segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Das Doces Mentiras Que os Políticos Contam

Das Doces Mentiras Que Os Políticos Contam

Imagine, nobre eleitor, que no governo de extrema direita de Erdogan, na Turquia, o Governo resolvesse da noite pro dia, com autorização do Congresso, cortar 20 a 25% do valor nominal de todos os salários dos servidores públicos.

Imagine que, num contexto de desemprego e crise, a sociedade quisesse um bode expiatório, alguém que pagasse o pato pelas agruras do país, e escolhesse os servidores públicos.

Bem, a medida não atingiria todos os servidores, correto? De início, não atingiria militares, policiais federais e rodoviários, e professores universitários. Cerca de 70% da folha salarial do Executivo federal não estaria abrangido. Não atingiria também os ocupantes de cargos de chefia, cerca de mais 5% da folha do Executivo federal. E, por óbvio, não atingiria servidores do Judiciário e Legislativo, uma parte igualmente significativa dos gastos da União com servidores.

Também não atingiria os inativos, parte significativa dos gastos do mesmo Executivo Federal, cuja despesa em alguns órgãos corresponde a quase a metade de toda a folha salarial.

Em suma, a medida seria inócua, pois atingiria menos de 20% dos servidores da União, e em apenas 25% de seus salários. Ou seja: uma redução de aproximadamente 3 ou 4% dos gastos totais de pessoal da União, por apenas dois anos. O congelamento do reajuste inflacionário já tem efeito similar, com mesmos resultados ano a ano, desde 2017.

A medida ainda seria judicializada, com riscos de ser declarada inconstitucional pela Corte Suprema.

E seria igualmente inócua por dois motivos: 1) que essa redução de gastos correntes em valor insignificante por apenas dois anos restabeleceria a curva crescente de gastos ao final do biênio, não alterando estruturalmente os gastos de pessoal da União; 2) o problema da Dívida é de perfil da Dívida: é preciso fazer crescer os investimentos em infraestrutura, e não apenas cortar e cortar sem critério e a alto custo político e social.

O Governo de Erdogan, se assim o fizesse, contaria uma mentira a toda a população, e essa população comeria essa mentira, porque o ódio por culpados e a busca por bodes expiatórios cega a razão.

Ah, as doces mentiras que os políticos contam, e ah, a nossa inclinação ingênua por sempre acreditar neles...

Artou Sosvic, Turcomenistão, novembro de 2019.

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