quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Porque não me considero de esquerda

Primeiramente, cabe esclarecer ao leitor o porquê deste texto. No mundo em que vivemos, e escrevi já algumas vezes neste blog sobre o atual espírito do tempo, importam mais os rótulos do que o argumento em si. Ser “de direita” ou “de esquerda” tornou-se um cartão de visitas, que ditará como o seu interlocutor recepcionará os seus argumentos em um debate. Então, se pretendo rotular o meu cartão de visitas como “direita” (visto que ainda não inventaram o cartão de visitas de modo “radical de centro”), bom justificar bem o motivo desse rótulo escolhido.

Ainda, como já mencionei algumas vezes neste blog, sempre usei como critério para ser “de direita” o fato de eu não ser marxista. Ironicamente, assim sempre o fiz por respeito justamente aos meus amigos de esquerda mais raiz, aqueles de formação literária em esquerda, para quem somente o marxismo pode ser considerado o filtro para distinguir direita e esquerda.

Mesmo eu sendo mais libertário nos costumes do que a maioria dos meus amigos autodeclarados de esquerda. Mesmo eu sendo um garantista penal coerente nos atos e nas ideias, espécie rara nos dias de hoje. Mesmo eu defendendo a intervenção do estado para combater a desigualdade. Fato é que rotulei-me “de direita”, desde mais ou menos o ano de 2002, em respeito justamente aos meus amigos de esquerda. E a verdade é que tenho sim duas discordâncias estruturantes em relação ao pensamento da esquerda tradicional. E é sobre isso este texto.

A primeira discordância reside na busca da esquerda por uma solução redentora de todos os conflitos sociais existentes. Alguns falam em revolução. Outros falam em imposto sobre grandes fortunas. Outros falam em acabar com o Democratas. Outros falam em soltar o Lula. Outros falam em auditoria cidadã da Dívida. O fato é que, usando-se de um método tão abstracionista quanto é típico dos poetas mais errantes do auge do romantismo, o pensamento de esquerda aliena-se voluntariamente da complexidade da realidade, e se apega sempre a soluções fáceis e equivocadas para problemas difíceis. E, geralmente, sob uma perspectiva binária, do bem contra o mal. Do nós contra eles.

É verdade que a nova direita de Trump, Farange, LePen e Bolsonaro, também acredita num conto de fadas maniqueísta, em pureza moral, em demonização do outro e no debate simplório e binário. Mas a esquerda chegou uns 150 anos antes nesse patamar, usa já há algumas décadas esse mesmo método, então minha crítica é mais à esquerda veterana do que à extrema direita iletrada e neófita. Ambas delirantes.

E sendo esta uma crítica construtiva aos meus amigos de esquerda, jamais posso concordar que em qualquer tempo ou espaço exista uma solução redentora de todos os conflitos sociais existentes. Ao contrário: alterado-se o status quo, os interesses se alteram, e novos conflitos surgem. A URSS é didática pra entendermos isso. Em economia, temos até um nome para esse conceito: “preço sombra”. Alteram-se as condições de partida, novas ambições, valores, aspirações, poderes, trunfos, alianças, antagonismos, preferências e interesses surgem. “Sei que nada será como antes amanhã...”, cantava nossa saudosa Elis, ela mesma também simultaneamente vítima e algoz do patrulhamento das esquerdas, quando viva. Não existe solução redentora. O ser humano sempre viverá em conflito(s).

E falando em interesses, isto me leva à minha segunda discordância estruturante em relação ao pensamento da esquerda: a ideia de que existiria um interesse coletivo ideal, quase platônico, bastando que rompêssemos as estruturas que nos prendem ao status quo conservador, e então esse interesse coletivo ideal desceria “de uma estrela colorida e brilhante”, viria cravado numa rocha inquebrantável transfigurada no olhar resoluto da revolucionária campesina, para libertar o “novo homem” e nos trazer um amanhã glorioso.

Mas em verdade, em verdade, vos digo: a ideia de um interesse coletivo é não apenas utópica (geralmente distópica), mas o conceito em si é uma contradição que morde o próprio rabo.

É bom esclarecer: a ideia de que a coletividade pode se unir em torno de interesses comuns é não apenas possível, como é o que justifica todas as instituições que conhecemos hoje. Eu mesmo costumo brincar com meus amigos, quando me perguntam o que é o direito, que o direito é a junção de todos esses conceitos “ao mesmo tempo agora”: uma noção inata de Justiça; a tradução niilista (e privada!) do poder de ocasião; uma evolução cumulativa de aprendizados históricos; e uma construção dialética entre forças que se equilibram.

Então, sim, podem haver consensos coletivos. Eles levam tempo para amadurecer, exigem muitos embates entre diferentes correntes de pensamento, resgatam instintos que são inatos ao ser humano, e deixam um legado para as próximas gerações. Não à toa a Declaração Universal de Direitos Humanos (1948) vem depois do Holocausto e do nazismo, e levou mais de 70 anos até ser boçalmente contestada pela extrema direita, nos dias loucos que vivemos atualmente. Outro exemplo de consenso coletivo, num recorte mais específico: o combate à inflação e a necessidade por uma moeda forte viraram consenso no Brasil somente depois de 100 anos de política de encilhamento, e depois de uma década inteira de hiperinflação.

Então sim, consensos mais amplos, de conceitos gerais, existem, ainda que levem décadas (ou séculos: vide o intervalo entre João Sem Terra, 1290, e Cromwell, 1648) para serem construídos. Mas esses consensos gerais não condicionam em nada a mediação dos conflitos intersubjetivos que existem de forma caótica em nossa sociedade. Não existe um interesse coletivo redentor, nem arautos deste, que contemple todos os diferentes interesses pululando nas infinitas tonalidades de cinza do mundo real.
E principalmente, pensando-se no dia seguinte a uma revolução: é impossível criar e/ou prever consensos sobre decisões da microesfera de poder. É nesse ponto que a esquerda erra feio, erra rude. “O problema é o guarda da esquina”, aprendemos a duras penas na História do Brasil. Decisões de microesfera de poder geralmente envolvem centenas, milhares, milhões de conflitos intersubjetivos acontecendo ao mesmo tempo, como na Teoria do Caos da física e da economia. A esquerda enxerga o mundo apenas sob a ótica de um conflito binário (rico x pobre; norte x sul; branco x negro; homem x mulher). E por isso sua ideia de interesse coletivo se resume ao caminho fácil e equivocado dos falsos consensos binários.

Mais uma vez: sim, a nova ultradireita iletrada também comete o mesmo erro, mas eu quero mais é que Trump, Farange, LePen, e seus correspondentes em terras tupiniquins, se explodam em seu ódio e em sua ignorância. Não tenho nenhum apreço pelos extremos.

Uma dica à esquerda: ao invés de falarmos em “interesse coletivo”, uma contradição conceitual em si mesma, falemos em instituições, em regras do jogo que sirvam de modo impessoal para todos, para mediar os diferentes conflitos existentes ou vindouros. O papel das instituições (Douglass North) é exatamente o de regular essas interações intersubjetivas, achar saídas não consensuais porém razoáveis e proporcionais.

E para isso, alternativamente a nos apegarmos a arautos iluminados e messiânicos que se pretendem detentores da verdade sobre o “interesse coletivo”, melhor construirmos balizas que ponderem a aleatoriedade do mundo real, e permitam de forma caótica se achar uma ordem nessa loucura. Isso são as instituições. Numa revolução que se pretende monológica, como geralmente o querem as esquerdas “raiz”, a tendência é que a microesfera decisória seja cooptada por interesses privados do mercado negro, enquanto o mainstream usa a ideia de “interesse coletivo” para de forma cínica defender também interesses e/ou valores privados. Mais uma vez a URSS foi didática em comprovar isso, mas mais recentemente, e mais próximos de nós, temos o exemplo dos Kirchner na Argentina e do bolivarianismo na Venezuela.

Para ilustrar as ideias aqui expostas ao leitor, sugiro de forma lúdica assistir à 5ª temporada do seriado Peaky Blinders, e perceber como o personagem Thomas Shelby, um cínico gangster das ruas de Birmingham, se converte em um defensor da liberdade e combatente dos fascistas. Há um diálogo memorável dele com Churchill no 6º episódio, imperdível. Mas o personagem não o faz por convicção de ser de esquerda, outrossim por convicção de não aderir aos extremos, extremos estes que caracterizam tanto o discurso de esquerda raiz quanto os espasmos históricos de novas formas de nazismo/fascismo, ambas cadelas que estão “sempre no cio”.

Por esses dois motivos, por não acreditar em solução redentora, nem na ideia de que possa haver um arauto iluminado do “interesse coletivo”, e por acreditar fielmente na busca por um equilíbrio entre múltiplos e diversos interesses individuais, eu jamais poderia me autodeclarar de esquerda. E, não havendo a opção “radical de centro” como válida no atual Fla x Flu, posto-me como um moderado de direita, crítico desde a primeira hora da ultradireita neófita e iletrada, defensor do legado liberal de defesa do indivíduo, esta última uma esfera tão castigada e “jurada de morte pelo arbítrio”. É o zeitgeist. Que passe logo...




Artou Sosvic, Brasília/DF, outubro de 2019.

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