segunda-feira, 29 de julho de 2019

Para que fazemos o PIB crescer?

Primeiramente, leitor, peço que leia a entrevista do Nobel em Economia James Heckman, no link que segue: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/07/pre-distribuir-habilidades-e-melhor-jeito-de-reduzir-desigualdade-diz-nobel-de-economia.shtml . Sim, Heckman é da chamada “Escola de Chicago”, liberais ortodoxos na economia, que usam de modelos matemáticos para entender como podemos desenhar instituições regulatórias mais eficientes (já que o papel do Estado, para essa corrente, seria de corrigir distorções do mercado). Nos últimos anos, informa a Folha, Heckman tem se dedicado a um tema bem interessante: como criar nossas crianças para serem indivíduos que agreguem valor no futuro. Não o batedor de prego clássico do filme de Chaplin, mas o inovador, o criativo, o que desbrava e/ou cria mercados outrora inexistentes ou inexplorados.

E aí é inegável que, se por um lado tendemos (as alas menos radicais da direita e da esquerda) a concordar com o Nobel, de que estímulos na pré-infância produzem adultos mais criativos e inovadores (e logo, mais agregadores de valor), por outro precisamos identificar nessa situação uma clara antinomia de vetores causais. A antinomia é a seguinte: haveremos de criar mais adultos criativos e inovadores quanto menos o mercado impedir sejam dados estímulos cognitivos na pré-infância das nossas crianças.
Explico: como mostram as próprias pesquisas de Heckman, a exigência pelo mercado de rotinas de trabalho cada vez mais ininterruptas (para os pais), a existência de condições pretéritas de desigualdade (dos pais de uma criança para os pais de outra), e outras questões estruturais que reduzem o tempo de lazer e de educação que os pais podem prover aos seus filhos, reduzem também o percentual de crianças que estão tendo acesso a estímulos de desenvolvimento cognitivo na pré-infância em quantidade e qualidade satisfatórias.

E, no caso do Brasil, se essa realidade já é suficientemente grave para a classe média (com suas horas no engarrafamento, suas longas distâncias entre trabalho e casa, suas atividades de trabalho levadas para casa), imaginem para as classes de menor renda. Não, ao contrário do que dizem psicólogos e autores motivacionais, trata-se de uma epidemia social que vai muito além da mera escolha individual de cada pai. Não se trata apenas de optar individualmente por ter ou não mais tempo com os seus filhos, mas de vivermos numa sociedade que nega a opção da escolha.

Trata-se exatamente de uma hipótese lógica do chamado “ciclo vicioso”: temos uma sociedade que molda seu estilo de vida para que crianças tenham menos estímulos cognitivos na pré-infância, e o faz castrando dos pais o tempo de qualidade com seus filhos. Isso nos torna menos produtivos no presente e no futuro, torna nossos filhos menos criativos e menos inovadores, agrega menos valor ao nosso PIB no futuro e, mais pobres enquanto país, tendemos a ampliar esse uso desumano da força de trabalho em nossa sociedade. Resultado: as próximas gerações terão mais informação e mais tecnologia, mas menos capacidade de criar e inovar diante dessas oportunidades. E, logo, ficarão mais distantes de sociedades em que já hoje as crianças têm melhor atenção na pré-infância, e mais tempo com os pais.

Por isso a pergunta do título. Para além de apenas constatar o óbvio - que perdemos a maioria dos nossos talentos para a nossa própria incapacidade, enquanto país, de preparar nossos pimpolhos para o futuro -, cabe nos perguntar também porque motivo queremos crescer e nos desenvolver enquanto país. Agora, se o leitor me permite, sairei um pouco do campo social e adentrarei a questão econômica envolvida.

Assim como Heckman, eu também considero que o populismo (especialmente macroeconômico) é uma tragédia para qualquer sociedade no médio e longo prazos. Por isso não estou aqui pregando que se melhore a condição de lazer e de tempo de qualidade dos pais com seus filhos à base da perda de poupança interna ou de qualquer heterodoxia de professor pardal. Não se faz política social séria se as finanças estiverem desarrumadas.

Se torramos toda a nossa poupança interna com consumo imediato, ou fixamos regras trabalhistas desproporcionais ao que podemos produzir (como defende a ala radical da esquerda), perdemos competitividade relativa e deixamos de acumular poupança interna no futuro. Sem poupança interna, não sobra o necessário para darmos esses saltos evolutivos, especialmente na formação das nossas crianças e no investimento em infraestrutura de base (que dá competitividade ao setor produtivo).

Por outro lado, a crítica também é cabível à ala mais radical da direita: se deixamos de tributar os mais ricos, e retiramos a atuação estatal do fomento de boas práticas, deixamos que interesses privados sejam exclusivos na moldura de comportamentos sociais, ampliando exponencialmente a possibilidade de que, no médio prazo, esses comportamentos se tornem predatórios (a tal “corrida para o fundo”, ou a hipótese de colaboração - “lose-lose” - da Teoria dos Jogos).

Assim, precisamos pensar nossa sociedade e nosso país estrategicamente, de modo a fugir desses dois extremos. Queremos um país em que nossas crianças sejam “A” prioridade. Que a poupança acumulada seja usada para reduzir o tempo que os pais ficam no transporte público ou em engarrafamentos. Que tenham melhores condições de moradia. Que tenham reduzida a carga horária semanal porque a produtividade foi atingida com ganhos de eficiência pública e privada. Que o lazer, o meio ambiente, a cultura, e outros bens de acesso difuso, sejam internalizados como um custo a ser pago com parte generosa da nossa poupança interna.

Por isso a conclusão óbvia, porém pouco repetida no mainstream da política, de que ter um compromisso com regras socialmente eficientes de acúmulo e direcionamento da poupança nacional significa abrir uma avenida de oportunidades para as nossas crianças no futuro. A ortodoxia econômica e a justiça social não são antinômicas, como defendem os extremos de cada lado. Antes, são codependentes. Mas, para isso, precisamos saber exatamente como acumular poupança e quais serão as nossas prioridades.

Um país que taca pedras em Tábata Amaral por ela ter optado por fortalecer a educação, enquanto reformava os privilégios atualmente existentes na Previdência, esse país é duplamente doente. Primeiro, por não conseguir sair do Fla x Flu que retroalimenta o ódio na política; e segundo, por não entender que uma coisa e outras estão diretamente ligadas: sem mais poupança nacional, não poderemos dar os saltos evolutivos necessários e cuidar melhor das nossas crianças.

E a mesma crítica é possível ao outro lado, agora sim pertinente a Tábata, e fazendo a ponte com o pensamento de Heckman: temos que ter o compromisso de que a poupança gerada pela reforma da Previdência se traduza em ganhos de investimentos reais em melhoria da qualidade de vida de pais e filhos no Brasil. E, tão logo esses investimentos resultem em ganho de produtividade e geração de mais poupança interna, que se reduza a carga horária de trabalho dos pais na medida desse ganho de produtividade. Em um dado momento, aí sim chegaremos à realidade cor de rosa dos psicólogos de TV e dos autores motivacionais: que ter ou não tempo de qualidade com os filhos é uma escolha exclusivamente individual de cada pai. Ainda estamos bastante distantes dessa realidade.

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