quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Uma Reflexão sobre os Idiotas

Tenho visto entre meus amigos de Esquerda (igualmente entre moderados e fanáticos) uma confusão conceitual, entre a crítica à postura apedeuta de parte dos apoiadores (e do Governo) do Presidente Bolsonaro, e a falsa ideia de que todo pensamento conservador é ruim. É injusto confundirmos o pensamento conservador com o reacionarismo idiota.

Havia valor em Merchior, Francis, Campos, Amoroso Lima, Carpeaux, Covas, Távola, Reale (pai), e outros pensadores conservadores do Brasil. Jonh Rawls, Robert Alexy e Michael Oakshott também são provas de que mesmo no fluido século XX o pensamento conservador pode ser profundo e exercer um papel relevante na defesa das liberdades individuais, da privacidade, das garantias jurídicas... sim, estão todos mortos!. Mas também a Esquerda não sofre igualmente da falta de novos pensadores?

A Declaração Universal de Direitos do Homem (1948), na minha opinião a mais feliz síntese do que se pode considerar um pensamento civilizatório, especialmente na forma e no momento em que foi concebida, traz em si valores que bebem diretamente na fonte da democracia liberal, democracia esta que os verdadeiros liberais e conservadores deram sangue (em 1688, em 1939-45, e ao longo de diversos outros momentos) para verem se transformar no que hoje chamamos de Estado Democrático de Direito.

E obrigado também à esquerda trabalhista (Labor Party e correspondentes ao redor do mundo) e/ou marxista por terem também contribuído com essa Declaração. Sendo assim, nem liberais, nem conservadores, nem a Esquerda, possuem monopólio moral ou autoral sobre a DUDH. Ela pertence a todos os seres humanos, mesmo aos idiotas que querem revogá-la com seus discursos de ódio e demagogias intolerantes (dos dois "lados"!)

Ainda, quero discordar da ideia de que o homem, bioneurologicamente falando, está se tornando mais idiota (no sentido de idioletice, de dialogar apenas com seu próprio ego). Não há motivo para esse pessimismo catastrofista. É apenas uma fase. O ser humano está inserido num contexto em que os espaços de enriquecimento do debate público e da reflexão sobre si e sobre o mundo foram reduzidos ao imediatismo rasteiro de 140 caracteres e/ou uma foto no Instagram.

As associações, grupos de leitura e estudos, partidos políticos, até mesmo sindicatos e igrejas, deixaram de ser espaços de debate e formação, e, também, de interação. O homem está sozinho na frente de um computador, e se julga satisfeito com suas próprias certezas, estimulado por likes de uma bolha cuidadosamente construída de pessoas que concordam com ele. Vai passar.

Vivemos a antítese da Era da Reflexão (séculos XIX/XX), que é a Era da Informação Bruta e Aética (século XXI). Mas a síntese entre uma e outra provavelmente - espero estar certo! - nos conduzirá a uma Era da Reflexão Informada ou Era da Consciência (que, dado o ritmo dos fatos, talvez se acomode mesmo ainda neste Século).

Então, ainda que os idiotas tenham perdido a modéstia e estejam no poder (e estavam também com Dilma!), há de ser apenas uma fase. Marx falava que a História se movia pela dialética da luta de classes, mas ela de modo algum se configura nesse cenário bizarro de caminhoneiros pedindo intervenção militar. Nem o indivíduo na História, nem a dialética de classes. O que, a meu ver, move a História, é o espírito do tempo. Que é mutável.

E logo logo viveremos sob a égide de um novo Zeitgeist. Espero que melhor.


Artou Sosvic, Brasília/DF, janeiro de 2019.

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