comuns entre Executivo e Legislativo, sem a sobreposição ou subjugo de um ao outro. Em suma, eu votaria em Ciro Gomes se e somente se ele não repetisse os mesmos erros de Dilma Roussef.

Se ele tivesse a humildade de entender o papel do Poder Executivo, de respeitar os freios e contrapesos constitucionais, de ouvir especialistas de diferentes correntes de pensamento econômico e de gestão, sem pré-julgamentos. Eu votaria em Ciro Gomes se, a despeito do estilo “estourado” e “boquirroto” dele, que me faz, ao contrário de desprezá-lo, me identificar em boa medida com ele, se mostrasse um líder estadista justo e com ambições proporcionais e razoáveis. Sem ilusões de grandeza e sem atropelos voluntaristas.
Olhando-me no espelho, consigo enxergar em Ciro o potencial de não cometer esses erros, ao mesmo tempo em que enxergo o risco de cometê-los. Votaria em Ciro Gomes se e somente se ele me provasse, durante as eleições, que é capaz de se superar seus aparentes defeitos e exaltar suas muitas qualidades, e logo, que eu também sou. Porque raramente tive tanta empatia humana com um político (o outro foi Lula, mesmo com as discordâncias de bandeira), e confio nele (Ciro) para demonstrar, na Presidência da República, que mesmo nós, os ansiosos apaixonados, somos capazes de manter o sangue frio na hora de decidir. Não sei se Ciro conseguirá o meu voto daqui até outubro, mas torço sinceramente que sim.

Victor C. F. de Sousa, maio de 2018, Brasília/DF.

2 comentários:

  1. Victor, muito bom o texto e acredito que deva ser aplicado para todos os candidatos.
    Resumo tudo que espero que um candidato cumpra.
    Só discordo de que ele não terá maioria no congresso. As forças do executivo tradicionalmente atraem a maioria dos grupos para o centro do poder. Ciro, sagazmente, ainda diz que não abomina a política e que fará justas composições com os deputados e senadores.
    Enfim, sigo todos os seus preceitos, e acrescento que votaria em alguém que mudasse o sistema fiscal e tributário, além de propor um modelo de educação básica capaz de retirar essa massa de pessoas desse estado de semianafalbetismo.

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