segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Carta ao Senador Tasso. Ou: O Suicídio do PSDB em Três Atos

Quando eu tinha nove anos de idade, na turma da 3ª série de Pró Gal no Colégio Antonio Vieira, tivemos um simulado na nossa sala sobre o plebiscito de 1993. Todos os meus colegas eram apoiadores do presidencialismo. Apenas eu e meu amigo Pablo “votamos” no parlamentarismo. Eu já gostava de política naquela idade, e vamos convir, precisava de uma certa personalidade para aguentar os coleguinhas chamando você de “parlamentirista” num simulado de eleição da 3ª série. Obviamente, o presidencialismo venceu na nossa turma (e, infelizmente, no Brasil também). Aquela foi a primeira vez que eu militei ao lado do PSDB.

Eu gostava de Fernando Henrique Cardoso, o “Príncipe”, como o alcunhara o opositor Leonel Brizola. Minha única divergência com FHC era na área de segurança pública, na qual eu achava que o Governo Federal era mole demais. Porém, depois de Lula, Dilma e Temer igualmente “moles demais” nessa área (e não tem nada a ver com as bravatas de Bolsonaro, falo de eficiência na gestão integrada de polícias), acho que FHC já está redimido junto a mim nesse quesito.

As pessoas falam em doutrinação de esquerda nas escolas públicas. Isso é uma bobagem. Na escola pública a preocupação do professor é não ser esfaqueado, e se sobrar um tempinho tentar ajudar seus alunos a resistirem ao assédio do tráfico. Doutrinação de esquerda existe é na escola particular, com os jovens bem nascidos, bem vestidos e bem alimentados, contrastando com professores mal pagos e entediados. Tive bons professores de História e Geografia, porém todos, absolutamente todos, militantes do PT. Era moda na época. Precisava de uma certa personalidade para defender Fernando Henrique naquela época, mas nunca recebi nota baixa por isso (ao contrário do que argumentam os defensores do Escola Sem Partido).

Entrei na Faculdade aos 17 anos, e na universidade pública aos 19. Era moda ser de esquerda naquela época (hoje é moda ser bolsominion). Então, vocês podem imaginar que ser eleitor do Alckmin em 2006 (no 2º turno), ou defender um movimento estudantil desvinculado de partidos (todos eles), era sinônimo, na época, de ser “nazista”. Tempos curiosos, porém saudosos. A política ainda era um território romântico, de valores. E eu já estava fora da universidade há dois anos quando, em 2010, acompanhei de perto a derrocada do PSDB, seu suicídio em três atos, o qual ora relato de modo sucinto.

O atual presidente do partido, Tasso Jereissati, deu uma entrevista na semana passada, provavelmente orientado por marqueteiros (incompetentes) da campanha de Alckmin 2018, “admitindo” que “o PSDB errou” (sic) ao questionar o uso de caixa dois pela campanha de Dilma em 2014, ao apoiar “pautas-bomba” contra a mesma Dilma entre janeiro de 2015 e maio de 2016, e ao apoiar o impeachment de Dilma. Essa entrevista desastrosa representa o 3º ato, e final, do suicídio do PSDB em três atos.

As pessoas se apegam à narrativa politica (e parece que a do PT está prevalecendo), e esquecem os detalhes técnicos. Quando o PSDB questionou junto ao TSE o suposto uso de caixa dois pela campanha de Dilma, a Lava-Jato já estava em curso, inclusive com alguns doleiros presos, com conexões (supostas) com a campanha presidencial do PT. As “pautas-bomba” de Eduardo Cunha eram erradas, sim, mas o Governo Dilma não fazia nada para conter a sangria fiscal (só um relato exemplificativo da época: http://artousosvic.blogspot.com/2016/01/e-possivel-sair-da-crise.html; e outro: http://artousosvic.blogspot.com/2014/11/um-apelo-aos-eleitores-de-dilma.html). E o impeachment de Dilma era a única saída visível naquele momento (a própria presidente loteou o Governo ao baixo clero, nos minutos finais do crepúsculo pré-queda, além de querer nomear um quase presidiário como chefe da Casa Civil).

Então, Senador Tasso, excetuando a desastrosa entrevista do senhor na semana passada, em quê exatamente o PSDB errou? Eram as únicas escolhas possíveis a serem feitas naquele momento histórico.

Em 2010, para acalmar a ala mais conservadora da oposição a Lula, acossada pelo PT nos municípios depois da consolidação da aliança PT - PMDB (mais de 90% dos municípios apoiavam o Governo Federal), o PSDB absorveu o discurso conservador nos costumes, fazendo da campanha Serra uma campanha digna de Donald Trump e George W. Bush. Silas Malafaia era o guru espiritual da campanha Serra. Ali o PSDB deu adeus a toda a sua história de centro-esquerda vanguardista nos costumes, tripudiando nos caixões de Ruth Cardoso, Mário Covas e Arthur da Távola, e promovendo a migração da parte mais enérgica da sua militância progressista para o PSB, o PPS e o PV.

Em 2014, Aécio era o candidato natural. Mas o partido passou quatro anos na inércia da derrota de 2010, sendo meramente reativo (quando muito!) aos desastres já iminentes do Governo Dilma, sem sequer ouvir a sua militância ou tentar construir uma pauta para 2014. Eu mesmo participei de duas reuniões do PSDB em Brasília. Ambas desastrosas. Na primeira, um grupo de apoiadores do ex-governador Beto Richa (à época um prodígio do partido, sequer cogitava-se que se tornaria réu e preso) tentava impor seu filho como presidente do PSDB Jovem (tão “jovem” que loteado como capitania hereditária). Na segunda, um grupo de evangélicos não filiados ao partido foi à reunião perguntar porque o PSDB não se tornava um partido crente, como PR e PRB. Era nesse nível. Eu alertei que Aécio perderia se não fosse feito um trabalho de base junto à militância: http://artousosvic.blogspot.com/2011/05/fiat-lux-ou-esperanca-aecio.html.

Então, temos: a guinada conservadora de 2010, a inércia preguiçosa e arrogante de todo o 1º mandato de Dilma (e o erro brutal de diagnóstico das manifestações de 2013, exceção honrosa feita ao sempre arguto e jamais ouvido FHC, a “Cassandra” do partido), e agora o “mea culpa” marqueteiro e inoportuno (além de injusto, no mérito) de Tasso Jereissati. O PSDB deu o terceiro tiro na própria testa, em 08 anos. Réquiem para o tucanato.

Victor Castro, Brasília/DF, setembro de 2018.

Nenhum comentário:

Postar um comentário